Um blogue que se alimenta de e com ilustrações e palavras, sobretudo textos literários.
19 de janeiro de 2014
18 de janeiro de 2014
Organizar o sono
17 de janeiro de 2014
Dormir, para quê?
14 de janeiro de 2014
Reciclagem verbal
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| Ilustração de Afonso Cruz |
Comunicou-me a pessoa do 8A: Aproveito o lixo para fazer coisas novas, como candeeiros, canteiros, lavatórios e muito mais, que é assim que o universo faz as coisas. Por exemplo, com a palavra lama podemos fazer a palavra alma.
Parece magia, comuniquei eu. Mostre-me as suas mãos.
Afonso Cruz, in Assim mas sem ser assim - Considerações de um misantropo, Caminho, 2013, p. 16
13 de janeiro de 2014
Do outro lado dos pés
12 de janeiro de 2014
As gaivotas
O olhar
10 de janeiro de 2014
Humor de Mandela
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| Ilustração de Eric Comstock |
Sabe, eu gosto que as pessoas estejam descontraídas pois, mesmo quando se está a discutir um assunto sério, a descontracção é muito importante porque nos encoraja a pensar; é por isso que gosto de dizer piadas, mesmo quando estou a examinar situações difíceis. Porque, quando as pessoas estão descontraídas, elas conseguem pensar como deve ser.
8 de janeiro de 2014
Filosofia do amor
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| Ilustração de Mariana Kalacheva |
Enquanto esperas que te dêem o troco,
tomo nota do teu perfil sob a cortina
dos cabelos recortados na linha em que testa
e sobrancelhas se juntam, deixando apenas
um fragmento de pele por entre uma
breve abertura da franja. Aí,
nesse caminho entre o balcão e a mesa,
trazendo o tabuleiro em que pousaste
o copo e a bebida, atravessas a fronteira
entre o espaço de um desenho abstracto,
que comecei no caderno da minha cabeça,
e a realidade de um fim de tarde que me
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| Ilustração de Suzanne Carpenter |
do amor como pura disjunção, ou seja,
essa dissociação que os filósofos fazem
da unidade dos amantes, o que
os leva a considerar que tudo nasce
da diferença, da separação
entre um e o outro. Mas enquanto bebias
o sumo, sentia-o correr na minha garganta,
como se a vida fosse uma prova do
contrário do que dizem os filósofos, pelo
menos neste preciso ponto em que
nos sentimos um como o outro.
Nuno Júdice, in Navegação de acaso, D. Quixote, 2013, p. 24
7 de janeiro de 2014
O silêncio mais profundo
5 de janeiro de 2014
A estrela
Entre silêncio e frio
Só uma estrela secreta me guiava
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| Ilustração de Eva Vásquez |
Da minha estrela julguei que eu a julgara
Verdadeira sendo ela só reflexo
De uma cidade a néon enfeitada
A minha solidão me pareceu coroa
Sinal de perfeição em minha fronte
Mas vi quando no vento me humilhava
Que a coroa que eu levava era de um ferro
Tão pesado que toda me dobrava
Do frio das montanhas eu pensei
“Minha pureza me cerca e me rodeia”
Porém meu pensamento apodreceu
E a pureza das coisas cintilava
E eu vi que a limpidez não era eu
E a fraqueza da carne e a miragem do espírito
Em monstruosa voz se transformaram
Disse às pedras do monte que falassem
Mas elas como pedras se calaram
Sozinha me vi delirante e perdida
E uma estrela serena me espantava
E eu caminhei na noite minha sombra
De desmedidos gestos me cercava
Silêncio e medo
Nos confins desolados caminhavam
Então eu vi chegar ao meu encontro
Aqueles que uma estrela iluminava
E assim eles disseram: “Vem connosco
se também vens seguindo aquela estrela”
Então soube que a estrela que eu seguia
era real e não imaginada
Grandes noites redondas nos cercaram
Grandes brumas miragens nos mostraram
Grandes silêncios de ecos vagabundos
Em direcções distantes nos chamaram
E a sombra dos três homens sobre a terra
Ao lado dos meus passos caminhava
E eu espantada vi que aquela estrela
Para a cidade dos homens nos guiava
E a estrela do céu parou em cima
De uma rua sem cor e sem beleza
Onde a luz tinha a cor que tem a cinza
Longe do verde azul da natureza
Ali não vi as coisas que eu amava
Nem o brilho do sol nem o da água
Ao lado do hospital e da prisão
Entre o agiota e o templo profanado
Onde a rua é mais triste e mais sozinha
E onde tudo parece abandonado
Um lugar pela estrela foi marcado
Então soube que a estrela que eu seguia
era real e não imaginada
Grandes noites redondas nos cercaram
Grandes brumas miragens nos mostraram
Grandes silêncios de ecos vagabundos
Em direcções distantes nos chamaram
E a sombra dos três homens sobre a terra
Ao lado dos meus passos caminhava
E eu espantada vi que aquela estrela
Para a cidade dos homens nos guiava
E a estrela do céu parou em cima
De uma rua sem cor e sem beleza
Onde a luz tinha a cor que tem a cinza
Longe do verde azul da natureza
Ali não vi as coisas que eu amava
Nem o brilho do sol nem o da água
Ao lado do hospital e da prisão
Entre o agiota e o templo profanado
Onde a rua é mais triste e mais sozinha
E onde tudo parece abandonado
Um lugar pela estrela foi marcado
Reis Magos ou Menino Jesus?
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| Ilustração de Carolina Aloy |
Nesse tempo os Reis Magos ainda não existiam (ou sou eu que não me lembro deles) nem havia o costume de armar presépios com a vaca, o burro e o resto da companhia. Pelo menos na nossa casa. Deixava-se à noite o sapato ("o sapatinho") na chaminé, ao lado dos fogareiros de petróleo, e na manhã seguinte ia-se ver o que o Menino Jesus lá teria deixado. Sim, naquele tempo era o Menino Jesus quem descia pela chaminé, não ficava deitado nas palhinhas, de umbigo ao léu, à espera de que os pastores lhe levassem o leite e o queijo, porque disto, sim iria precisar para viver, não do ouro-incenso-e-mirra dos magos, que, como se sabe, só lhe trouxeram amargos de boca.
José Saramago, in As pequenas memórias, Caminho, 2006, p. 114
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4 de janeiro de 2014
Proposta
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| Ilustração de Luís Silva |
Há um certo traço de exactidão
nos adjectivos que procuro com
o aparo da palavra. A tinta fixa
o perfil do rosto com um som
de vogais mais claras, e é como se
ouvisse o riso que se solta da
boca ao ouvir a expressão desta
ideia. Mas também uso a régua
do verso para que a imagem fique
a direito na página, e nenhum risco
perturbe o desenho. O papel está
no fim, o edifício, o poema, ou
esse objecto artesanal que sai
perfeito das mãos do oleiro, é
afiado pela consciência de
que só o que é exacto sobrevive
no ouvido e canta, com a lentidão
com que se faz o amor, a concepção
da beleza que aqui permanece.
Nuno Júdice, in Navegação de acaso, D. Quixote, 2013, p. 80
3 de janeiro de 2014
A manhã do poema
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| Ilustração de Marie Cardouat |
Nasceu de uma colheita de espumas azuis, e
encho a cesta do horizonte com as espigas maduras
do seu coral submerso. Como as asas decepadas
das grandes aves que se ferem numa combustão
de nuvens, as palavras caem no chão da estrofe
para que as separe, e junte as que conservaram
o sopro húmido da tua voz ao som das foices
que avançam contra o sol, desbastando a folhagem
da memória. Em vez de correr contra o tempo,
separo de entre esses ramos de imagens aquelas que
me ditaram os versos mais obscuros, a luz
de acaso que deles surgia, em cintilações de sílaba,
e um reflexo de madrugada na face liberta
de uma lenta sombra. E carrego essa cesta
como se regressasse de uma vindima de emoções,
seguindo o ritmo da frase que se escreve
na interrupção das vagas, e o vento derramou
no ouvido dos amantes.
Nuno Júdice, in Navegação de acaso, D. Quixote, 2013, p. 72
2 de janeiro de 2014
Tecer bailados
1 de janeiro de 2014
As flores
31 de dezembro de 2013
Os nossos dedos abriram mãos fechadas
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| Ilustrações de Jan Pashley |
Os nossos dedos abriram mãos fechadas
Cheias de perfume
Partimos à aventura através de vozes e de gestos
Pressentimos paixões como paisagens
E cada corpo era um caminho.
Mas um se ergueu tomando tudo
E escorreram asas dos seus braços.
Florestas, pântanos e rios,
Viajámos imóveis debruçados,
Enquanto o céu brilhava nas janelas.
Partimos à aventura através de vozes e de gestos
Pressentimos paixões como paisagens
E cada corpo era um caminho.
Mas um se ergueu tomando tudo
E escorreram asas dos seus braços.
Florestas, pântanos e rios,
Viajámos imóveis debruçados,
Enquanto o céu brilhava nas janelas.
E a cidade partiu como um navio
Através da noite.
Sophia de Mello Breyner, Coral, in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 172
Sophia de Mello Breyner, Coral, in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 172
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29 de dezembro de 2013
O Menino
Natal
Acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.
Era gente a correr pela música acima.
Uma onda uma festa. Palavras a saltar.
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Eram carpas ou mãos. Um soluço uma rima.
Guitarras guitarras. Ou talvez mar.
E acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.
Na tua boca. No teu rosto. No teu corpo acontecia.
No teu ritmo nos teus ritos.
No teu sono nos teus gestos. (Liturgia liturgia).
Nos teus gritos. Nos teus olhos quase aflitos.
E nos silêncios infinitos. Na tua noite e no teu dia.
No teu sol acontecia.
Era um sopro. Era um salmo. (Nostalgia nostalgia).
Todo o tempo num só tempo: andamento
de poesia. Era um susto. Ou sobressalto. E acontecia.
Na cidade lavada pela chuva. Em cada curva
acontecia. E em cada acaso. Como um pouco de água turva
na cidade agitada pelo vento.
Natal Natal (diziam). E acontecia.
Como se fosse na palavra a rosa brava
acontecia. E era Dezembro que floria.
Era um vulcão. E no teu corpo a flor e a lava.
E era na lava a rosa e a palavra.
Todo o tempo num só tempo: nascimento de poesia.
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| Ilustrações de Laimonas Smergelis |
Manuel Alegre
28 de dezembro de 2013
Inventar o sonho
25 de dezembro de 2013
24 de dezembro de 2013
Pai Natal
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| Ilustração de Christine Thouzeau |
O respeitável ancião, com o seu capuz até aos olhos, todo salpicado de neve, as mãos escondidas nas largas mangas de frade, o olho maganão e jovial, esgarça a boca num riso de felicidade sem fim, e as suas enormes barbas de algodão pendem-lhe até aos pés. Todas as crianças o querem abraçar, e ele não se recusa, porque é indulgente.
Eça de Queirós, in O Natal, Guimarães Editores, 2009, p. 8
A poesia do Natal...
23 de dezembro de 2013
Poema e silêncio
O endereço do poema
19 de dezembro de 2013
Que segredo tem o Natal?
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| Ilustração de Jan Pashley |
Pergunto-me, Senhor, que segredo tem o Natal?
Há um milagre que acontece dentro de nós,
só pode ser um milagre, pois é como se a vida se reacendesse.
Contemplando o presépio, percebo que este é um milagre humaníssimo
que Deus suscita aos nossos olhos.
Ele amou-nos tanto que nos deu o Seu próprio Filho.
O milagre do Natal assenta sobre este Dom absoluto,
que nos faz perceber que só somos na medida em que nos damos,
e que a vida renasce, como dádiva, na ponta dos dedos, no olhar, nas palavras.
José Tolentino Mendonça
17 de dezembro de 2013
Zeca Perpétuo
- Mulher, eu?
- Sim, mulher é que senta em esteira. Você é o único homem que eu vi sentar na esteira.
- Que quer, vizinha? Cadeira não dá jeito para dormir.
Mia Couto, in Mar me quer, Caminho, 2013, 14ª ed., p. 9
16 de dezembro de 2013
A vida é tão simples que ninguém a entende...
- Mas você, Zeca: é que nem faz ideia da vida.
- A vida, Dona Luarmina? A vida é tão simples que ninguém a entende. É como dizia meu avô Celestiano sobre pensarmos Deus ou não-Deus...
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| Ilustração de Manuel Lopes Herrera |
Além disso, pensar traz muita pedra e pouco caminho. Por isso eu, um reformado do mar o que me resta fazer? Dispensado de pescar, me dispenso de pensar. Aprendi nos muitos anos de pescaria: o tempo anda por onda. A gente tem é que ficar levezinho e sempre apanha boleia numa dessas ondeações.
Mia Couto, in Mar me quer, Caminho, 2013, 14ª ed., pp. 9-10
15 de dezembro de 2013
Palavras de Mandela (4)
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| Ilustração de Ruud van Empel |
Pode dizer-se que há quatro coisas básicas e essenciais que a esmagadora maioria do povo de uma sociedade deseja: viver num ambiente seguro, conseguir trabalhar e sustentar-se, ter acesso a boa saúde pública e sólidas oportunidades educacionais para os filhos. Actualmente, enquanto sociedade, podemos estar a batalhar nestas quatro áreas, mas temos de permanecer confiantes de que, com o compromisso pessoal de cada um de nós, poderemos e iremos ultrapassar os obstáculos na via para o desenvolvimento.
[Mandela] na inauguração da Oprah Winfrey Leadership Academy, Henley-on-Klip,
África do Sul, 2 de janeiro de 2007
The Nelson Mandela Foundation in As palavras de Nelson Mandela, Objectiva, 2012, 1ª ed., p. 145
Palavras de Mandela (3)
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| Ilustração de Susan Gal |
Embora enfrentemos muitos desafios, e embora tenhamos ainda muito caminho a percorrer no que respeita à erradicação das consequências do nosso passado, para nos tornarmos uma nação totalmente unida e reconciliada, juntos, lançámos o alicerce para o fazer.
Discurso sobre o orçamento na abertura do debate presidencial,
Parlamento, Cidade do Cabo, África do Sul, 2 de março de 1999
The Nelson Mandela Foundation in As palavras de Nelson Mandela, Objectiva, 2012, 1ª ed., p. 145
14 de dezembro de 2013
Palavras de Mandela (2)
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| Ilustração de Alice Tams |
Os líderes sabem bem que a crítica construtiva no seio das estruturas da organização, por mais ferina que seja, é um dos métodos mais eficazes de resolver problemas internos.
Nelson Mandela (c. 1998)
The Nelson Mandela Foundation in As palavras de Nelson Mandela, Objectiva, 2012, 1ª ed., p. 133
The Nelson Mandela Foundation in As palavras de Nelson Mandela, Objectiva, 2012, 1ª ed., p. 133
12 de dezembro de 2013
Palavras de Mandela (1)
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| Ilustração de The head of state |
Sabemos, e a maioria dos sul-africanos sabe, pela sua experiência diária, que o apartheid continua a coabitar connosco: nos telhados rotos e nas paredes de zinco das barracas: nos estômagos famintos das crianças; na escuridão das casas sem electricidade; e nos pesados baldes de água que as mulheres rurais acartam percorrendo longas distâncias para cozinhar e matar a sede.
Jantar anual da Associação de Correspondentes Estrangeiros,
Transvaal Automobile Club,
Joanesburgo, África do Sul, 21 de Novembro de 1997
The Nelson Mandela Foundation in As palavras de Nelson Mandela, Objectiva, 2012, 1ª ed., p. 73
10 de dezembro de 2013
Os invisíveis
Diálogo entre duas pessoas sem-abrigo em O cultivo de flores de plástico:
Senhora de fato Realmente. As pessoas que abrem a janela e vêem que a vida é colorida e bela é porque não nos vêem. Não existimos, pois não?
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| Ilustração de Angela Muss |
Lili Somos pessoas que são cactos e ninguém quer chegar perto de nós com medo de se picar, pois, pois, somos sozinhos como os desertos, mas então. Cheios de céu aberto, pessoas cheias de ar livre. É assim. Há muitas portas no mundo.
Afonso Cruz
9 de dezembro de 2013
Chave-coração
Voz de uma sem-abrigo na peça O cultivo de flores de plástico, de Afonso Cruz:
Lili (...) O meu pai, quando a gente se portava bem, dava-nos um doce e dizia coisas certas, pois, pois. Ele sabia tudo. Nunca mais ouvi uma pessoa que soubesse as coisas certas. Devagar. Quando alguém lhe dizia que não era assim. ele insistia: é tal. E as pessoas calavam-se, porque ele tinha óculos e barba e sabia as coisas certas. Depois morreu de distância.
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| Ilustração de Maki Horanai |
(...) Quando vim para a rua, comecei a lembrar-me dele e ele já não está morto, mesmo que esteja muito longe, num lugar qualquer que não sei onde fica. Tenho a chave da casa dele.
7 de dezembro de 2013
Partida e chegada das estações
5 de dezembro de 2013
A perversão de Narciso
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| Ilustração de Sophie Leta |
Decidira que o amor fazia parte da vida,
ao contrário do que pensara. Olhavapara o espelho e recusava o que via,
correndo para a rua em busca de outros
rostos mais belos: os da jovem que passou
à sua frente e o olhou de relance, inquieta
ao adivinhar o seu desejo; ou o dessa que
alisava os cabelos com as mãos, como se
estivesse a acariciar-se, e os seus olhos
perdiam-se na fronteira de um sonho
acordado. Queria dizer-lhes que as amava,
e que deixara para trás de si a sua imagem,
e a obsessão de se ver outro para se possuir até
à última esfera da loucura. E elas olhavam-no,
pedindo-lhe que se aproximasse. Mas
ele continuava parado como se nem sequer
as visse. Então, cansadas de esperar, partiam,
deixando-o entregue à solidão, e
ao inútil desejo de si próprio.
Nuno Júdice, in Navegação de acaso, D. Quixote, 2013, p. 33
4 de dezembro de 2013
Pequenas memórias
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| Ilustração de Madalena Matoso |
Às vezes pergunto-me se certas recordações são realmente minhas, se não serão mais do que lembranças alheias de episódios de que eu tivesse sido actor inconsciente e dos quais só mais tarde vim a ter conhecimento por me terem sido narrados por pessoas que neles houvessem estado presentes, se é que não falariam, também elas, por terem ouvido contar a outras pessoas.
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| Ilustração de Madalena Matoso |
Não é esse o caso daquela escolinha particular, num quarto ou quinto andar da Rua Morais Soares, onde, antes de termos ido viver para a Rua dos Cavaleiros, eu comecei a aprender as primeiras letras. Sentado numa cadeirinha baixa, desenhava-as lenta e aplicadamente na pedra, que era o nome que então se dava à ardósia, palavra demasiado pretensiosa para sair com naturalidade da boca de uma criança e que talvez nem sequer conhecesse ainda. É uma recordação própria, pessoal, nítida como um quadro, a que não falta a sacola em que acomodava as minhas coisas, de serapilheira castanha, com um barbante para levar a tiracolo. Escrevia-se na ardósia com um lápis de lousa que se vendia em duas qualidades nas papelarias, uma, a mais barata, dura como a pedra em que se escrevia, ao passo que a outra, mais cara, era branda, macia, e chamávamos-lhe «de leite» por causa da sua cor, um cinzento-claro, tirando a leitoso, precisamente. Só depois de ter entrado no ensino oficial, e não foi nos primeiros meses, é que os meus dedos puderam, finalmente, tocar essa pequena maravilha das técnicas de escrita mais actualizadas.
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| Ilustração de Csil Cb |
Não sei como o perceberão as crianças de agora, mas, naquelas épocas remotas, para as infâncias que fomos, o tempo aparecia-nos como feito de uma espécie particular de horas, todas lentas, arrastadas, intermináveis. Tiveram de passar alguns anos para que começássemos a compreender, já sem remédio, que cada uma tinha apenas sessenta minutos, e, mais tarde ainda, teríamos a certeza de que todos estes, sem excepção, acabavam ao fim de sessenta segundos...
José Saramago, in As pequenas memórias, Caminho, 2006, pp. 63-65
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José Saramago,
tempo cronológico,
tempo psicológico
3 de dezembro de 2013
Balão ou mundo?
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| Ilustração de Anna Lisk |
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| Ilustração de Csil Cb |
Íamos nós no Rossio, já de regresso a casa, eu impante como se conduzisse pelos ares, atado a um cordel, o mundo inteiro, quando, de repente, ouvi que alguém se ria nas minhas costas. Olhei e vi. O balão esvaziara-se, tinha vindo a arrastá-lo pelo chão sem me dar conta, era uma coisa suja, enrugada, informe, e dois homens que vinham atrás riam-se e apontavam-me com o dedo, a mim, naquela ocasião o mais ridículo dos espécimes humanos. Nem sequer chorei. Deixei cair o cordel, agarrei-me ao braço da minha mãe como se fosse uma tábua de salvação e continuei a andar. Aquela coisa suja, enrugada e informe era realmente o mundo.
José Saramago, in As pequenas memórias, Caminho, 2006, pp.76-77
2 de dezembro de 2013
A página branca
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| Ilustração de Ophelia Redpath |
Havia uma vez, naquela cidade de província
onde joguei bilhar no intervalo de ver chegarem
e partirem as traineiras, uma jovem mulher
que se sentava na mesa mais triste do café,
e olhava em frente, sem que os seus olhos
mudassem de expressão. Todos os dias era
assim, e dela só fiquei a saber que ninguém
a conhecia. Na mesa, o mesmo livro com o mesmo
marcador que nunca saía da mesma página,
e que ela nunca abria como se não quisesse saber
como a história acabava. Naquele café, tiraram
o bilhar; naquela cidade já não há traineiras
a chegar e a partir; mas quando olho para
a mesa do canto onde a jovem mulher se
sentava, penso sempre na história que ficou
a meio, sem que eu saiba como acabou.
Nuno Júdice, in Navegação de acaso, D. Quixote, 2013, p. 32
1 de dezembro de 2013
Não deixes o cansaço instalar-se
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