![]() |
| Ilustração de Laimonas Smergelis |
Um blogue que se alimenta de e com ilustrações e palavras, sobretudo textos literários.
5 de abril de 2015
Caminho da manhã
Final
3 de abril de 2015
O destino
![]() |
| Ilustração de Laimonas Smergelis |
O destino eram
Os homens escuros
Que assim lhe disseram:
- Tu esculpirás Seu rosto
de morte e de agonia.
Sophia de Mello Breyner Andresen, in O Cristo Cigano
Etiquetas:
agonia,
cristo cigano,
destino,
laimonas smergelis,
morte,
rosto,
sophia de mello breyner andresen
Aparição
![]() |
| Ilustração de Laimonas Smergelis |
Devagar devagar um homem morre
Escura no jardim a noite se abreA noite com miríades de estrelas
Cintilantes límpidas sem mácula
Veloz veloz o sangue foge
Já não ouve cantar o moribundo
Sua interior exaltação antiga
Uma ferida no seu flanco o mata
Somente em sua frente vê paredes
Paredes onde o branco se retrata
Seus olhos devagar ficam de vidro
Uma ferida no seu flanco o mata
Já não tem esplendor nem tem beleza
Já não é semelhante ao sol e à lua
Seu corpo já não lembra uma coluna
É feito de suor o seu vestido
A sua face é dor e morte crua
E devagar devagar o rosto surge
O rosto onde outro rosto se retrata
O rosto desde sempre pressentido
Por aquele que ao viver o mata
Seus traços seu perfil mostra
A morte como um escultor
Os traços e o perfil
Da semelhança interior.
Sophia de Mello Breyner Andresen, in O Cristo Cigano
2 de abril de 2015
Tempo de silêncio
![]() |
| Ilustração de Laimonas Smergelis |
Tempo de solidão e de incerteza
Tempo de medo e tempo de traição
Tempo de injustiça e de vileza
Tempo de negação
Tempo de covardia e tempo de ira
Tempo de mascarada e de mentira
Tempo que mata quem o denuncia
Tempo de escravidão
![]() |
| Ilustração de Laimonas Smergelis |
Tempo dos coniventes sem cadastro
Tempo de silêncio e de mordaça
Tempo onde o sangue não tem rastro
Tempo de ameaça
Sophia de Mello Breyner Andresen, "Data (à maneira d'Eustace Deschamps" in Livro Sexto
Etiquetas:
escravidão,
incerteza,
injustiça,
inocentes,
livro sexto,
negação,
solidão,
sophia de mello breyner andresen,
traição
Amor
Não é porque Deus nos ama que nós devemos amá-Lo. É porque Deus nos ama que nos devemos amar. Como é possível amar-se a si mesmo sem este motivo?
![]() |
| Ilustração de Andrew Ferez |
O amor a si mesmo é impossível ao homem, a não ser através deste subterfúgio.
Simone Weil, in A gravidade e a graça, Relógio d'Água, 2004, col. Antropos, p. 65
31 de março de 2015
É preciso falar baixo no sítio da primavera
![]() |
| Ilustração de Jennifer Lambein |
É
preciso falar baixo no sítio da primavera, junto
à
terra nocturna. Junto à terra transfigurada.
Tudo
ouve as minhas palavras talvez irremediáveis.
Infatigável
perfume se acrescenta nos jacintos, fogo
sem
fim circunda suas raízes leves.
É
preciso não acordar do seu ofício a luz que inclina
os
meus espinhos frios,
a
lua que inclina meu sangue ligado e o sangue
da
terra nocturna.
Agora
a primavera trabalha nas galerias mais antigas,
bate
os seus martelos contra um milhão de estrelas.
(...)
![]() |
| Ilustração de Claire Robertson |
A
primavera cresce num núcleo de ideias, as cabras
evaporam-se,
reaparecem em espírito
mastigando
giestas. Primavera é uma palavra
numa
língua demasiado estrangeira.
Uma
coisa enorme, sem música.
Falo
tão devagar que mal distingo
a
noite sobre a terra
da
minha garganta onde os animais passam
lentamente
inspirados.
Só
encosto a testa ao oculto fogo dos nomes,
e
o sangue alimenta a loucura
devagar, devagar — como quem ressuscita.
![]() |
| Ilustração de Erin Hogan |
Herberto Helder, in Ou o poema contínuo
30 de março de 2015
Não sei como dizer-te que minha voz te procura
![]() |
| Noite estrelada, de Van Gogh |
Não sei como dizer-te que minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e vasta.
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. Quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
— eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.
![]() |
| Campo de trigo com corvos, de Van Gogh |
Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite.
— E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
— não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.
![]() |
| A sesta, de Van Gogh |
Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço —
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave — qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,
![]() |
| Pintura de Van Gogh |
que te procuram.
Herberto Helder
29 de março de 2015
Aceitar alguém
26 de março de 2015
Sacode as nuvens
![]() |
| Ilustração de Nina Chen |
Sacode as nuvens que te poisam nos cabelos,
Sacode as aves que te levam o olhar.
Sacode os sonhos mais pesados do que as pedras.
Porque eu cheguei e é tempo de me veres,
Mesmo que os meus gestos te trespassem
De solidão e tu caias em poeira,
Mesmo que a minha voz queime o ar que respiras
E os teus olhos nunca mais possam olhar.
Sophia de Mello Breyner Andresen, in Obra Poética I
Etiquetas:
aves,
presença,
proteção,
sacode as nuvens,
solidão,
sophia de mello breyner andresen
Gabinete de curiosidades
![]() |
| Ilustração de Alenka Sottler |
Em certas ocasiões, tais e tantos como por aí andam imagens e objectos que me povoam a fantasia, a existência aparece-me como um gabinete de curiosidades.
Mário Cláudio, in O Fotógrafo e a Rapariga, D. Quixote, 2014,p. 19
Etiquetas:
alice no país das maravilhas,
curiosidade,
fantasia,
mário cláudio,
o fotógrafo e a rapariga
As minhas mãos
A procura
![]() |
| Ilustração de Belinda Worsley |
...uma vida só assente em respostas é uma vida diminuída, à maneira de uma primavera que não chegou a ser.
Tolentino Mendonça, in Nenhum caminho será longo, Para uma teologia da amizade, Paulinas, 2012, p. 136
Etiquetas:
dúvida,
Nenhum caminho será longo,
primavera,
procura,
questionamento,
Tolentino Mendonça,
vida
25 de março de 2015
A grandeza primeira
![]() |
| Ilustração de Alenka Sottler |
e eis súbito ouço num transporte público:
as luzes todas acesas e ninguém dentro da casa:
sete ou nove metros de labaredas,
e nem um grito, um sussurro, uma palavra:
só a casa ocupada pela grandeza da estrela,
a grandeza primeira
Herberto Helder, in Servidões, Assírio&Alvim, 2013, 1ª ed. p. 39
24 de março de 2015
No reino desta menina...
![]() |
| Ilustração de Carolee Clark |
No reino desta menina [Alice, no país das maravilhas], dominado por relógios de variada descrição, o surto de um coelhinho branco, e do mecanismo de bolso que o mesmo ostentava, não deveria suscitar a menor das surpresas. Mas tratava-se na circunstância de um contador do tempo do sonho, função que requeria um apurado engenho, e de aspecto especial. O relógio do Coelho marcava horas esdrúxulas...
Mário Cláudio, in O Fotógrafo e a Rapariga, D. Quixote, 2014, p. 31
Etiquetas:
alice no país das maravilhas,
coelho,
mário cláudio,
o fotógrafo e a rapariga,
sonho,
tempo
22 de março de 2015
Poema a uma noite
![]() |
| Ilustração de Ellie Horie |
Empurro a noite para o lado, tiro-a da minha
frente, e ela insiste em não sair; mas encosto-a
contra a parede, e a noite começa a desaparecer,
sugada pelo branco da cal, até nada ficar dela senão
um fantasma de lua no azul deste céu que
ocupa todo o espaço sobre a minha cabeça, e
cujo peso me empurra para o chão. Tento
levantar-me; mas os meus braços não resistem
ao peso do azul, e dobram-se, enquanto a terra
se abre para me oferecer o seu refúgio. Porém,
que irei eu fazer no interior da terra, por entre
vermes e raízes? E deslizo entre o céu e
a terra, em busca da noite que fiz desaparecer.
Nuno Júdice, in A matéria do poema, D. Quixote, 2008, 1ª ed., p. 100
21 de março de 2015
A poesia clássica
![]() |
| Ilustração de Pinwheel Bunny |
Esvazio uma colheita de estrelas na eira
do infinito, onde as velhas deusas do oriente
as limpam do seu fogo. No fim do trabalho,
ficam a secar, à espera que o moleiro
venha, com o seu saco de vento,
e as leve para o moinho. As mós do sonho
reduzem-nas a este farelo de luz que os poetas
põem no alguidar das palavras, para
que as musas preparem a massa
da inspiração. E enquanto espero que
o forno aqueça, olho para o céu
vazio de estrelas, onde um cometa,
com o rasto único da madrugada,
escreve o princípio do poema.
Nuno Júdice, in A matéria do poema, D. Quixote, 2008, 1ª ed., p. 123
20 de março de 2015
Alice
Às seis em ponto, e obedecendo ao comando da rapariga que na véspera acertara o ponteiro para esse momento exacto, o despertador de algarismos romanos disparou numa estridência capaz de acordar toda a casa. (...)
![]() |
| Ilustração de Nina Chen |
Alice sentou-se na cadeira alta que ocupava em pequenina, mas de que recusava prescindir apesar de ter aumentado de tamanho, assentou os cotovelos no tampo de mármore, desafiando assim o código a que devia submeter-se na sala de jantar, e lançou-se a comer o que lhe haviam colocado à frente.
Mário Cláudio, in O Fotógrafo e a Rapariga, D. Quixote, 2014, pp. 23, 24
19 de março de 2015
Só me satisfaz o infinito (2)
17 de março de 2015
Só me satisfaz o infinito (1)
Subi as escadas com a pessoa do 3A, bailarino. Costuma andar com roupas brancas ou de outra cor qualquer e com cabelos compridos, mas mais curtos do que as suas certezas. Comunicou-me que gosta muito da natureza, de andar descalço (eu comuniquei-lhe que já sabia), e de dormir ao relento, debaixo das estrelas.
É o meu cobertor favorito. Um hotel de cinco estrelas é pouco para mim, preciso de um com muitas mais estrelas.
Cinco não chegam?
Só me satisfaz o infinito.
Afonso Cruz, in Assim mas sem ser assim - Considerações de um misantropo, Caminho, 2013, p. 22
16 de março de 2015
Serão tristes as oliveiras?
Aquela senhora que conheci no comboio, olhando pela janela, disse-me a certa altura que a oliveira é uma árvore triste. Olhei também e estive quase a concordar. Agora felicito-me, porque não foi preciso. Lembro-me que a senhora ia vestida de preto. Talvez lhe tivesse morrido alguém. Às oliveiras daquele olival que passava lá fora é que eu tenho a certeza de que não faltava nada: nem sol, nem uma leve brisa, nem um fruto grado, prometedor. E perguntei para mim, ao descer do comboio:
- Porque maltratamos as oliveiras?
Ruy Belo, in Todos os nomes, Assírio&Alvim, 2000, p. 263
15 de março de 2015
Grandeza do homem
![]() |
| Ilustração de Ančka Gošnik Godec |
Chovam as estações soprem os ventos
jamais hão-de passar das margens
Caia mesmo uma bota cardada
no grande reduto de deus e não conseguirá
desvanecer a primitiva pegada
É esta a grande humildade a pequena
e pobre grandeza do homem
Ruy Belo, in Todos os nomes, Assírio&Alvim, 2000, p. 58
11 de março de 2015
O valor perfectivo das palavras
- (...) As palavras são tudo. Olha: a palavra frio desce. A palavra calor sobe. A palavra ninho tem ovos lá dentro e um pássaro a dormir.
![]() |
| Ilustração de Satoshi Ota |
Há quem não queira que confundamos as palavras com as coisas, que o mapa não é o território, mas as palavras é que são as coisas. Há mapas, mas não há nenhum território. A palavra porta abre e fecha; e a palavra janela, se for velha, tem o vidro partido. A palavra água ou se bebe ou afoga-nos. Porque há pessoas com sede e pessoas que se afogam. É assim que se separa a humanidade: uns pegam nas coisas para morrer e outros para viver. E há a palavra mar que afunda todos os navios.
Afonso Cruz, in O pintor debaixo do lava-loiças, Caminho, 2011, 1ª ed., p. 46
9 de março de 2015
Que bicho espantoso!
![]() |
| Ilustração de Loretta Krupinski |
As ratazanas, que bicho espantoso! Anteciparam a Segunda Guerra. Pareciam ter um mapa das canalizações de Londres; como se tivessem na cabeça os vários itinerários e como se soubessem já o que ia acontecer. Fugiram muito antes dos bombardeamentos.
8 de março de 2015
O rosto
Nas mãos tinha uma pequena cartolina. Marius esqueceu-se da sua pressa e aproximou-se. Ela sorriu e passou-lhe a cartolina para as mãos. Estava dactilografada.
![]() |
| Ilustração de Mymoodo |
"FORNECER OS SEUS DADOS PESSOAIS
1- Dizer o primeiro nome
2- Dizer se é rapaz ou rapariga
3- Dizer o nome completo
4- Dizer o nome dos pais e irmãos
5- Dizer a morada
6- Dizer em que escola anda
7- Dizer a idade
8- Dizer o dia e o mês de aniversário
9- Dizer a cor dos olhos e do cabelo"
Marius sorriu.
Perguntou.
- Qual é o teu primeiro nome?
- Hanna.
Gonçalo M. Tavares, in Uma menina perdida no seu século à procura do pai, Porto Editora, 2014, 1ª ed., p. 9
4 de março de 2015
A neta do Senhor Linh
Na aldeia só havia uma rua. Uma única. O chão era de terra batida. Quando a chuva caía, violenta e a prumo, a rua tornava-se um ribeiro em fúria pelo qual as crianças nuas corriam rindo às gargalhadas.
![]() |
| Ilustração de_Iwasaki Chihiro |
Durante o tempo seco, os porcos dormiam na rua espojando-se na poeira, enquanto os cães se perseguiam, ladrando. Na aldeia, toda a gente se conhecia e se cumprimentava quando se via. Havia ao todo doze famílias, e cada uma delas sabia a história das outras, era capaz de nomear os avós, os antepassados, os primos, conhecia os bens que cada um possuía. Em resumo, a aldeia era uma grande e única família, repartida por casas erguidas sobre estacas, e debaixo das quais as galinhas e os patos esgravatavam o chão e cacarejavam.
![]() |
| Ilustração de Flor Opazo |
O velho apercebe-se de que, quando pensa na aldeia, pensa em termos de passado. O que lhe provoca um aperto no coração. É realmente um verdadeiro aperto que sente quando pousa a mão livre sobre o peito, no sítio do coração, para pôr termo ao aperto.
Philippe Claudel, in A Neta do Senhor Lihn, ed. Asa, 2006, 1ª ed., p. 14
1 de março de 2015
O perfume
28 de fevereiro de 2015
Ver claro
![]() |
| Ilustração de Deborah Dewit |
Toda a poesia é luminosa, até
a mais obscura.
O leitor é que tem às vezes,
em lugar de sol, nevoeiro dentro de si.
E o nevoeiro nunca deixa ver claro.
Se regressar
outra vez e outra vez
e outra vez
a essas sílabas acesas
ficará cego de tanta claridade.
Abençoado seja se lá chegar.
a mais obscura.
O leitor é que tem às vezes,
em lugar de sol, nevoeiro dentro de si.
E o nevoeiro nunca deixa ver claro.
Se regressar
outra vez e outra vez
e outra vez
a essas sílabas acesas
ficará cego de tanta claridade.
Abençoado seja se lá chegar.
Eugénio de Andrade
É assim a música
![]() |
| Ilustração de Liese Chavez |
A música é assim: pergunta,
insiste na demorada interrogação - sobre o amor?, o mundo?, a vida?
Não sabemos, e nunca
nunca o saberemos.
Como se nada dissesse vai
afinal dizendo tudo.
Assim: fluindo, ardendo até ser
fulguração – por fim
o branco silêncio do deserto.
Antes porém, como sílaba trémula,
volta a romper, ferir,
acariciar a mais longínqua das estrelas.
Eugénio de Andrade
27 de fevereiro de 2015
O tempo e as histórias
![]() |
| Ilustração de Deborah Dewit |
Hoje, com o apressuramento da vida, as orelhas moucas fogem dos contadores de histórias, não há tempo para as memorizar nem para as recriar nos confins da recordação.
Ensaios sobre cidade, cultura e vida urbana,
Imprensa de Ciências Sociais, col. Breve Sociologia, 2010, 1ª ed., p. 48
26 de fevereiro de 2015
O tempo do caracol
![]() |
| Ilustração de Amber Alexander |
Um caracol japonês subia lentamente ao longo de um tronco de cerejeira. Estava-se em Fevereiro ou Março. O caracol encontrou um insecto que lhe disse:
- Onde vais? Não está na época! Não há cerejas nesta árvore!
- Haverá quando eu chegar - respondeu o caracol sem parar.
Jean-Claude Carrière, "O insecto e o caracol",
in Tertúlia de mentirosos - Contos filosóficos do mundo inteiro,
Teorema, 2000, p. 348
Etiquetas:
caracol,
cerejas,
contos filosóficos,
insecto,
inseto,
jean-claude carrière,
tempo,
tertúlia de mentirosos
25 de fevereiro de 2015
A era do numérico
Entrámos na época do império numérico. Tudo se conta. Do dinheiro aos segundos, dos metros aos quilogramas, das calorias aos cafés bebidos diariamente.
José Machado Pais, in Lufa-lufa quotidiana,
Ensaios sobre cidade, cultura e vida urbana,
Imprensa de Ciências Sociais, col. Breve Sociologia, 2010, 1ª ed., p. 58
![]() |
| Ilustração de Delphine Doreau |
23 de fevereiro de 2015
Nem todos os minutos são iguais
![]() |
| Ilustração de Selda Marlin Soganci |
A neurose urbana existe porque vivemos algemados a relógios, havendo uma tendência para subjugar a vida ao poder da cronometria. Todavia, a vida flui através de várias dimensões temporais. Desde logo, podem contrastar-se as temporalidades subjectivas e as objectivas. No primeiro caso, nem todos os minutos são iguais. No relógio são iguais mas não na forma como são vividos ou sentidos. No universo das nossas próprias recordações, há longos pedaços das nossas vidas que a memória esquece enquanto que outros breves acontecimentos se tornam eternos.
José Machado Pais, in Lufa-lufa quotidiana,
Ensaios sobre cidade, cultura e vida urbana,
Imprensa de Ciências Sociais, col. Breve Sociologia, 2010, 1ª ed., p. 66
22 de fevereiro de 2015
Todas as coisas têm o seu tempo
![]() |
| Ilustração de Annie Stegg |
Há tempo para nascer, e tempo para morrer;
tempo para plantar, e tempo para arrancar o que se plantou;
tempo para matar, e tempo para dar vida;
tempo para destruir, e tempo de edificar;
Tempo para chorar, e tempo para rir;
tempo para se afligir, e tempo para dançar;
Tempo para espalhar pedras, e tempo para as juntar;
tempo para dar abraços, e tempo para se afastar deles;
tempo para adquirir e tempo para perder;
tempo para guardar, e tempo para atirar fora;
tempo para rasgar, e tempo de coser;
tempo para calar e tempo para falar;
tempo para amar, e tempo para odiar;
tempo para a guerra, e tempo para a paz.
Eclesiastes 3:2-8
17 de fevereiro de 2015
Doutor, eu?
![]() |
| Ilustração de Sergey Ivchenko |
- Você é mesmo tanso. Estava a gozar consigo. Na minha arte até posso ser considerado um catedrático da investigação criminal. Mas não sou doutor nenhum. Corte lá essa palermice do doutor e diga ao que vem.
Miguel Miranda, in Dai-lhes, Senhor, o eterno repouso, Porto Editora, 2011, 1ª ed., p. 20
Doutores
![]() |
| Ilustração de Annie Stegg |
- Então você é o Brandão?
O homem, outrora céreo, ganhou cor no rosto, de raiva incontida, e proferiu, martelando as sílabas:
- Doutor será, quando acabar o curso. Sente-se.
Ele obedeceu, siderado. Derrubou os ombros, como se lhe tivesse caído um prédio em cima.
Miguel Miranda, in Dai-lhes, Senhor, o eterno repouso, Porto Editora, 2011, 1ª ed., p. 19
13 de fevereiro de 2015
Porque
![]() |
| Ilustração de Elena Trupak |
Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.
Sophia de Mello Breyner Andresen, in Mar Novo, Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 341
12 de fevereiro de 2015
Scanners corporais e privacidade
O achatamento da realidade significa que cada vez mas raramente se vê o que se olha. Ver é tornar visível o que se esquiva a uma apropriação visual. A poluição visual tende a provocar uma cegueira, da mesma forma que a poluição sonora tende a provocar a surdez. Por outro lado, olhamos à nossa volta e o que vemos é que acabamos por ser comidos por esse olho devorador que, através de circuitos de videovigilância, nos espia, à socapa. Em qualquer shopping ou esquina da rua: "Sorria, está a ser filmado".(...)
![]() |
| Ilustração de Diane Duda |
O Parlamento Europeu tem debatido, de forma acalorada, o uso de scanners corporais de raios X nos aeroportos. O projecto não é pacífico, pois as mais ocultas intimidades dos passageiros ficarão expostas a usos indevidos. (...) O uso dos scanners permitiria enfrentar as bichas dos aeroportos mas, em contrapartida, nos arquivos dessas máquinas ficariam cópias de imagens explícitas dos nossos órgãos genitais e detalhes médicos íntimos, como implantes mamários ou bolsas de colostomia.
José
Machado Pais, in Lufa-lufa quotidiana, Ensaios sobre cidade, cultura e
vida urbana,
Imprensa de Ciências Sociais, col. Breve Sociologia, 2010, 1ª
ed. p.36
Etiquetas:
josé machado pais,
lufa-lufa quotidiana,
privacidade,
privado,
público,
videovigilância
10 de fevereiro de 2015
O pranto branco
8 de fevereiro de 2015
Pranto pelo dia de hoje
![]() |
| Ilustração de Sonia MariaLuce Possentini |
Nunca choraremos bastante quando vemos
O gesto criador ser impedido Nunca choraremos bastante quando vemos
Que quem ousa lutar é destruído
Por troças por insídias por venenos
E por outras maneiras que sabemos
Tão sábias tão subtis e tão peritas
Que nem podem sequer ser bem descritas
Sophia de Mello Breyner Andresen, in Livro Sexto, Obra
Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 431
7 de fevereiro de 2015
O sol e o dia brilham mas sem ti
O sol e o dia brilham mas sem ti
Talvez não sejam mais o sol e o dia.
O sol e o dia agora
Estão lá onde o teu sorriso mora
E não aqui.
![]() |
| Lua e sol, de Matazo Kayama |
Como quem colhe flores tu serena
Vais colhendo sem chorar a nossa pena
Olhas por nós sem mágoa nem saudade
E o céu azul, a luz, as Primaveras
Habitam na perfeita claridade
Em que nos esperas.
Sophia de Mello Breyner Andresen, in No Tempo Dividido, Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p.291
Subscrever:
Mensagens (Atom)

















































