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18 de fevereiro de 2014

Eva

Ilustração de Lee Misook


Quando Eva andava nua pelo paraíso,

disfarçava o tédio à sombra das árvores, colhendo 

as flores, cheirando o seu perfume,

e pensando como seria bom ter um céu

para espreitar.


Um dia, uma dessas flores transformou-se em

fruto; e Eva levou-o à boca, trincou-o, provou

a sua polpa. Por um estranho efeito

de causa e consequência, o sabor da maçã

obrigou Eva a cobrir a sua nudez

com folhas e flores, que passaram

a ser uma metáfora do corpo

que escondem.


Então, o pecado tornou-se uma simples

figura de retórica, e o sexo um exercício

de interpretação.


Nuno Júdice, in A Matéria do Poema, Dom Quixote,2008, 1ª ed., p. 42

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