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4 de outubro de 2014

A respiração dos bosques

Ilustração de Teagan White


A respiração dos bosques tinha algo de feminino, espraiando-se lânguida sobre os campos. Os murmúrios de pássaros e folhagens eram suaves promessas incumpridas roçagando na pele e o som da água nas levadas era um riso cristalino de mulher.



Miguel Miranda, in A paixão de K, Porto Editora, 2013, 1ª ed., p. 133


19 de dezembro de 2012

Nudez especial

Ilustração de Annette Mangseth

 As mulheres sentem uma nudez especial  na cabeça ensaboada.

Lídia Jorge, "António", in Marido e outros contos, Dom Quixote

17 de outubro de 2012

A mulher na poesia de Cesário Verde


Degas, Repasseuses
A poesia de Cesário apresenta dois tipos opostos de mulher: a mulher esplêndida, madura, destrutiva e essencialmente frígida, associada com a cidade e com o Norte, e a jovem simples, terna e vulnerável, associada com o campo ou com os valores opostos à cidade. (...)

O erotismo citadino expresso em imagens que são a antítese da caracterização do amor, desconfinado possível no campo, o momento intemporal do mar sem praias, é um erotismo de humilhação que reduz o amante à condição de servo ou presa fascinada, criando uma reacção sado-masoquista entre a mulher, que personifica o artifício da cidade, e a sua complacente vítima.
(...)

Em contraste com a mulher depredatória identificada com a cidade, “A débil” representa um tipo feminino que é o oposto complementar das esplêndidas, frígidas, fulgurantes e desdenhosas aristocratas emblemáticas da síndroma erótica de humilhação. “A débil” do título do poema (...) está na cidade, mas não lhe pertence, passa por ela como uma personificação das qualidades que lhe são diametralmente opostas.

Inspira no poeta o desejo de protegê-la e de estimá-la, não o desejo perverso de se prostrar a seus pés.

Hélder Macedo, in "Nós" - Uma leitura de Cesário Verde