Número total de visualizações de página

31 de março de 2015

É preciso falar baixo no sítio da primavera

Ilustração de Jennifer Lambein


É preciso falar baixo no sítio da primavera, junto
à terra nocturna. Junto à terra transfigurada.
Tudo ouve as minhas palavras talvez irremediáveis.
Infatigável perfume se acrescenta nos jacintos, fogo
sem fim circunda suas raízes leves.
É preciso não acordar do seu ofício a luz que inclina
os meus espinhos frios,
a lua que inclina meu sangue ligado e o sangue
da terra nocturna.


Agora a primavera trabalha nas galerias mais antigas,
bate os seus martelos contra um milhão de estrelas.
(...)

Ilustração de Claire Robertson

A primavera cresce num núcleo de ideias, as cabras
evaporam-se, reaparecem em espírito
mastigando giestas. Primavera é uma palavra
numa língua demasiado estrangeira.
Uma coisa enorme, sem música.
Falo tão devagar que mal distingo
a noite sobre a terra
da minha garganta onde os animais passam
lentamente inspirados.
Só encosto a testa ao oculto fogo dos nomes,
e o sangue alimenta a loucura
devagar, devagar — como quem ressuscita.

Ilustração de Erin Hogan

Herberto Helder, in Ou o poema contínuo

30 de março de 2015

Não sei como dizer-te que minha voz te procura

Noite estrelada, de Van Gogh

Não sei como dizer-te que minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e vasta.
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. Quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
— eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.

Campo de trigo com corvos, de Van Gogh


Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite.
— E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
— não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.


A sesta, de Van Gogh


Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço —
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave — qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,


Pintura de Van Gogh






que te procuram.


Herberto Helder


29 de março de 2015

Aceitar alguém

Ilustração de Cl lia Nguyen


"Aceitar uma pessoa" 


"acreditar numa pessoa" 


são noções de esferas diferentes.


Hugo von Hofmannsthal, in Livro dos amigos, Assírio&Alvim, 2002, p. 33 

26 de março de 2015

Sacode as nuvens

Ilustração de Nina Chen

Sacode as nuvens que te poisam nos cabelos, 
Sacode as aves que te levam o olhar. 
Sacode os sonhos mais pesados do que as pedras. 

Porque eu cheguei e é tempo de me veres, 
Mesmo que os meus gestos te trespassem 
De solidão e tu caias em poeira, 
Mesmo que a minha voz queime o ar que respiras 
E os teus olhos nunca mais possam olhar. 


Sophia de Mello Breyner Andresen, in Obra Poética I

Gabinete de curiosidades

Ilustração de Alenka Sottler

Em certas ocasiões, tais e tantos como por aí andam imagens e objectos que me povoam a fantasia, a existência aparece-me como um gabinete de curiosidades.

                                                              Mário Cláudio, in O Fotógrafo e a Rapariga, D. Quixote, 2014,p. 19

As minhas mãos

Ilustração de Duy Huynh

As minhas mãos mantêm as estrelas,
Seguro a minha alma para que se não quebre
A melodia que vai de flor em flor,
Arranco o mar do mar e ponho-o em mim
E o bater do meu coração sustenta o ritmo das coisas.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in Obra poética I

A procura

Ilustração de Belinda Worsley

...uma vida só assente em respostas é uma vida diminuída, à maneira de uma primavera que não chegou a ser.


Tolentino Mendonça, in Nenhum caminho será longo, Para uma teologia da amizade, Paulinas, 2012, p. 136

25 de março de 2015

A grandeza primeira

Ilustração de Alenka Sottler


e eis súbito ouço num transporte público:

as luzes todas acesas e ninguém dentro da casa:

sete ou nove metros de labaredas,

e nem um grito, um sussurro, uma palavra:

só a casa ocupada pela grandeza da estrela,

a grandeza primeira


Herberto Helder, in Servidões, Assírio&Alvim, 2013, 1ª ed. p. 39 

24 de março de 2015

No reino desta menina...

Ilustração de Carolee Clark

No reino desta menina [Alice, no país das maravilhas], dominado por relógios de variada descrição, o surto de um coelhinho branco, e do mecanismo de bolso que o mesmo ostentava, não deveria suscitar a menor das surpresas. Mas tratava-se na circunstância de um contador do tempo do sonho, função que requeria um apurado engenho, e de aspecto especial. O relógio do Coelho marcava horas esdrúxulas...

                                        
                                                        Mário Cláudio, in O Fotógrafo e a Rapariga, D. Quixote, 2014, p. 31

22 de março de 2015

Poema a uma noite

Ilustração de Ellie Horie


Empurro a noite para o lado, tiro-a da minha
frente, e ela insiste em não sair; mas encosto-a
contra a parede, e a noite começa a desaparecer,
sugada pelo branco da cal, até nada ficar dela senão
um fantasma de lua no azul deste céu que
ocupa todo o espaço sobre a minha cabeça, e
cujo peso me empurra para o chão. Tento
levantar-me; mas os meus braços não resistem
ao peso do azul, e dobram-se, enquanto a terra
se abre para me oferecer o seu refúgio. Porém,
que irei eu fazer no interior da terra, por entre
vermes e raízes? E deslizo entre o céu e
a terra, em busca da noite que fiz desaparecer.


Nuno Júdice, in A matéria do poema, D. Quixote, 2008, 1ª ed., p. 100

21 de março de 2015

A poesia clássica

Ilustração de Pinwheel Bunny 

Esvazio uma colheita de estrelas na eira

do infinito, onde as velhas deusas do oriente

as limpam do seu fogo. No fim do trabalho,

ficam a secar, à espera que o moleiro

venha, com o seu saco de vento,

e as leve para o moinho. As mós do sonho

reduzem-nas a este farelo de luz que os poetas

põem no alguidar das palavras, para

que as musas preparem a massa

da inspiração. E enquanto espero que

o forno aqueça, olho para o céu

vazio de estrelas, onde um cometa,

com o rasto único da madrugada,

escreve o princípio do poema.


Nuno Júdice, in A matéria do poema, D. Quixote, 2008, 1ª ed., p. 123

20 de março de 2015

Alice


Às seis em ponto, e obedecendo ao comando da rapariga que na véspera acertara o ponteiro para esse momento exacto, o despertador de algarismos romanos disparou numa estridência capaz de acordar toda a casa. (...)

Ilustração de Nina Chen 

Alice sentou-se na cadeira alta que ocupava em pequenina, mas de que recusava prescindir apesar de ter aumentado de tamanho, assentou os cotovelos no tampo de mármore, desafiando assim o código a que devia submeter-se na sala de jantar, e lançou-se a comer o que lhe haviam colocado à frente.

Mário Cláudio, in O Fotógrafo e a Rapariga, D. Quixote, 2014, pp. 23, 24

19 de março de 2015

Só me satisfaz o infinito (2)

Ilustração de Aaron  Ayumi Piland


Só me satisfaz o infinito.

É um número muito grande, não é?

É, mas consegue-se domesticá-lo e fazer com que caiba numa só noite. Uma noite bem passada nunca mais acaba.


Afonso Cruz, in Assim mas sem ser assim - Considerações de um misantropo, Caminho, 2013, p. 22

17 de março de 2015

Só me satisfaz o infinito (1)


Subi as escadas com a pessoa do 3A, bailarino. Costuma andar com roupas brancas ou de outra cor qualquer e com cabelos compridos, mas mais curtos do que as suas certezas. Comunicou-me que gosta muito da natureza, de andar descalço (eu comuniquei-lhe que já sabia), e de dormir ao relento, debaixo das estrelas.

Ilustração de Aaron Ayumi Piland 

É o meu cobertor favorito. Um hotel de cinco estrelas é pouco para mim, preciso de um com muitas mais estrelas.
Cinco não chegam?
Só me satisfaz o infinito.


Afonso Cruz, in Assim mas sem ser assim - Considerações de um misantropo, Caminho, 2013, p. 22

16 de março de 2015

Serão tristes as oliveiras?

Aquela senhora que conheci no comboio, olhando pela janela, disse-me a certa altura que a oliveira é uma árvore triste. Olhei também e estive quase a concordar. Agora felicito-me, porque não foi preciso. Lembro-me que a senhora ia vestida de preto. Talvez lhe tivesse morrido alguém. Às oliveiras daquele olival que passava lá fora é que eu tenho a certeza de que não faltava nada: nem sol, nem uma leve brisa, nem um fruto grado, prometedor. E perguntei para mim, ao descer do comboio:




- Porque maltratamos as oliveiras?


Ruy Belo, in Todos os nomes, Assírio&Alvim, 2000, p. 263



15 de março de 2015

Grandeza do homem

Ilustração de Ančka Gošnik Godec


Somos a grande ilha do silêncio de deus
Chovam as estações soprem os ventos
jamais hão-de passar das margens
Caia mesmo uma bota cardada
no grande reduto de deus e não conseguirá
desvanecer a primitiva pegada
É esta a grande humildade a pequena
e pobre grandeza do homem

Ruy Belo, in Todos os nomes, Assírio&Alvim, 2000, p. 58

11 de março de 2015

O valor perfectivo das palavras

- (...) As palavras são tudo. Olha: a palavra frio desce. A palavra calor sobe. A palavra ninho tem ovos lá dentro e um pássaro a dormir. 

Ilustração de Satoshi Ota

Há quem não queira que confundamos as palavras com as coisas, que o mapa não é o território, mas as palavras é que são  as coisas. Há mapas, mas não há nenhum território.  A palavra porta abre e fecha; e a palavra janela, se for velha, tem o vidro partido. A palavra água ou se bebe ou afoga-nos. Porque há pessoas com sede e pessoas que se afogam. É assim que se separa a humanidade: uns pegam nas coisas para morrer e outros para viver. E há  a palavra mar que afunda todos os navios.

Afonso Cruz, in O pintor debaixo do lava-loiças, Caminho, 2011, 1ª ed., p. 46 

9 de março de 2015

Que bicho espantoso!

Ilustração de Loretta Krupinski

As ratazanas, que bicho espantoso! Anteciparam a Segunda Guerra. Pareciam ter um mapa das canalizações de Londres; como se tivessem na cabeça os vários itinerários e como se soubessem já o que ia acontecer. Fugiram muito antes dos bombardeamentos.

Gonçalo M. Tavares, in Uma menina perdida no seu século à procura do pai, Porto Editora, 2014, 1ª ed., p.18

8 de março de 2015

O rosto


Impossível não reparar naquele rosto. O tão característico rosto redondo, olhos e bochechas enormes. Uma deficiente - ou um deficiente? Marius teve dificuldade em distinguir. À primeira vista parecia uma menina, sem dúvida - quantos anos, quinze, dezasseis? -, mas depois, olhado / olhada com mais atenção, dir-se-ia um rapaz, mas não. Uma rapariga.
Nas mãos tinha uma pequena cartolina. Marius esqueceu-se da sua pressa e aproximou-se. Ela sorriu e passou-lhe a cartolina para as mãos. Estava dactilografada.




Ilustração de Mymoodo




"FORNECER OS SEUS DADOS PESSOAIS

1- Dizer o primeiro nome
2- Dizer se é rapaz ou rapariga
3- Dizer o nome completo
4- Dizer o nome dos pais e irmãos
5- Dizer a morada
6- Dizer em que escola anda
7- Dizer a idade
8- Dizer o dia e o mês de aniversário
9- Dizer a cor dos olhos e do cabelo"                         

Marius sorriu.
Perguntou.
- Qual é o teu primeiro nome?
- Hanna.

Gonçalo M. Tavares, in Uma menina perdida no seu século à procura do pai, Porto Editora, 2014, 1ª ed., p. 9 

4 de março de 2015

A neta do Senhor Linh

Na aldeia só havia uma rua. Uma única. O chão era de terra batida. Quando a chuva caía, violenta e a prumo, a rua tornava-se um ribeiro em fúria pelo qual as crianças nuas corriam rindo às gargalhadas. 

Ilustração de_Iwasaki Chihiro
Durante o tempo seco, os porcos dormiam na rua espojando-se na poeira, enquanto os cães se perseguiam, ladrando. Na aldeia, toda a gente se conhecia e se cumprimentava quando se via. Havia ao todo doze famílias, e cada uma delas sabia a história das outras, era capaz de nomear os avós, os antepassados, os primos, conhecia os bens que cada um possuía. Em resumo, a aldeia era uma grande e única família, repartida por casas erguidas sobre estacas, e debaixo das quais as galinhas e os patos esgravatavam o chão e cacarejavam.

Ilustração de Flor Opazo
O velho apercebe-se de que, quando pensa na aldeia, pensa em termos de passado. O que lhe provoca um aperto no coração. É realmente um verdadeiro aperto que sente quando pousa a mão livre sobre o peito, no sítio do coração, para pôr termo ao aperto.

Philippe Claudel, in A Neta do Senhor Lihn, ed. Asa, 2006, 1ª ed., p. 14

1 de março de 2015

O perfume

Ilustração de Silvia Álvarez Castellar

De facto, como acontece com a moda, o perfume aproxima os iguais, distinguindo os diferentes.


José Machado Pais, in Lufa-lufa quotidiana, 
Ensaios sobre cidade, cultura e vida urbana
Imprensa de Ciências Sociais, col. Breve Sociologia, 2010, 1ª ed., p. 60

28 de fevereiro de 2015

Ver claro

Ilustração de Deborah Dewit


Toda a poesia é luminosa, até
a mais obscura.
O leitor é que tem às vezes,
em lugar de sol, nevoeiro dentro de si.
E o nevoeiro nunca deixa ver claro.
Se regressar
outra vez e outra vez
e outra vez
a essas sílabas acesas
ficará cego de tanta claridade.
Abençoado seja se lá chegar.


Eugénio de Andrade

É assim a música

Ilustração de Liese Chavez

A música é assim: pergunta, 
insiste na demorada interrogação
- sobre o amor?, o mundo?, a vida?
Não sabemos, e nunca
nunca o saberemos.
Como se nada dissesse vai
afinal dizendo tudo.
Assim: fluindo, ardendo até ser
fulguração – por fim
o branco silêncio do deserto.
Antes porém, como sílaba trémula,
volta a romper, ferir,
acariciar a mais longínqua das estrelas.

Eugénio de Andrade
 


27 de fevereiro de 2015

O tempo e as histórias

Ilustração de Deborah Dewit

Hoje, com o apressuramento da vida, as orelhas moucas fogem dos contadores de histórias, não há tempo para as memorizar nem para as recriar nos confins da recordação. 


José Machado Pais, in Lufa-lufa quotidiana, 
Ensaios sobre cidade, cultura e vida urbana
Imprensa de Ciências Sociais, col. Breve Sociologia, 2010, 1ª ed., p. 48

26 de fevereiro de 2015

O tempo do caracol

Ilustração de Amber Alexander

Um caracol japonês subia lentamente ao longo de um tronco de cerejeira. Estava-se em Fevereiro ou Março. O caracol encontrou um insecto que lhe disse:

 - Onde vais? Não está na época! Não há cerejas nesta árvore!

 - Haverá quando eu chegar - respondeu o caracol sem parar.


Jean-Claude Carrière, "O insecto e o caracol", 
in Tertúlia de mentirosos - Contos filosóficos do mundo inteiro,
Teorema, 2000, p. 348

25 de fevereiro de 2015

A era do numérico

Entrámos na época do império numérico. Tudo se conta. Do dinheiro aos segundos, dos metros aos quilogramas, das calorias aos cafés bebidos diariamente. 


José Machado Pais, in Lufa-lufa quotidiana, 
Ensaios sobre cidade, cultura e vida urbana
Imprensa de Ciências Sociais, col. Breve Sociologia, 2010, 1ª ed., p. 58

Ilustração de Delphine Doreau


23 de fevereiro de 2015

Nem todos os minutos são iguais

Ilustração de Selda Marlin Soganci

A neurose urbana existe porque vivemos algemados a relógios, havendo uma tendência para subjugar a vida ao poder da cronometria. Todavia, a vida flui através de várias dimensões temporais. Desde logo, podem contrastar-se as temporalidades subjectivas e as objectivas. No primeiro caso, nem todos os minutos são iguais. No relógio são iguais mas não na forma como são vividos ou sentidos. No universo das nossas próprias recordações, há longos pedaços das nossas vidas que a memória esquece enquanto que outros breves acontecimentos se tornam eternos.


José Machado Pais, in Lufa-lufa quotidiana, 
Ensaios sobre cidade, cultura e vida urbana
Imprensa de Ciências Sociais, col. Breve Sociologia, 2010, 1ª ed., p. 66 

22 de fevereiro de 2015

Todas as coisas têm o seu tempo

Ilustração de Annie Stegg

Há tempo para nascer, e tempo para morrer; 
tempo para plantar, e tempo para arrancar o que se plantou;
tempo para matar, e tempo para dar vida;

tempo para destruir, e tempo de edificar;
Tempo para chorar, e tempo para rir; 

tempo para se afligir, e tempo para dançar;
Tempo para espalhar pedras, e tempo para as juntar;

tempo para dar abraços, e tempo para se afastar deles;
tempo para adquirir e tempo para perder;

tempo para guardar, e tempo para atirar fora;
tempo para rasgar, e tempo de coser;
tempo para  calar  e tempo para falar;
tempo para amar, e tempo para odiar;
tempo para a guerra, e tempo para a paz.

Eclesiastes 3:2-8

17 de fevereiro de 2015

Doutor, eu?


Ilustração de Sergey Ivchenko

- Você é mesmo tanso. Estava a gozar consigo. Na minha arte até posso ser considerado um catedrático da investigação criminal. Mas não sou doutor nenhum. Corte lá essa palermice do doutor e diga ao que vem.


Miguel Miranda, in Dai-lhes, Senhor, o eterno repousoPorto Editora, 2011, 1ª ed., p. 20

Doutores

Ilustração de Annie Stegg
Há uma espécie característica de gente que faz questão em se fazer anunciar por "doutor" isto ou aquilo. Destes autoproclamados "doutores", alguns ainda não acabaram curso nenhum, outros tiraram uma licenciatura crepuscular em algum instituto de vão de escada, apenas para obrigarem os outros a tratarem-nos por doutores. O homem que estava perante mim fazia parte dos seguidores dessa seita do culto da aparência. Só para verificar a sua lealdade à seita, perguntei:

- Então você é o Brandão?

O homem, outrora céreo, ganhou cor no rosto, de raiva incontida, e proferiu, martelando as sílabas:

- Doutor. Doutor Brandão. 

Ilustração de Dilka Bear

(...)
- Doutor será, quando acabar o curso. Sente-se.


Ele obedeceu, siderado. Derrubou os ombros, como se lhe tivesse caído um prédio em cima. 








Miguel Miranda, in Dai-lhes, Senhor, o eterno repousoPorto Editora, 2011, 1ª ed., p. 19




13 de fevereiro de 2015

Porque

Ilustração de Elena Trupak


Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.


Sophia de Mello Breyner Andresen, in Mar Novo,  Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 341

12 de fevereiro de 2015

Scanners corporais e privacidade

O achatamento da realidade significa que cada vez mas raramente se vê o que se olha. Ver é tornar visível o que se esquiva a uma apropriação visual. A poluição visual tende a provocar uma cegueira, da mesma forma que a poluição sonora tende a provocar a surdez. Por outro lado, olhamos à nossa volta e o que vemos é que acabamos por ser comidos por esse olho devorador que, através de circuitos de videovigilância, nos espia, à socapa. Em qualquer shopping ou esquina da rua: "Sorria, está a ser filmado".(...) 

Ilustração de Diane Duda

O Parlamento  Europeu tem debatido, de forma acalorada, o uso de scanners corporais de raios X nos aeroportos. O projecto não é pacífico, pois as mais ocultas intimidades dos passageiros ficarão expostas a usos indevidos. (...) O uso dos scanners permitiria enfrentar as bichas dos aeroportos mas, em contrapartida, nos arquivos dessas máquinas ficariam cópias de imagens explícitas dos nossos órgãos genitais e detalhes médicos íntimos, como implantes mamários ou bolsas de colostomia. 


José Machado Pais, in Lufa-lufa quotidiana, Ensaios sobre cidade, cultura e vida urbana
Imprensa de Ciências Sociais, col. Breve Sociologia, 2010, 1ª ed. p.36

10 de fevereiro de 2015

O pranto branco

il. Sonia MariaLuce Possentini 

Foi pelo pranto que te reconheci

Foi pelo branco da praia que te reconheci


Sophia de Mello Breyner Andresen, in Poemas Dispersos, Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 860

8 de fevereiro de 2015

Pranto pelo dia de hoje

Ilustração de Sonia MariaLuce Possentini


Nunca choraremos bastante quando vemos 
O gesto criador ser impedido
Nunca choraremos bastante quando vemos
Que quem ousa lutar é destruído
Por troças por insídias por venenos
E por outras maneiras que sabemos
Tão sábias tão subtis e tão peritas
Que nem podem sequer ser bem descritas 


Sophia de Mello Breyner Andresen, in Livro Sexto, Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 431


7 de fevereiro de 2015

O sol e o dia brilham mas sem ti

O sol e o dia brilham mas sem ti
Talvez não sejam mais o sol e o dia.
O sol e o dia agora
Estão lá onde o teu sorriso mora
E não aqui.


Lua e sol, de Matazo Kayama

Como quem colhe flores tu serena
Vais colhendo sem chorar a nossa pena
Olhas por nós sem mágoa nem saudade
E o céu azul, a luz, as Primaveras
Habitam na perfeita claridade
Em que nos esperas.


Sophia de Mello Breyner Andresen, in No Tempo Dividido, Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p.291 

6 de fevereiro de 2015

O flanneur e a lufa-lufa da cidade

Ilustração de May Ann Licudine

Quanto mais rápido o movimento menos profundidade se tem das coisas, mais chapadas elas se nos mostram. As cidades tradicionais, pelo contrário, eram feitas para serem vistas de perto, com detalhe. O flanneur, de Baudelaire, vivia na rua como se estivesse em casa, fazendo do café a sua sala de visitas e da banca de jornais a sua biblioteca.



José Machado Pais, in Lufa-lufa quotidiana, 
Ensaios sobre cidade, cultura e vida urbana,
Imprensa de Ciências Sociais, col. Breve Sociologia, 2010, 1ª ed., p. 35

Hiperatividade ou má educação?

Ilustrações de Anna Lisk



A hiperactividade das crianças esconde, na verdade, um problema maior: a sua má educação. A hiperactividade é apenas um efeito psicológico de um fenómeno social que decorre do "paradigma do encontrão".


José Machado Pais, in Lufa-lufa quotidiana, Ensaios sobre cidade, cultura e vida urbana, Imprensa de Ciências Sociais, col. Breve Sociologia, 2010, 1ª ed. p. 42

5 de fevereiro de 2015

Máscaras sociais


Ilustração de Magalie Bucher 

...a cortesia [aparece] como máscara de uma indiferença que Goffman (...) identificava como "desatenção cortês": de sorrisos falsos, de palavras de circunstância, de "obrigados" que nada obrigam, enfim, de uma teatralização que tem levado a que a cidade seja lida como um palco de representações, fazendo o esplendor das análises dramaturgas da vida quotidiana.


José Machado Pais, in Lufa-lufa quotidiana, Ensaios sobre cidade, cultura e vida urbana, Imprensa de Ciências Sociais, col. Breve Sociologia, 2010, 1ª ed. p. 28

4 de fevereiro de 2015

Lentidão vs. encontrão

Ilustração deLisa Falzon

O paradigma da lentidão deu lugar ao do encontrão - sagazmente identificado por E. A. Poe (...) quando se deu conta de que, entre a multidão, os transeuntes rasgavam caminho à custa da cotovelada e do inevitável empurrão. 


José Machado Pais, in Lufa-lufa quotidiana, Ensaios sobre cidade, cultura e vida urbana, Imprensa de Ciências Sociais, col. Breve Sociologia, 2010, 1ª ed. p. 28

3 de fevereiro de 2015

...até no amor

Os tempos mudaram. As saudações outrora tão cheias de vénias simplificaram-se, consumando-se num simples "Oi!" ou "Olá, que tal?" Como se a vida se pudesse resumir a tal. E qual.

Ilustração de Alice De Page


Há que ser rápido em tudo, até no amor. 

José Machado Pais, in Lufa-lufa quotidiana, Ensaios sobre cidade, cultura e vida urbana, Imprensa de Ciências Sociais, col. Breve Sociologia, 2010, 1ª ed. p. 28