Número total de visualizações de página

Mostrar mensagens com a etiqueta público. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta público. Mostrar todas as mensagens

12 de fevereiro de 2015

Scanners corporais e privacidade

O achatamento da realidade significa que cada vez mas raramente se vê o que se olha. Ver é tornar visível o que se esquiva a uma apropriação visual. A poluição visual tende a provocar uma cegueira, da mesma forma que a poluição sonora tende a provocar a surdez. Por outro lado, olhamos à nossa volta e o que vemos é que acabamos por ser comidos por esse olho devorador que, através de circuitos de videovigilância, nos espia, à socapa. Em qualquer shopping ou esquina da rua: "Sorria, está a ser filmado".(...) 

Ilustração de Diane Duda

O Parlamento  Europeu tem debatido, de forma acalorada, o uso de scanners corporais de raios X nos aeroportos. O projecto não é pacífico, pois as mais ocultas intimidades dos passageiros ficarão expostas a usos indevidos. (...) O uso dos scanners permitiria enfrentar as bichas dos aeroportos mas, em contrapartida, nos arquivos dessas máquinas ficariam cópias de imagens explícitas dos nossos órgãos genitais e detalhes médicos íntimos, como implantes mamários ou bolsas de colostomia. 


José Machado Pais, in Lufa-lufa quotidiana, Ensaios sobre cidade, cultura e vida urbana
Imprensa de Ciências Sociais, col. Breve Sociologia, 2010, 1ª ed. p.36

4 de novembro de 2014

Privacidade

O que é o privado nos nossos dias? 


Uma das involuntárias consequências da revolução informática é ter volatilizado as fronteiras que o separavam do público e ter confundido ambos num happening em que todos somos ao mesmo tempo espectadores e atores, no qual nos mostramos reciprocamente exibindo a nossa vida privada e nos divertimos observando a alheia, num strip tease generalizado em que nada já ficou a salvo da mórbida curiosidade de um público depravado pela idiotice.



Ilustração de Daria Petrilli

O desaparecimento do privado, o facto de ninguém respeitar a intimidade alheia, ela ter-se convertido numa paródia que excita o interesse geral e haver uma indústria informativa que alimenta sem tréguas e sem limites esse voyeurismo universal, é uma manifestação de barbárie. Pois com o desaparecimento do domínio do privado muitas das melhores criações e funções do humano deterioram-se e aviltam-se, começando por tudo aquilo que está subordinado ao cuidado de certas formas, como o erotismo, o amor, a amizade, o pudor, as maneiras, a criação artística, o sagrado e a moral.

Mario Vargas Llosa (2012), in A civilização do espetáculo, Quetzal, pp. 150-151