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| Ilustração de Alessandro Gottardo |
Um blogue que se alimenta de e com ilustrações e palavras, sobretudo textos literários.
25 de dezembro de 2013
24 de dezembro de 2013
Pai Natal
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| Ilustração de Christine Thouzeau |
O respeitável ancião, com o seu capuz até aos olhos, todo salpicado de neve, as mãos escondidas nas largas mangas de frade, o olho maganão e jovial, esgarça a boca num riso de felicidade sem fim, e as suas enormes barbas de algodão pendem-lhe até aos pés. Todas as crianças o querem abraçar, e ele não se recusa, porque é indulgente.
Eça de Queirós, in O Natal, Guimarães Editores, 2009, p. 8
A poesia do Natal...
23 de dezembro de 2013
Poema e silêncio
O endereço do poema
19 de dezembro de 2013
Que segredo tem o Natal?
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| Ilustração de Jan Pashley |
Pergunto-me, Senhor, que segredo tem o Natal?
Há um milagre que acontece dentro de nós,
só pode ser um milagre, pois é como se a vida se reacendesse.
Contemplando o presépio, percebo que este é um milagre humaníssimo
que Deus suscita aos nossos olhos.
Ele amou-nos tanto que nos deu o Seu próprio Filho.
O milagre do Natal assenta sobre este Dom absoluto,
que nos faz perceber que só somos na medida em que nos damos,
e que a vida renasce, como dádiva, na ponta dos dedos, no olhar, nas palavras.
José Tolentino Mendonça
17 de dezembro de 2013
Zeca Perpétuo
- Mulher, eu?
- Sim, mulher é que senta em esteira. Você é o único homem que eu vi sentar na esteira.
- Que quer, vizinha? Cadeira não dá jeito para dormir.
Mia Couto, in Mar me quer, Caminho, 2013, 14ª ed., p. 9
16 de dezembro de 2013
A vida é tão simples que ninguém a entende...
- Mas você, Zeca: é que nem faz ideia da vida.
- A vida, Dona Luarmina? A vida é tão simples que ninguém a entende. É como dizia meu avô Celestiano sobre pensarmos Deus ou não-Deus...
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| Ilustração de Manuel Lopes Herrera |
Além disso, pensar traz muita pedra e pouco caminho. Por isso eu, um reformado do mar o que me resta fazer? Dispensado de pescar, me dispenso de pensar. Aprendi nos muitos anos de pescaria: o tempo anda por onda. A gente tem é que ficar levezinho e sempre apanha boleia numa dessas ondeações.
Mia Couto, in Mar me quer, Caminho, 2013, 14ª ed., pp. 9-10
15 de dezembro de 2013
Palavras de Mandela (4)
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| Ilustração de Ruud van Empel |
Pode dizer-se que há quatro coisas básicas e essenciais que a esmagadora maioria do povo de uma sociedade deseja: viver num ambiente seguro, conseguir trabalhar e sustentar-se, ter acesso a boa saúde pública e sólidas oportunidades educacionais para os filhos. Actualmente, enquanto sociedade, podemos estar a batalhar nestas quatro áreas, mas temos de permanecer confiantes de que, com o compromisso pessoal de cada um de nós, poderemos e iremos ultrapassar os obstáculos na via para o desenvolvimento.
[Mandela] na inauguração da Oprah Winfrey Leadership Academy, Henley-on-Klip,
África do Sul, 2 de janeiro de 2007
The Nelson Mandela Foundation in As palavras de Nelson Mandela, Objectiva, 2012, 1ª ed., p. 145
Palavras de Mandela (3)
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| Ilustração de Susan Gal |
Embora enfrentemos muitos desafios, e embora tenhamos ainda muito caminho a percorrer no que respeita à erradicação das consequências do nosso passado, para nos tornarmos uma nação totalmente unida e reconciliada, juntos, lançámos o alicerce para o fazer.
Discurso sobre o orçamento na abertura do debate presidencial,
Parlamento, Cidade do Cabo, África do Sul, 2 de março de 1999
The Nelson Mandela Foundation in As palavras de Nelson Mandela, Objectiva, 2012, 1ª ed., p. 145
14 de dezembro de 2013
Palavras de Mandela (2)
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| Ilustração de Alice Tams |
Os líderes sabem bem que a crítica construtiva no seio das estruturas da organização, por mais ferina que seja, é um dos métodos mais eficazes de resolver problemas internos.
Nelson Mandela (c. 1998)
The Nelson Mandela Foundation in As palavras de Nelson Mandela, Objectiva, 2012, 1ª ed., p. 133
The Nelson Mandela Foundation in As palavras de Nelson Mandela, Objectiva, 2012, 1ª ed., p. 133
12 de dezembro de 2013
Palavras de Mandela (1)
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| Ilustração de The head of state |
Sabemos, e a maioria dos sul-africanos sabe, pela sua experiência diária, que o apartheid continua a coabitar connosco: nos telhados rotos e nas paredes de zinco das barracas: nos estômagos famintos das crianças; na escuridão das casas sem electricidade; e nos pesados baldes de água que as mulheres rurais acartam percorrendo longas distâncias para cozinhar e matar a sede.
Jantar anual da Associação de Correspondentes Estrangeiros,
Transvaal Automobile Club,
Joanesburgo, África do Sul, 21 de Novembro de 1997
The Nelson Mandela Foundation in As palavras de Nelson Mandela, Objectiva, 2012, 1ª ed., p. 73
10 de dezembro de 2013
Os invisíveis
Diálogo entre duas pessoas sem-abrigo em O cultivo de flores de plástico:
Senhora de fato Realmente. As pessoas que abrem a janela e vêem que a vida é colorida e bela é porque não nos vêem. Não existimos, pois não?
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| Ilustração de Angela Muss |
Lili Somos pessoas que são cactos e ninguém quer chegar perto de nós com medo de se picar, pois, pois, somos sozinhos como os desertos, mas então. Cheios de céu aberto, pessoas cheias de ar livre. É assim. Há muitas portas no mundo.
Afonso Cruz
9 de dezembro de 2013
Chave-coração
Voz de uma sem-abrigo na peça O cultivo de flores de plástico, de Afonso Cruz:
Lili (...) O meu pai, quando a gente se portava bem, dava-nos um doce e dizia coisas certas, pois, pois. Ele sabia tudo. Nunca mais ouvi uma pessoa que soubesse as coisas certas. Devagar. Quando alguém lhe dizia que não era assim. ele insistia: é tal. E as pessoas calavam-se, porque ele tinha óculos e barba e sabia as coisas certas. Depois morreu de distância.
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| Ilustração de Maki Horanai |
(...) Quando vim para a rua, comecei a lembrar-me dele e ele já não está morto, mesmo que esteja muito longe, num lugar qualquer que não sei onde fica. Tenho a chave da casa dele.
7 de dezembro de 2013
Partida e chegada das estações
5 de dezembro de 2013
A perversão de Narciso
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| Ilustração de Sophie Leta |
Decidira que o amor fazia parte da vida,
ao contrário do que pensara. Olhavapara o espelho e recusava o que via,
correndo para a rua em busca de outros
rostos mais belos: os da jovem que passou
à sua frente e o olhou de relance, inquieta
ao adivinhar o seu desejo; ou o dessa que
alisava os cabelos com as mãos, como se
estivesse a acariciar-se, e os seus olhos
perdiam-se na fronteira de um sonho
acordado. Queria dizer-lhes que as amava,
e que deixara para trás de si a sua imagem,
e a obsessão de se ver outro para se possuir até
à última esfera da loucura. E elas olhavam-no,
pedindo-lhe que se aproximasse. Mas
ele continuava parado como se nem sequer
as visse. Então, cansadas de esperar, partiam,
deixando-o entregue à solidão, e
ao inútil desejo de si próprio.
Nuno Júdice, in Navegação de acaso, D. Quixote, 2013, p. 33
4 de dezembro de 2013
Pequenas memórias
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| Ilustração de Madalena Matoso |
Às vezes pergunto-me se certas recordações são realmente minhas, se não serão mais do que lembranças alheias de episódios de que eu tivesse sido actor inconsciente e dos quais só mais tarde vim a ter conhecimento por me terem sido narrados por pessoas que neles houvessem estado presentes, se é que não falariam, também elas, por terem ouvido contar a outras pessoas.
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| Ilustração de Madalena Matoso |
Não é esse o caso daquela escolinha particular, num quarto ou quinto andar da Rua Morais Soares, onde, antes de termos ido viver para a Rua dos Cavaleiros, eu comecei a aprender as primeiras letras. Sentado numa cadeirinha baixa, desenhava-as lenta e aplicadamente na pedra, que era o nome que então se dava à ardósia, palavra demasiado pretensiosa para sair com naturalidade da boca de uma criança e que talvez nem sequer conhecesse ainda. É uma recordação própria, pessoal, nítida como um quadro, a que não falta a sacola em que acomodava as minhas coisas, de serapilheira castanha, com um barbante para levar a tiracolo. Escrevia-se na ardósia com um lápis de lousa que se vendia em duas qualidades nas papelarias, uma, a mais barata, dura como a pedra em que se escrevia, ao passo que a outra, mais cara, era branda, macia, e chamávamos-lhe «de leite» por causa da sua cor, um cinzento-claro, tirando a leitoso, precisamente. Só depois de ter entrado no ensino oficial, e não foi nos primeiros meses, é que os meus dedos puderam, finalmente, tocar essa pequena maravilha das técnicas de escrita mais actualizadas.
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| Ilustração de Csil Cb |
Não sei como o perceberão as crianças de agora, mas, naquelas épocas remotas, para as infâncias que fomos, o tempo aparecia-nos como feito de uma espécie particular de horas, todas lentas, arrastadas, intermináveis. Tiveram de passar alguns anos para que começássemos a compreender, já sem remédio, que cada uma tinha apenas sessenta minutos, e, mais tarde ainda, teríamos a certeza de que todos estes, sem excepção, acabavam ao fim de sessenta segundos...
José Saramago, in As pequenas memórias, Caminho, 2006, pp. 63-65
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3 de dezembro de 2013
Balão ou mundo?
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| Ilustração de Anna Lisk |
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| Ilustração de Csil Cb |
Íamos nós no Rossio, já de regresso a casa, eu impante como se conduzisse pelos ares, atado a um cordel, o mundo inteiro, quando, de repente, ouvi que alguém se ria nas minhas costas. Olhei e vi. O balão esvaziara-se, tinha vindo a arrastá-lo pelo chão sem me dar conta, era uma coisa suja, enrugada, informe, e dois homens que vinham atrás riam-se e apontavam-me com o dedo, a mim, naquela ocasião o mais ridículo dos espécimes humanos. Nem sequer chorei. Deixei cair o cordel, agarrei-me ao braço da minha mãe como se fosse uma tábua de salvação e continuei a andar. Aquela coisa suja, enrugada e informe era realmente o mundo.
José Saramago, in As pequenas memórias, Caminho, 2006, pp.76-77
2 de dezembro de 2013
A página branca
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| Ilustração de Ophelia Redpath |
Havia uma vez, naquela cidade de província
onde joguei bilhar no intervalo de ver chegarem
e partirem as traineiras, uma jovem mulher
que se sentava na mesa mais triste do café,
e olhava em frente, sem que os seus olhos
mudassem de expressão. Todos os dias era
assim, e dela só fiquei a saber que ninguém
a conhecia. Na mesa, o mesmo livro com o mesmo
marcador que nunca saía da mesma página,
e que ela nunca abria como se não quisesse saber
como a história acabava. Naquele café, tiraram
o bilhar; naquela cidade já não há traineiras
a chegar e a partir; mas quando olho para
a mesa do canto onde a jovem mulher se
sentava, penso sempre na história que ficou
a meio, sem que eu saiba como acabou.
Nuno Júdice, in Navegação de acaso, D. Quixote, 2013, p. 32
1 de dezembro de 2013
Não deixes o cansaço instalar-se
28 de novembro de 2013
Porta ou sorriso?
27 de novembro de 2013
Verdade e mentira
25 de novembro de 2013
Poesia rejeitada
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| Ilustração de Alexandra Semushina |
Peguei na minha obra toda, mais de quatro mil páginas A4, e enterrei tudo num terreno baldio perto de casa. Nessa altura vivia no Cairo. Depois de ter enterrado aquilo cresceram umas ervinhas, mesmo onde eu tinha escavado. Fiquei contente porque não tinha crescido nada à volta, só onde enterrei os poemas. Não sei se foi de ter revolvido a terra, ou se foi a Natureza a demonstrar a sua inclinação pela poesia, especialmente pela rejeitada.
Afonso Cruz, in A boneca de Kokoschka, Quetzal, 2010, p. 83
24 de novembro de 2013
O elogio da confiança (1)
22 de novembro de 2013
Frio
20 de novembro de 2013
Silêncio e intimidade
19 de novembro de 2013
Silêncio
18 de novembro de 2013
Silêncio vazio
17 de novembro de 2013
Dança no universo
16 de novembro de 2013
Nuvens
14 de novembro de 2013
O que sabem os relógios?
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| Ilustração de Georgiana Chitac |
Que infelicidade. Os dias esticam e ficam mais longos, o relógio diz que não, mas, com licença, o que sabem os relógios sobre a alma humana? (...)
O tempo demora mais a passar, muito mais, é assim que se sofre. Quando se está feliz, esse mesmo tempo passa a correr, parece que vai atrasado para uma festa, mas, se vê uma lágrima, pára e fica a ver o acidente, dá voltas à nossa desgraça e não anda para a frente como os relógios dizem que ele faz.
Afonso Cruz, in Para onde vão os guarda-chuvas, Alfaguara, 2013, p.118
13 de novembro de 2013
Nas mãos do oleiro
11 de novembro de 2013
Tornar-se poema
10 de novembro de 2013
O valor da migalha
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| Ilustração de Sonja Dimovska |
A papoila e o monge, de José Tolentino Mendonça, é um livro de rara beleza poética e intrinsecamente espiritual.
Um elogio à confiança, à abertura do olhar interior, à profundidade, à pobreza contemplativa, do não saber, da ignorância que despoja, abre horizontes e alarga a esperança.
Um convite à valorização do ínfimo, da migalha, do único, do quotidiano que nos assiste.
Um desafio à descoberta da manifestação divina na revelação e no furtivo; no rumor e no silêncio; no tudo e no nada.
Mª Carla Crespo
Interrogar a papoila
Adeus
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| Ilustração de Sasha Ivoilova |
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.
Eugénio de Andrade, in Os Amantes do dinheiro
8 de novembro de 2013
Uma pequenina luz
|
Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumière
just a little light
una picolla... em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
aqui no meio de nós
entre o bafo quente da multidão
a ventania dos cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo dos que a não vêem
só a adivinham e raivosamente assopram.
Uma pequena luz
que vacila exacta
que bruxuleia firme
que não ilumina apenas brilha.
Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.
Muda como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Brilhando indeflectível.
Silenciosa não crepita
não consome não custa dinheiro.
Não é ela que custa dinheiro.
Não aquece também os que de frio se juntam.
Não ilumina também os rostos que se curvam.
Apenas brilha bruxuleia ondeia
indefectível próxima dourada.
Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.
Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.
Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva:
brilha.
Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não:
brilha.
Uma pequenina luz bruxuleante e muda
como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui
no meio de nós.
Brilha
|
Jorge de Sena
7 de novembro de 2013
Como uma princesa...
Parece que estamos num conto dos irmãos Grimm, disse Rebecca.
O pai afastou os olhos do caminho e sorriu-lhe.
Se fosse um conto dos irmãos Grimm...
Sim.
Tu estavas na casa, no final da alameda.
Como uma princesa.
Tu és uma princesa.
Desde muito cedo que ele lhe chamava a sua princesinha. Já não era novo quando ela nascera, e a morte da mulher algum tempo depois deixara-os sozinhos. A velha casa era o seu castelo, um castelo um pouco arruinado, com cortinados de veludo a que o tempo suavizara as cores, móveis e quadros que por vezes desapareciam misteriosamente, um longo jardim onde um único jardineiro se esforçava por manter algumas plantas, as azáleas debaixo das janelas, os rododendros nas alamedas, os nenúfares nos tanques, as campânulas brancas e os narcisos no relvado.
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| Ilustração de ariana Kalacheva |
Ana Teresa Pereira, in O verão selvagem dos teus olhos, Relógio d'Água, 2008, 1ª ed., pp. 17-18
5 de novembro de 2013
Um silêncio cheio de pássaros
4 de novembro de 2013
Chamo-me...Walt Disney
A história da minha vida não se fez apenas de fantasias animadas e de histórias com animais falantes: também teve alguns episódios mais obscuros e momentos em que tive atitudes pouco nobres.
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| Ilustração de Walt Disney |
Mas isso, caros leitores, é o que define um ser humano. Podemos e devemos procurar a perfeição, mas sempre conscientes de que ela só existe nas histórias de encantar. Talvez por isso tenha escolhido precisamente essa herança de histórias e filmes animados para deixar ao mundo, acima de todas as outras.
Sara Figueiredo Costa, in Chamo-me... Walt Disney, Didáctica Editora, 2012, 1ªed., p. 5
2 de novembro de 2013
A cor do luto
1 de novembro de 2013
Pensamento e floração
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| Ilustração de Rene Rickabaugh |
O pensamento, tal como a floração, não é, certamente, senão a mais delicada evolução das forças plásticas - apenas a força universal da Natureza elevada à potência n da dignidade.
in Fragmentos de Novalis (seleção, tradução e desenhos de Rui Chafes), Assírio & Alvim, 2000, 2ª ed., p. 115
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