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20 de outubro de 2014

Dois mundos

Ilustração de Regina Lukk-Toompere



Repara, são dois mundos:

Não é possível atirar água

à matemática.




Gonçalo M. Tavares, in 1, Relógio d' Água, 20122, 2ª ed., p. 73

19 de outubro de 2014

Braille

Ilustração de Keiko Shibata 



Leio o amor no livro
da tua pele; demoro-me em cada
sílaba, no sulco macio
das vogais, num breve obstáculo
de consoantes, em que os meus dedos
penetram, até chegarem
ao fundo dos sentidos. Desfolho
as páginas que o teu desejo me abre,
ouvindo o murmúrio de um roçar

de palavras que se
juntam, como corpos,
no abraço

de cada frase. E chego ao fim 
para voltar ao princípio, decorando
o que já sei, e é sempre novo
quando o leio na tua pele.


Nuno Júdice, in Geometria variável, D. Quixote, 2005, 1ª ed., p. 79

16 de outubro de 2014

Gritar a rotina


Ilustração de Fabio Rex

A rotina não basta ao coração do homem.


José Tolentino Mendonça, "Do lado do aprisionamento da vida pela rotina" in A mística do Instante - o tempo e a promessa, Ed. Paulinas, 2014, 1ª ed., p. 22

15 de outubro de 2014

Da rotina à surpresa

Ilustração de Julie Paschkis

As rotinas têm um efeito saudável: tornando o quotidiano um encadeado de situações expectáveis, permitem-nos habitar com confiança o tempo. Mas (...) quando tudo se torna óbvio e regulado, deixa de haver lugar para a surpresa. (...) Os nossos olhos sonolentos veem tudo como repetido.

José Tolentino Mendonça, "Do lado do aprisionamento da vida pela rotina" in A mística do Instante - o tempo e a promessa, Ed. Paulinas, 2014, 1ª ed., pp. 21-22

14 de outubro de 2014

Catedral de aromas

Ilustração de Dani Torrent

Por mais que isso seja dez mil vezes mais prático, passar pela frutaria do inodoro hipermercado não é a mesma coisa que atravessar a catedral de aromas de um pomar.

José Tolentino Mendonça, "Do lado do excesso de comunicação" in A mística do Instante - o tempo e a promessa, Ed. Paulinas, 2014, 1ª ed., p. 23

13 de outubro de 2014

Arte do desejo

Ilustração de Alicia Arlandis


O excelente pedagogo que foi Rubem Alves costumava dizer que , "para entrar numa escola, alunos e professores deveriam passar antes por uma cozinha" e aprender que a sabedoria, tal como o paladar, é uma arte do desejo.


José Tolentino Mendonça, "Regressar ao paladar" in A mística do Instante - o tempo e a promessa, Ed. Paulinas, 2014, 1ª ed., pp. 27-28

12 de outubro de 2014

Regressar ao paladar

Ilustração de Amber Alexander

Não é de estranhar a ligação essencial que se costura entre saber e sabor, que a própria etimologia latina confirma (sapere, sapore).

José Tolentino Mendonça, "Regressar ao paladar" in A mística do Instante - o tempo e a promessa, Ed. Paulinas, 2014, 1ª ed., p. 27

10 de outubro de 2014

Fotografia branca

Ilustração de Patrícia Metola


Vejo esta situação, com a nitidez do fotógrafo:
a cabeça pousada na mão direita, um cigarro
preso aos dedos, o olhar perdido em quase
nada. Invento a imagem que se forma
na tua cabeça, a partir desse nada: uma
nuvem; e por dentro dessa nuvem, todas
as formas do sonho. Porém, o céu não
te perturba o pensamento; nem os ventos
que trazem e levam as nuvens, como
barcos, no oceano da tua memória. E
volto à situação inicial: tu, sentada à
mesa, para que eu te pudesse fixar
com a nitidez do fotógrafo, olhas-me,
como se eu estivesse à tua frente; e
o teu olhar apaga o tempo e a distância,
desfocando a imagem, como se o fumo
do cigarro te envolvesse o rosto, e
te trouxesse de volta a mim, como
nuvem, ou sonho, que o vento dissipa.


Nuno Júdice, in As coisas mais simples, D. Quixote, 2007, 2ª ed.,p. 27

8 de outubro de 2014

Chuva ou choro?


Ilustração de Iwasaki Chihiro


Não consigo chorar. Bendita chuva, que chora por mim.


Miguel Miranda, in A paixão de K, Porto Editora, 2013, 1ª ed., p. 42

6 de outubro de 2014

Lágrimas em autogestão

Ilustração de Eun Young Choi

A chuva são lágrimas em autogestão.

Miguel Miranda, in A paixão de K, Porto Editora, 2013, 1ª ed., p. 42







4 de outubro de 2014

Quando o tempo pára


Ilustração de Ofra Amit



Todos os relógios de Havana devem ter parado enquanto durou o beijo abocanhado dos amantes.


Miguel Miranda, in A paixão de K, Porto Editora, 2013, 1ª ed., p.49

A respiração dos bosques

Ilustração de Teagan White


A respiração dos bosques tinha algo de feminino, espraiando-se lânguida sobre os campos. Os murmúrios de pássaros e folhagens eram suaves promessas incumpridas roçagando na pele e o som da água nas levadas era um riso cristalino de mulher.



Miguel Miranda, in A paixão de K, Porto Editora, 2013, 1ª ed., p. 133


2 de outubro de 2014

Livro e personalidade

Ilustração de Cosei Kawa 


Uma mão é um livro aberto sobre a personalidade do portador. 


Miguel Miranda, in Dai-lhes, Senhor, o eterno repouso, Porto Editora, 2011, 1ª ed., p.31

14 de setembro de 2014

Os Maias, um livro filmado



Ilustração de Claude Theberge
Não é o livro que deu um excelente filme, é um filme que glorifica a excelência do livro.


O filme cria mesmo um artefacto, teatral ou operático, para destacar a palavra. Os painéis de João de Queirós da cidade de Lisboa, mas também de Santa Olávia e de Sintra, são um fabuloso detalhe artístico, que confere a todo o filme um ambiente onírico. Além disso, coloca-nos perante um palco, o que permite uma certa teatralidade e nos transporta mais facilmente para a época. Marcando também o plano literário com a narração possante de Jorge Vaz de Carvalho, Os Maias, de João Botelho, é cinema, teatro, ópera, política e literatura. Está lá tudo.

Manuel Halpern, in JL nº 1146, de 3 a 16 de setembro de 2014, p. 9




7 de setembro de 2014

O adorno das metáforas

Ilustração de Jennifer Lambein

As flores ficam bem nas metáforas.

Ricardo Marques, in 1914 - Portugal no ano da Grande Guerra, Oficina do Livro, 2014, 1ª ed., p. 49


22 de agosto de 2014

Veneza

Ilustração de Sernur Isik



Que música serias

se não fosses água?




Eugénio de Andrade, in Escrita da terra


Ilustração de Pascal Campion

14 de agosto de 2014

14 de Agosto

Ilustração de Keiko Shibata 


Na praia, o horizonte é uma linha recta de mar.

Afonso Cruz, "14 de Agosto", in O livro do ano, Editora Objectiva, 2013, 1ª ed., p.68 

6 de agosto de 2014

Passos de tantas vias

Ilustração de Patricia Metola


Assim ficara, parado nos primeiros passos de tantas vias, com o espírito cheio de mundos, ou de pedrinhas, que é a mesma coisa.


Luigi Pirandello, in Um, ninguém e cem mil, Cavalo de Ferro, 2014, 3ª ed., p. 7 

29 de julho de 2014

É assim

Ilustrações de


É assim:
a gente despede-se, vai-se
embora amaldiçoando a terra,
carrega amargura que nem o diabo
aguenta; com o tempo vai
esquecendo injustiças, mágoas,
injúrias, morrendo por regressar
ao cheiro da palha seca, ao calor
animal do estábulo
ao sonho do quintalório
com três alqueires de milho ao sol
e dois pinheiros bravos -
porque não há no mundo
outro lugar onde
enfim dê tanto gosto chafurdar.



Eugénio de Andrade, in O Sal da Língua


 Lowell Herrero

25 de julho de 2014

Coral

Ilustração de Roz Art
Ia e vinha

E a cada coisa perguntava

Que nome tinha.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 207