Número total de visualizações de página

Mostrar mensagens com a etiqueta fotografia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta fotografia. Mostrar todas as mensagens

10 de outubro de 2014

Fotografia branca

Ilustração de Patrícia Metola


Vejo esta situação, com a nitidez do fotógrafo:
a cabeça pousada na mão direita, um cigarro
preso aos dedos, o olhar perdido em quase
nada. Invento a imagem que se forma
na tua cabeça, a partir desse nada: uma
nuvem; e por dentro dessa nuvem, todas
as formas do sonho. Porém, o céu não
te perturba o pensamento; nem os ventos
que trazem e levam as nuvens, como
barcos, no oceano da tua memória. E
volto à situação inicial: tu, sentada à
mesa, para que eu te pudesse fixar
com a nitidez do fotógrafo, olhas-me,
como se eu estivesse à tua frente; e
o teu olhar apaga o tempo e a distância,
desfocando a imagem, como se o fumo
do cigarro te envolvesse o rosto, e
te trouxesse de volta a mim, como
nuvem, ou sonho, que o vento dissipa.


Nuno Júdice, in As coisas mais simples, D. Quixote, 2007, 2ª ed.,p. 27

18 de agosto de 2013

Trepidação


Ilustração de Veronika Marosy


Saímos do comboio:
A fotografia, afinal,
não estava tremida.

Hiro Yamaguchi


Afonso Cruz, in Enciclopédia da Estória Universal - Recolha de Alexandria, Alfaguara, 2012, 1ª ed., p. 101

30 de julho de 2013

Fotografia de Camille Claudel no hospício


Ilustração de May Ann Licudine

Os olhos perdidos num pedaço de parede, procura
um outro ponto em que os fixar: e volta-os 
para dentro de si, onde outras pessoas arruinadas
a impedem de ver o que está do outro lado, para
além do campo e do céu. Mas se erguesse os olhos
para o tecto, de estuque aberto para as telhas, fios
de luz dar-lhe-iam um vislumbre do mundo a que
não pode aceder, e bastar-lhe-ia um pouco de
sonho para encontrar esse vazio a que aspira,
ou apenas o último ângulo entre infinito
e eternidade. Porém, o rosto não se desvia, e
as mãos pousadas no casaco esburacado pela
traça tremem, como se procurasse moldar um
corpo antigo com o barro seco da ausência.


Nuno Júdice, in Fórmulas de uma luz inexplicável

21 de julho de 2013

Entre fotografia e poema


Ilustração de Sonia Maria Luce Possentini


Neste esboço há aquele segmento
do teu rosto, quase a preto e branco, que sai da sombra
do táxi; mas faltam as mãos (e sem elas o retrato
não fica completo). Na realidade, o corpo
parece fragmentado quando o capturamos
de surpresa, sem saber o que irá
surgir depois do flash. E poderia
desenhar-se um cenário puramente abstracto,
com um fundo de azulejo a dar um tom
clássico à imagem, ou apenas o branco da parede,
e neste caso haveria uma contraluz que só deixaria
à vista o teu perfil. Porém, quando olho
o teu retrato, vejo nele
uma presença que posso sentir, e me fala
como se estivesses comigo, fazendo-me
ouvir a cor da tua voz. E é como se saísses de dentro
desta imagem que é pura forma, instante
que a palavra reduz à sua duração, gesto
imóvel num desvio do olhar
para o poema.

                                     Nuno Júdice, in Fórmulas de uma luz inexplicável, D. Quixote, 2012, 2ª ed., p. 43