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25 de fevereiro de 2015

A era do numérico

Entrámos na época do império numérico. Tudo se conta. Do dinheiro aos segundos, dos metros aos quilogramas, das calorias aos cafés bebidos diariamente. 


José Machado Pais, in Lufa-lufa quotidiana, 
Ensaios sobre cidade, cultura e vida urbana
Imprensa de Ciências Sociais, col. Breve Sociologia, 2010, 1ª ed., p. 58

Ilustração de Delphine Doreau


18 de março de 2014

Arte poética

Ilustração de Kazu Nitta

Num romance, uma chávena é apenas
uma chávena — que pode derramar
café sobre um poema, se o poeta,
bem entendido, for a personagem.

Num poema, mesmo manchado
de café, a chávena é certamente a
concha de uma mão — por onde eu
bebo o mundo em maravilha, se tu,
bem entendido, fores o poeta.

No nosso romance, não sou sempre
eu quem leva as chávenas para a mesa
a que nos sentamos à noite, de mãos
dadas, a dizer que a lata do café chegou
ao fim, mas a pensar que a vida é
que já vai bastante adiantada para os
livros todos que ainda pensamos ler.

No meu poema, não precisamos de café
para nos mantermos acordados: a minha
boca está sempre na concha da tua mão,
todos os dias há páginas nos teus olhos,
escreve-se a vida sem nunca envelhecermos.

Maria do Rosário Pedreira, in Poesia Reunida, Quetzal poesia, 2012, 1ª ed., p. 235



2 de dezembro de 2013

A página branca

Ilustração de Ophelia Redpath

Havia uma vez, naquela cidade de província
onde joguei bilhar no intervalo de ver chegarem
e partirem as traineiras, uma jovem mulher
que se sentava na mesa mais triste do café,
e olhava em frente, sem que os seus olhos
mudassem de expressão. Todos os dias era 
assim, e dela só fiquei a saber que ninguém
a conhecia. Na mesa, o mesmo livro com o mesmo
marcador que nunca saía da mesma página,
e que ela nunca abria como se não quisesse saber
como a história acabava. Naquele café, tiraram
o bilhar; naquela cidade já não há traineiras
a chegar e a partir; mas quando olho para
a mesa do canto onde a jovem mulher se
sentava, penso sempre na história que ficou
a meio, sem que eu saiba como acabou.

Nuno Júdice, in Navegação de acaso, D. Quixote, 2013, p. 32 

5 de julho de 2012

A espuma do café

Ilustração de Moony Khoa Le










Quando penso na existência de deus,
preciso de um café. Porém, tal como,
ao encher a chávena, sei que o café existe
por baixo da espuma, mesmo que
o não veja, também devia acreditar
que, por trás das nuvens, existe o deus em que
não acredito porque não o consigo ver. E ao
ligar um argumento ao outro, começo a perceber que não
há qualquer razão para não acreditar em deus, tal
como não tenho nenhuma razão para não acreditar 
no café cujo calor sinto na chávena, quando a aperto
para me aquecer, enquanto a espuma se não desfaz. E
poderia se este o motivo por que, ao olhar para o céu,
devia ter a mesma sensação de quem só espera que
as nuvens passem para ver esse deus
que elas escondiam. No entanto,
a verdade que me impediu de voltar a acreditar
na existência de deus foi que tive de beber
o café já frio, depois do tempo em que esperei
que a espuma se desfizesse para acreditar
que havia café na chávena, e um deus
no céu.


Nuno Júdice, "Nova suma teológica", in Fórmulas de uma luz inexplicável

29 de junho de 2012

Lusofonia

rapariga: s.f., fem. de rapaz; mulher nova; moça; menina; (Brasil), meretriz.
Ilustração de Lucie Crovatto


Escrevo um poema sobre a rapariga que está sentada

no café, em frente da chávena do café, enquanto
alisa os cabelos com a mão. Mas não posso escrever este
poema sobre essa rapariga porque, no brasil, a palavra
rapariga não quer dizer o que ela diz em portugal. Então,
terei de escrever a mulher nova do café, a jovem do café,
a menina do café, para que a reputação da pobre rapariga
que alisa os cabelos com a mão, num café de lisboa, não
fique estragada para sempre quando este poema atravessar
o atlântico para desembarcar no rio de janeiro. E isto tudo
sem pensar em áfrica, porque aí lá terei
de escrever sobre a moça do café, para
evitar o tom demasiado continental da rapariga, que é
uma palavra que já me está a pôr com dores
de cabeça até porque, no fundo, a única coisa que eu queria
era escrever um poema sobre a rapariga
do café. A solução, então, e mudar de café, e limitar-me a
escrever um poema sobre aquele café onde nenhuma rapariga se
pode sentar à mesa porque só servem cafés ao balcão.
 


Nuno Júdice, in A Matéria do Poema