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17 de fevereiro de 2015

Doutor, eu?


Ilustração de Sergey Ivchenko

- Você é mesmo tanso. Estava a gozar consigo. Na minha arte até posso ser considerado um catedrático da investigação criminal. Mas não sou doutor nenhum. Corte lá essa palermice do doutor e diga ao que vem.


Miguel Miranda, in Dai-lhes, Senhor, o eterno repousoPorto Editora, 2011, 1ª ed., p. 20

Doutores

Ilustração de Annie Stegg
Há uma espécie característica de gente que faz questão em se fazer anunciar por "doutor" isto ou aquilo. Destes autoproclamados "doutores", alguns ainda não acabaram curso nenhum, outros tiraram uma licenciatura crepuscular em algum instituto de vão de escada, apenas para obrigarem os outros a tratarem-nos por doutores. O homem que estava perante mim fazia parte dos seguidores dessa seita do culto da aparência. Só para verificar a sua lealdade à seita, perguntei:

- Então você é o Brandão?

O homem, outrora céreo, ganhou cor no rosto, de raiva incontida, e proferiu, martelando as sílabas:

- Doutor. Doutor Brandão. 

Ilustração de Dilka Bear

(...)
- Doutor será, quando acabar o curso. Sente-se.


Ele obedeceu, siderado. Derrubou os ombros, como se lhe tivesse caído um prédio em cima. 








Miguel Miranda, in Dai-lhes, Senhor, o eterno repousoPorto Editora, 2011, 1ª ed., p. 19




13 de fevereiro de 2015

Porque

Ilustração de Elena Trupak


Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.


Sophia de Mello Breyner Andresen, in Mar Novo,  Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 341

5 de fevereiro de 2015

Máscaras sociais


Ilustração de Magalie Bucher 

...a cortesia [aparece] como máscara de uma indiferença que Goffman (...) identificava como "desatenção cortês": de sorrisos falsos, de palavras de circunstância, de "obrigados" que nada obrigam, enfim, de uma teatralização que tem levado a que a cidade seja lida como um palco de representações, fazendo o esplendor das análises dramaturgas da vida quotidiana.


José Machado Pais, in Lufa-lufa quotidiana, Ensaios sobre cidade, cultura e vida urbana, Imprensa de Ciências Sociais, col. Breve Sociologia, 2010, 1ª ed. p. 28