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17 de janeiro de 2015

O estômago da cabeça

Ilustração de Sandrine Kao

- Há muitos tipos de comida - disse o coronel Möller enquanto abanava o filho. - Um homem possui três estômagos: um na barriga, outro no peito e outro na cabeça. O da barriga toda a gente sabe para que serve; o do peito mastiga a respiração, que é a nossa comida mais urgente. Uma pessoa morre sem ar muito mais depressa do que sem água e pão. 

Ilustração de Lirios Bou

E por fim há o estômago da cabeça, que se alimenta de palavras e de letras.

Afonso Cruz, in O pintor debaixo do lava-loiças, Caminho, 2011, 1ª ed., p. 20

14 de janeiro de 2015

Homero

Ilustração de Asako Eguchi


Escrever o poema como um boi lavra o campo 

Sem que tropece no metro o pensamento 


Sem que nada seja reduzido ou exilado 


Sem que nada separe o homem do vivido




                  Sophia de Mello Breyner Andresen, in O Búzio de Cós e Outros Poemas, Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 815

11 de janeiro de 2015

Oásis

Ilustração de Richolly Rosazza


Penetraremos no palmar
A água será clara o leite doce
O calor será leve o linho branco e fresco
O silêncio estará nu – o canto
Da flauta será nítido no liso
Da penumbra


Lavaremos nossas mãos de desencontro e poeira


Sophia de Mello Breyner Andresen, in O nome das coisas Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 643

Não te chamo para te conhecer

Ilustração de Jing Jing Tsong


Não te chamo para te conhecer      
Eu quero abrir os braços e sentir-te
       Como a vela de um barco sente o vento


Não te chamo para te conhecer 

Conheço tudo à força de não ser


Peço-te que venhas e me dês   

            Um pouco de ti mesmo onde eu habite


Sophia de Mello Breyner Andresen, "Poemas de um livro destruído", VIII, in No Tempo Dividido, Obra PoéticaCaminho, 2011, 2ª ed., p. 270 

10 de janeiro de 2015

Guitarra

Ilustração de Raija Nokkala



Na voz de oiro e de sombra da guitarra

Algo de mim a si próprio renuncia






Sophia de Mello Breyner Andresen, in Ilhas Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 747

8 de janeiro de 2015

Senhor

Ilustração de Asako Eguchi

Senhor sempre te adiei

Embora sempre soubesse que me vias 

Quis ver o mundo em si e não em ti 

E embora nunca te negasse te apartei

                             1987


                              Sophia de Mello Breyner Andresen, in Ilhas Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 753

7 de janeiro de 2015

Exílio

Ilustração de Сержантова Олеся
Exilámos os deuses e fomos

Exilados da nossa inteireza

Sophia de Mello Breyner Andresen, in O nome das coisas Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 642

6 de janeiro de 2015

Os três reis do Oriente

Ilustração de Noemí Villamuza


E foi para seguir essa estrela que Gaspar abandonou o seu palácio.



 Sophia de Mello Breyner Andresen, "Os três reis do Oriente"in Contos Exemplares, Figueirinhas, 2006, 36ª ed., pp. 147-148

5 de janeiro de 2015

Palavra ou estrela?

ilustração de Eugen Sopko


Primeiro pareceu a Gaspar que a estrela era uma palavra, uma palavra de repente dita na muda atenção do céu. 


Mas depois o seu olhar habituou-se ao novo brilho e ele viu que era uma estrela, uma nova estrela, semelhante às outras, mas um pouco mais próxima e mais clara e que, muito devagar, deslizava para o Ocidente. 




Sophia de Mello Breyner Andresen, "Os três reis do Oriente"in Contos Exemplares, Figueirinhas, 2006, 36ª ed., pp. 147-148

4 de janeiro de 2015

Reis Magos

Ajoelhado no terraço Gaspar olhava o céu da noite. Olhava a alta e vasta abóbada nocturna, escura e luminosa, que simultaneamente mostrava e escondia.

Ilustração de Maarit Ailio

E disse: 


— Senhor, como estás longe e oculto e presente! Oiço apenas o ressoar do teu silêncio que avança para mim e a minha vida apenas toca a franja límpida da tua ausência. Fito em meu redor a solenidade das coisas como quem tenta decifrar uma escrita difícil. Mas és tu que me lês e me conheces. Faz que nada do meu ser se esconda. Chama à tua claridade a totalidade do meu ser para que o meu pensamento se torne transparente e possa escutar a palavra que desde sempre me dizes.



                        Sophia de Mello Breyner Andresen, "Os três reis do Oriente"in Contos Exemplares, Figueirinhas, 2006, 36ª ed., pp. 147-148

3 de janeiro de 2015

Noite

Ilustração de Friedrich Hechelmann


Noite. Noite em nossa roda. Noite aberta.
E encontramos um silêncio imenso,
Um silêncio perfeito que nos esperava desde sempre.
E uma solidão que era a nossa imagem,
E uma profunda esperança,
Como se a noite tremesse
De tocar a aurora.



Sophia de Mello Breyner Andresen, in Poemas Dispersos, Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 856

31 de dezembro de 2014

Viajar! Perder países!

Ilustração de Basia Konczarek


Viajar! Perder países! 
Ser outro constantemente, 
Por a alma não ter raízes 
De viver de ver somente! 

Não pertencer nem a mim! 
Ir em frente, ir a seguir 
A ausência de ter um fim, 
E a ânsia de o conseguir! 

Viajar assim é viagem. 
Mas faço-o sem ter de meu 
Mais que o sonho da passagem. 
O resto é só terra e céu.


Fernando Pessoa

30 de dezembro de 2014

Criar o leitor

Ilustração de Shinya Okayama

Cada palavra pronunciada supõe o ouvinte, cada palavra escrita o leitor: criar também este é a parte encoberta, mas a mais importante da acção do escritor.



 Hugo Von Hofmannsthal, in Livro dos Amigos

27 de dezembro de 2014

O tigre e os morangos

Há algum tempo atrás, um homem que estava a caminhar pelo campo encontrou um tigre.

Assustado, começou a correr e o tigre correu atrás dele.

Ilustração de Mariam Ben-Arab
Aproximou-se de um precipício, pegou nas raízes expostas de um arbusto selvagem e pendurou-se, precipitadamente, para baixo. O tigre farejava-o. Tremendo de medo, o homem olhou para baixo e viu, no fundo do precipício, outro tigre à sua espera. Só estava agarrado pela raiz do arbusto.


Porém, ao olhar para a planta, descobriu uns morangos, mesmo ali ao lado.

Ilustração de Wojtek Kowalczyk 
Então o homem segurou a raiz só com uma mão e, com a outra, pegou nos morangos, comeu-os e exclamou:

- Que delícia!


(Conto Zen)

26 de dezembro de 2014

Amigos

Ilustração de Mariusz Stawarski


Uma pessoa tem alguns amigos menos do que supõe e alguns mais do que conhece.



 Hugo Von Hofmannsthal, in Livro dos Amigos

25 de dezembro de 2014


Enquanto ali se encontravam, chegou o dia de ela dar à luz e teve o seu Filho primogénito.

Envolveu-O em panos e deitou-O numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria. 


Ilustração de Faruffa



Havia naquela região uns pastores que viviam nos campos e guardavam de noite os rebanhos. 
O Anjo do Senhor aproximou-se deles, e a glória do Senhor cercou-os de luz; e eles tiveram grande medo. 
Disse-lhes o Anjo: «Não temais, porque vos anuncio uma grande alegria para todo o povo: nasceu-vos hoje, na cidade de David, um Salvador, que é Cristo Senhor. Isto vos servirá de sinal: encontrareis um Menino recém-nascido, envolto em panos e deitado numa manjedoura». 

Lucas 2, 6-12

Uma grande luz


Ilustração de Nino Chakvetadze

O povo que andava nas trevas
viu uma grande luz; 
habitavam numa terra de sombras,
mas uma luz brilhou.


Isaías 9, 1

24 de dezembro de 2014

23 de dezembro de 2014

Encontro homem - mundo

Ilustração de Blue Palette

O Homem só se apercebe, no mundo, daquilo que em si já se encontra; mas precisa do mundo para se aperceber do que se encontra em si; para isso são, porém, necessários actividade e sofrimento.


                                                                                          Hugo Von Hofmannsthal, in Livro dos Amigos

21 de dezembro de 2014

À procura do burro

Ilustração de Dainius Šukys 
Toda a gente se assustou ao ver Mullah Nasrudin a percorrer apressadamente as ruas da aldeia, montado no seu burro.

"Onde vais, Mullah?", perguntaram-lhe.

"Estou à procura do meu burro", respondia Nasrudin, quando passava.






Certa ocasião, algumas pessoas vieram ter com Rinzai, o Mestre de Zen, à procura do seu próprio corpo. Ele fez com que desatassem a rir os seus mais estúpidos discípulos.


Ilustração de Grzegorz Ptak

Vinha alguns, preocupados, à procura de Deus! 


Anthony de Mello, s.j., in El Canto del pájaro (trad. e adapt.)

18 de dezembro de 2014

Sacode as nuvens que te poisam nos cabelos


ILustração de Jan Kudláček

Sacode as nuvens que te poisam nos cabelos, 
Sacode as aves que te levam o olhar,
Sacode os sonhos mais pesados do que as pedras. 


Porque eu cheguei e é tempo de me veres, 
Mesmo que os meus gestos te trespassem 
De solidão e tu caias em poeira, 
Mesmo que a minha voz queime o ar que respiras 
E os teus olhos nunca mais possam olhar. 


Sophia de Mello Breyner Andresen, in Coral, Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 187 


17 de dezembro de 2014

Imitação do divino

Ilustração de Annika Hiltunen



Uma obra de arte tem um autor, e no entanto, quando é perfeita, possui algo de essencialmente anónimo. 

Imita o anonimato da arte divina.

             
Simone Weil, in A gravidade e a graça, Relógio d' Água, 2004, p. 149


16 de dezembro de 2014

O belo, o instante e o eterno

A beleza é a harmonia entre o acaso e o bem.

Ilustração de Annika Hiltunen

O belo encerra, entre outras uniões de contrários, a do instante e do eterno.

Simone Weil, in A gravidade e a graça, Relógio d' Água, 2004, p. 148





15 de dezembro de 2014

O que valem as palavras

As mesmas palavras (ex., um homem diz à sua mulher: amo-vos) podem ser vulgares ou extraordinárias, segundo o modo como são pronunciadas. E este modo depende da profundidade da região do ser de onde procedem, sem que a vontade possa fazer algo contra isso. 

Ilustração de Lyudmila Romanova 

E, por meio de uma harmonia maravilhosa, vão tocar, naquele que escuta, a mesma região. Assim, aquele que escuta pode discernir, se tiver discernimento, o que valem aquelas palavras.

Simone Weil, in A gravidade e a graça, Relógio d' Água, 2004, p. 70  

12 de dezembro de 2014

Mapa de odores

Ilustração de Aurélie Blanz 



O odor fica a ser assim uma espécie de mapa, uma fonte íntima de conhecimento.


Tolentino Mendonça, in A mística do instante – O tempo e a promessa, Paulinas, 2014, col. Poéticas do viver crente , p. 116

10 de dezembro de 2014

O odor único e irrepetível

Ilustração de Bella Sinclair
O odor é volátil, só conseguimos falar dele por metáforas, mas, na verdade, nada tem de abstrato. A sua volatilidade destina-se a materializar-se. Quando alguém derrama sobre a sua pele umas gotas de perfume, o mesmo perfume, fabricado pela indústria em quantidades colossais, passa a ser apenas seu. Torna-se a sua exalação. O corpo torna os perfumes irrepetíveis, pois absorve-os e reprodu-los de uma forma que é só sua. 


Tolentino Mendonça, in A mística do instante – O tempo e a promessa, Paulinas, 2014, col. Poéticas do viver crente , pp. 115-116

9 de dezembro de 2014

O odor do instante

Ilustração de Auréie Blanz

Cada instante tem o seu odor. Cada estação. Cada pessoa. O odor imprime tonalidades afetivas a um instante que queremos distinguir de outro.


Tolentino Mendonça, in A mística do instante – O tempo e a promessa, Paulinas, 2014, col. Poéticas do viver crente , p. 115


8 de dezembro de 2014

Sem lentidão não há paladar


Ilustração de Andy Kehoe

Tolentino Mendonça, in A mística do instante – O tempo e a promessa, Paulinas, 2014, col. Poéticas do viver crente , p. 105

7 de dezembro de 2014

A pressa

Ilustração de Bella Sinclair

A pressa dá-nos (...) uma impressão de si que é fictícia. Ao contrário do que parece, o seu aliado é o esquecimento, não a memória. Tudo passou no mesmo galope com que entrou.

Tolentino Mendonça, in A mística do instante – O tempo e a promessa, Paulinas, 2014, col. Poéticas do viver crente , p. 106

A lentidão

Ilustração de Aaron Ayumi Piland 



Quando as coisas acontecem depressa demais, ninguém pode ter certeza de nada, de coisa nenhuma, nem de si mesmo.




Milan Kundera, in A lentidão

6 de dezembro de 2014

A experiência do amor


Ilustração de Aaron Ayumi Piland 


Não é a culpa ou a autoflagelação que nos converte. Transforma-nos, sim, a experiência do amor (...). É no confronto com esse amor que mudamos. E por isso a única solidão na qual podemos confiar é a solidão que nos encaminha devagarinho para uma fonte.

Tolentino Mendonça, in A mística do instante – O tempo e a promessa, Paulinas, 2014, col. Poéticas do viver crente , p. 109

5 de dezembro de 2014

Devagarinho até à fonte

Ilustração de Ann Ernández
- Bom dia - disse o principezinho.
- Bom dia - disse o comerciante.
Era um comerciante de pílulas para matar a sede. Toma-se uma por semana e não se tem necessidade de beber.
- Por que vendes isso? - perguntou o principezinho.

- É uma grande economia de tempo - respondeu o comerciante. - Os peritos fizeram cálculos. Poupam-se cinquenta e três minutos por semana.
- E que se faz com cinquenta e três minutos?
- Faz-se o que se quiser...

Ilustração de Kim Minji

- Eu - disse o principezinho, de si para si -, se tivesse cinquenta e três minutos à minha disposição, ia a pé, devagarinho, até alguma fonte... 


Antoine de Saint-Exupéry, in O Principezinho


3 de dezembro de 2014

A vida é o que permanece

Ilustração de Chris Van Allsburg

Há um trabalho a fazer para passar do apego narcisista a uma idealização da vida, à hospitalidade da vida como ela nos assoma, sem mentira e sem ilusão, o que requer de nós um amor muito mais rico e difícil. Esse que é, em grande medida, um trabalho de luto, um caminho de depuração, sem renunciar à complexidade da própria existência, mas aceitando que não se pode demonstrá-la inteiramente.



Ilustração de Mika Nitta


A vida é o que permanece, apesar de tudo: a vida embaciada, minúscula, imprecisa e preciosa como nenhuma outra coisa. A sabedoria é a vida mesma: o real do viver, a existência não como trégua, mas como pacto, conhecido e aceite na sua fascinante e dolorosa totalidade.

                                             Tolentino Mendonça, in A mística do instante – O tempo e a promessa, Paulinas, 2014, col. Poéticas do viver crente , pp. 112-113

2 de dezembro de 2014

O que é um abraço?

Ilustração de Bella Sinclair
     
Se calhar, a primeira forma do primeiro abraço que demos era apenas um agarrar-se para não cair. Porém, pouco a pouco, num processo paciente onde os corpos fazem a aprendizagem de si (e do amor), o abraço deixa de ser uma coisa que tu me dás ou que eu te dou, e surge como um lugar novo, um lugar que ainda não existia no mundo e que juntos encontramos.



Tolentino Mendonça, in A mística do instante – O tempo e a promessa, Paulinas, 2014, col. Poéticas do viver crente , p. 82

1 de dezembro de 2014

Anorexia de afetos

Ilustração de Shinya Okayama

Há um filme de Ingmar Bergman em que uma das personagens é uma rapariga anoréxica - e sabemos como a anorexia é um tipo de desinvestimento vital, que podemos tomar como símbolo de tantos outros. A rapariga vai falar com um médico e ele diz-lhe mais ou menos isto, que também vale para nós: "Olha, há só um remédio para ti, só vejo um caminho: em cada dia, deixa-te tocar por alguém ou por alguma coisa".


Tolentino Mendonça, "Deixa-te tocar"in A mística do instante – O tempo e a promessa, Paulinas, 2014, col. Poéticas do viver crente , pp. 67-68

24 de novembro de 2014

Secretária desarrumada



Gosto de ter a secretária desarrumada. Recortes de jornais, contas por pagar, cartas, papéis com recados, notas, relatórios, fotografias formam um padrão que me desenvolve o raciocínio.

Ilustrações de Juri Romanov

Miguel Miranda, in Dai-lhes, Senhor, o eterno repouso, Porto Editora, 2011, 1ª ed., p. 12

22 de novembro de 2014

A pantera e o oftalmologista

Ilustração de Lim Heng Swee
- O seu caso não é para operar.

(...)

- Mas vai passar a ser. Quero um transplante de olhos. Pago o que for preciso.
Ela era doida, não havia dúvida nenhuma.

- Não. Para quê? É perfeitamente normal. Estas coisas não funcionam assim, há uma ética médica. O dinheiro não compra tudo.

- Ora, ora. Deixe-se de tretas. Se eu quiser uma cara, um nariz, umas mamas novas, isso é aceitável. Uns olhos novos não, porquê?

(...)

- E não quero uns olhos quaisquer. Quero que me transplante olhos de pantera.

                           
Miguel Miranda, "A pantera e o Oftalmologista", in A fome do licantropo e outras histórias
Porto Editora, 2014, 1ª ed., p. 99

12 de novembro de 2014

Andar acalma

Andar acalma. A marcha possui uma virtude salutar.

Ilustração de Alberto Ruggieri

O ato de colocar regularmente um pé à frente do outro, acompanhado pelo balançar cadenciado dos braços, a aceleração do ritmo respiratório, a ligeira estimulação do pulso, as atividades da vista e do ouvido necessárias à manutenção do equilíbrio - são ações que impelem o corpo e o espírito para uma convergência irresistível, permitindo que a alma, por muito atrofiada e traumatizada que esteja, cresça e se expanda.

                                                                    Patrick Süskind, in A pomba, Ed. Presença, 2014, 9ª ed., p. 81

9 de novembro de 2014

A pomba

Ilustração de Greg Becker

Quando lhe aconteceu isto da pomba, que de um dia para o outro mudou radicalmente a sua existência, já Jonathan Noel estava com mais de cinquenta anos, havia uns bons vinte anos que levava uma vida igual e sem incidentes e nunca lhe teria passado pela cabeça que ainda lhe pudesse vir a acontecer qualquer coisa de importante senão morrer. E dava-se por muito satisfeito com a sua sorte, pois não gostava de acontecimentos e detestava em particular aqueles que lhe abalavam o equilíbrio interior e perturbavam a ordem externa da vida.

Patrick Süskind, in A pomba, Ed. Presença, 2014, 9ª ed.,p.7

8 de novembro de 2014

O doutor queijo

Ilustração de Kristian Adam


Ela apreciou o especialista. O doutor Roquefort era um homem minúsculo, de cabeça rapada e olhos em fenda, como um monge budista. Tinham-lhe dito que era o melhor, porém, a sua figura era tudo menos impressionante. Se ao menos tivesse cabelos brancos, talvez irradiasse mais sabedoria e incutisse mais confiança. Uma dúvida insidiosa instalava-se nela, seria ele mesmo bom? Gostava de confiar, mas o primeiro impacto não era impressionante. Um médico com nome de queijo, era o que ele era.



             Miguel Miranda, "A pantera e o Oftalmologista", in A fome do licantropo e outras históriasPorto Editora, 2014, 1ª ed., p. 95

6 de novembro de 2014

O penetra

- Olha a fila, ó penetra!
- É preciso ter lata!
- Entrar assim de calçadeira, à frente de todos!
- Penetra! Seu penetra!


Ilustração de Ellie Horie
O autocarro arrancou e ele sorriu, o dia começava bem.
Saiu duas paragens adiante, sem pagar bilhete. Aplicou o mesmo golpe mais duas vezes e foi andando, sem gastar uma moeda e passando à frente de todos os cordatos passageiros em espera nas paragens.
- Penetra!


Miguel Miranda, "O Penetra compulsivo", in A fome do licantropo e outras histórias, Porto Editora, 2014, 1ª ed., p. 104