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31 de janeiro de 2015

Vento de primavera

Ilustração de Tititi


Vento de primavera na costa:

As lapas agarram-se às rochas.

As gaivotas agarram-se ao vento

(Masamitsu Ito, Haikus)

Afonso Cruz, in Enciclopédia da Estória Universal - Mar, Alfaguara, 2014, 1ª ed., p. 176

19 de março de 2014

Inverno

 
Ilustração de Victoria Ball


Este Inverno é longo gélido
E confuso
Na varanda só o vento passa
E o vento olha-nos de esguelha quando passa

Nenhum poema aflora
Entre as linhas finas e aéreas
Da página em branco

                              Inverno de 1999

Sophia de Mello Breyner Andresen, Poemas dispersos, in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 878

Tudo é efémero

Ilustração de Ulrike Baier


Tudo é efémero:

ontem escutava a tua voz

hoje só o vento



Tolentino Mendonça, in A papoila e o monge

Assírio&Alvim, 2013, p. 142

26 de janeiro de 2014

São tristes as aves

Ilustração de Julia Icenogle

São tristes as aves que viajam na
memória do vento, tristes os olhos
que se demoram no gargalo de um
poço. E eu sou triste de não saber

que nome te pôs a morte quando
ontem te deitou na sua cama, e te
soprou nos cabelos o seu hálito frio,

e te embalou às escuras com uma
canção de vidro em que as aves se
enamoravam das próprias sombras

e, procurando-se em vão nas águas
turvas de um poço, não sabiam que
apenas mergulhavam lentamente, muito
lentamente, na memória do vento.


Maria do Rosário Pedreira, in Poesia Reunida, Quetzal poesia, 2012, 1ª ed., p. 207

25 de junho de 2013

Instituto das Pessoas Normais



Por vezes, fico alguns minutos a abanar-me
ao vento, como fazem as flores.

O que pensariam os senhores do Instituto
das Pessoas Normais se me vissem nesses momentos?

Afonso Cruz, "25 de Junho" in O Livro do ano

23 de junho de 2013

Abanar o vento

Ilustração de Dilka Bear

Na praça há uma senhora que vive das flores.
Apanha-as e vende-as. É muito triste que elas
não saibam fugir.

Ilustração de Paul Cartwright
Tenho pena de as arrancar àquela maneira
que elas têm de viver; a abanar ao vento.
Ou talvez seja ao contrário:a abanar o vento.

Afonso Cruz, "23 de Junho" in O Livro do ano

1 de dezembro de 2012

O valor do vento

Ilustração de Alain Bailhache
 
Está hoje um dia de vento e eu gosto do vento
O vento tem entrado nos meus versos de todas as maneiras e
só entram nos meus versos as coisas de que gosto
O vento das árvores o vento dos cabelos
o vento do inverno o vento do verão
O vento é o melhor veículo que conheço
Só ele traz o perfume das flores só ele traz
a música que jaz à beira-mar em agosto
Mas só hoje soube o verdadeiro valor do vento
O vento actualmente vale oitenta escudos
Partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto

Ruy Belo, in Todos os Poemas

31 de julho de 2012

Se o vento vier

 
Ilustração de Noriko Senshu



De repente, sem saber por onde entrara, eu tinha a lua comigo. Não era a primeira vez, não, não era. A primeira vez havia sido há muitos anos: adormecera na eira sobre o feno, e quando acordei a lua estava a meu lado e fizera da noite um interminável e azul lago de prata. Eu flutuava no luar espesso, pesava menos que uma folha de papel. Todo o esforço que fazia era para não me desprender do solo, como se a acção da gravidade não me dissesse respeito, e flutuar no espaço fosse a minha vocação. Se o vento vier, não tenho mais remédio que abandonar-me e ver até onde me levam os seus espíritos.

Eugénio de Andrade, in Vertentes do olhar