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4 de novembro de 2013

Chamo-me...Walt Disney

A história da minha vida não se fez apenas de fantasias animadas e de histórias com animais falantes: também teve alguns episódios mais obscuros e momentos em que tive atitudes pouco nobres.

Ilustração de Walt Disney

Mas isso, caros leitores, é o que define um ser humano. Podemos e devemos procurar a perfeição, mas sempre conscientes de que ela só existe nas histórias de encantar. Talvez por isso tenha escolhido precisamente essa herança de histórias e filmes animados para deixar ao mundo, acima de todas as outras.

Sara Figueiredo Costa, in Chamo-me... Walt Disney, Didáctica Editora, 2012, 1ªed., p. 5

2 de novembro de 2013

A cor do luto

Ilustração de Mayalen Goust

O sangue é (...) da cor da morte, nem sei porque é que quando morre alguém nos vestimos de preto, devia ser de vermelho, que é o corpo do avesso.


Afonso Cruz, in Para onde vão os guarda-chuvas, Alfaguara, 2013, p. 63

1 de novembro de 2013

Pensamento e floração

Ilustração de Rene Rickabaugh



O pensamento, tal como a floração, não é, certamente, senão a mais delicada evolução das forças plásticas - apenas a força universal da Natureza elevada à potência n da dignidade.

in Fragmentos de Novalis (seleção, tradução e desenhos de Rui Chafes), Assírio & Alvim, 2000, 2ª ed., p. 115

31 de outubro de 2013

Neve desfocada

Amanheceu com nevoeiro e não se viam as montanhas no horizonte, do outro lado da janela.


Ilustração de Hanna Kim

A rua estava toda branca de nevoeiro. Parece neve desfocada, pensou ele.


Afonso Cruz, in Para onde vão os guarda-chuvas, Alfaguara, 2013, pp. 10102, 105

30 de outubro de 2013

Telescópios

Ilustração de So Ri Yoon




- Os telescópios - disse Elahi - não servem para aumentar as estrelas, mas para diminuir o ser humano. São máquinas de nos fazer pequenos.




Afonso Cruz, in Para onde vão os guarda-chuvas, Alfaguara, 2013, p. 86

29 de outubro de 2013

Memórias escondidas em guarda-fatos

Van Gogh

As memórias não se guardam apenas na cabeça, no corpo todo, na pele, mas também em caixas de cartão escondidas / arrumadas em guarda-fatos.

Afonso Cruz, in A Boneca de Kokoschka, Quetzal, 2010, p. 120

27 de outubro de 2013

Deserto

Ilustração de Andreas M. Wiese

Parou o automóvel na rua deserta.
As casas dissimuladas pelos jardins, a folhagem muito escura, as flores brancas, amarelas, cor-de-rosa. E um leve perfume que se insinuava como uma neblina.
Pássaros.
O mar cheio de vento.
E as ilhas, cinzentas, ao longe.
As ilhas que sempre tinham feito parte do cenário.
Um cenário de cartão pintado.
Patrícia encostou a face ao volante.
"Estou de volta."
Riu baixinho.
Para dissimular o medo.
Medo de ficar fechada.
"Se alguém fechar os cortinados..."
Cortinados espessos, de veludo.
Mas aquela sensação de claustrofobia, trouxera-a consigo. De espaços abertos, de outras cidades.
Como se tivesse estado numa cela. Ou num deserto.

Ana Teresa Pereira, in Num lugar solitário, Relógio d'Água, 2012, II Parte, Cap.º 1, p. 53




Num lugar solitário

Num lugar solitário, de Ana Teresa Pereira, é a história de um homem e uma mulher que se encontram e dialogam num espaço fechado, supostamente um consultório, no qual ela é clínica - psicóloga ou psicanalista - e ele cliente. 
O conhecimento deles torna-se mútuo num jogo entre ambos, até que chegam a ser o duplo um do outro. 
Além disso, Tom vê em Pat (Patrícia) a sua irmã, Isabel, com a qual está inicialmente envolvido.


A Tom e Pat unem-nos os livros que leem, os quadros que veem, os filmes.

Como irão resolver a projeção de Isabel em Pat, que se torna obsessiva?


Ilustrações de Anne Siems

Qual a simbologia do azul e do fogo neste impressionante e perturbador romance de Ana Teresa Pereira? 

Só lendo-o de um fôlego nos podemos cruzar com o destino (insólito) das personagens...

Mª Carla Crespo

26 de outubro de 2013

Filosofia do parafuso

Ilustração de Lou Patrou

Na verdade, os parafusos são de uma profundidade aterradora. Uma pessoa pode escrever filosofia quando pensa neles. Heráclito, o obscuro, disse que o parafuso era a síntese da recta e do círculo. Está a perceber? no seu movimento, a curva e a recta são uma e a mesma.


Afonso Cruz, in A Boneca de Kokoschka, Quetzal, 2010, p. 137

24 de outubro de 2013

O belo e o interior

...já me aconteceu doer-me o soma e afinal ser da psique. (...)


Barbie, de Ron Griswold

...abundam casos onde a beleza física traz dentro dela uma grande estupidez ou mesmo uma miss universo inteira.


Ari Caldeira, Sobre o interior e o avesso 

apud Afonso Cruz, in A Boneca de Kokoschka, Quetzal, 2010, pp. 143-144

23 de outubro de 2013

Dádiva

Ilustração de Judith Clay
O Paraíso cheira a leite, pensava Elahi, pois é a bebida que nos diz que não é preciso trabalhar para comer, o leite é uma dádiva como a chuva e como dormir na areia das praias.


Afonso Cruz, in Para onde vão os guarda-chuvas, Alfaguara, 2013, p. 81

22 de outubro de 2013

Sinestesia

Ilustração de Miyuki Sakai


...um cheiro doce e quente e redondo...

Afonso Cruz, in Para onde vão os guarda-chuvas, Alfaguara, 2013, p. 81

20 de outubro de 2013

Silêncio pela boca

Ilustração de Nicona

Fazal Elahi pensava no equilíbrio do mundo, que era uma equação extremamente desequilibrada, mas que, apesar disso, exigia uma espécie de harmonia. Se um homem fala, entra-lhe silêncio pela boca...


Afonso Cruz, in Para onde vão os guarda-chuvas, Alfaguara, 2013, pp. 86-87

19 de outubro de 2013

O sábio e a fome

Ilustração de Helmut Dohle

Sábio - É então isto a fome...Que coisa estranha, não é nada parecido com o que vem nos livros...

Manuel António Pina, in História do sábio fechado na sua biblioteca, Assírio & Alvim, 2009, p. 30

18 de outubro de 2013

Compaixão

Ilustração de Patrice Barton
Nunca antes tinha tocado a mão de outro homem. A mão do homem apertou a mão do Sábio com toda a força, e o Sábio sentiu uma impressão estranha no coração, como se o seu coração tivesse ficado de repente mais pequeno. E então recordou que lera há muito tempo, num velho livro, algo sobre um sentimento confuso e angustiante, chamado compaixão, e percebeu que o seu coração estava cheio de compaixão. Apertou também ele a mão do homem e disse-lhe:

SÁBIO – Tem coragem. Conheço todos os segredos da Medicina e tentarei minorar o teu sofrimento. 

Manuel António Pina, in História do sábio fechado na sua biblioteca, Assírio & Alvim, 2009, p. 34

17 de outubro de 2013

A fome nos livros

Ilustração de Enoki Toshiyuki

O Sábio estremeceu. Nos seus livros, fechado na sua Biblioteca, tinha muitas vezes lido coisas sobre a fome. Mas nunca tinha sentido fome. E agora, de repente, tudo o que aprendera nos livros parecia-lhe pouco.

Manuel António Pina, in História do sábio fechado na sua biblioteca, Assírio & Alvim, 2009, p. 26

16 de outubro de 2013

Da biblioteca para a vida

Ilustração de Olimpia Zagnoli

Como eu gostaria de sair da minha Biblioteca, mas, para isso, teria que sair de mim, porque eu próprio sou a Biblioteca. Como ela, não estou vivo nem estou morto, estou fechado dentro de mim como num labirinto ou como se fosse um livro antigo escrito numa língua desconhecida, que ninguém, nem mesmo a Morte é capaz de ler.


Manuel António Pina, in História do sábio fechado na sua biblioteca, Assírio & Alvim, 2009, p. 25

15 de outubro de 2013

Floração

Ilustração de Rene Rickabaugh

A floração é o símbolo do mistério do nosso espírito.

in Fragmentos de Novalis (seleção, tradução e desenhos de Rui Chafes), 


Assírio & Alvim, 2000, 2ª ed., p.115




14 de outubro de 2013

Ser e conhecer

Ilustração de Rene Rickabaugh

Onde existe um ser deve existir também um conhecer.

in Fragmentos de Novalis (seleção, tradução e desenhos de Rui Chafes), 


Assírio & Alvim, 2000, 2ª ed., p.21



13 de outubro de 2013

Escrevo pela paixão de te inventar de um nada




Escrevo pela paixão de te inventar de um nada,
um filamento apenas e logo outro sinal,
um tecido febril e temos um cavalo
inteiro com o som e a exactidão do nome.

Não sei a tua cor, mas tens em ti o campo,
a liberdade e a força que experimento em ti.
Para onde vais, cavalo, tão veloz, violento
ou na paz do teu trote, sem sela e livre, livre!


Percorro esta terra como um seio amoroso,
corres já no meu corpo com a vida do fogo,
tua paixão me cega e me ilumina a terra.

És tu que me crias com as palavras justas
que da tua elegância e ritmo se libertam
e me erguem a uma vida pura e vertical.


António Ramos Rosa, Ciclo do Cavalo, in A Palavra e o Lugar, D. Quixote