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10 de outubro de 2014

Fotografia branca

Ilustração de Patrícia Metola


Vejo esta situação, com a nitidez do fotógrafo:
a cabeça pousada na mão direita, um cigarro
preso aos dedos, o olhar perdido em quase
nada. Invento a imagem que se forma
na tua cabeça, a partir desse nada: uma
nuvem; e por dentro dessa nuvem, todas
as formas do sonho. Porém, o céu não
te perturba o pensamento; nem os ventos
que trazem e levam as nuvens, como
barcos, no oceano da tua memória. E
volto à situação inicial: tu, sentada à
mesa, para que eu te pudesse fixar
com a nitidez do fotógrafo, olhas-me,
como se eu estivesse à tua frente; e
o teu olhar apaga o tempo e a distância,
desfocando a imagem, como se o fumo
do cigarro te envolvesse o rosto, e
te trouxesse de volta a mim, como
nuvem, ou sonho, que o vento dissipa.


Nuno Júdice, in As coisas mais simples, D. Quixote, 2007, 2ª ed.,p. 27

1 de março de 2014

Coincidência

Ilustração de Roel Obemio
Uma vez, na rua, cruzei-me com um apanhador
de conchas. Tinha os olhos feridos pelo sal, as mãos
abertas pelo ácido das marés, os lábios gretados
por versos inacabados. Recitou-me fórmulas
do campo; anunciou-me a verdade de antigas
profecias. Olhei para cima: e o céu continuava
azul, como se nada se passasse. Mas ele
abriu o cesto das conchas; e um movimento
de caranguejos mostrou-me o fundo da
existência. Talvez eu estivesse a falar
com um morto; ou as suas palavras me
distraíssem do verdadeiro significado
das coisas."Para que serve a poesia,
afinal"? E continuou o seu caminho,
para que eu seguisse o meu, como
se nunca nos tivéssemos encontrado.


Nuno Júdice, in As coisas mais simples, Dom Quixote, 2007, 2ª ed., p. 26

21 de maio de 2013

O que é a vida?

Ilustração de Gentiane Magnan

O poeta grego que comparou o homem às folhas que não duram,
quando o inverno lhes roubou a esperança de viver de acordo com
os seus desejos, não saiu esta tarde para o campo, nem viu o
corpo que se interpôs entre o sol e os arbustos, ofuscando
o céu com a sua brancura de nuvem primaveril. Perguntou,
no entanto, de que serve a vida, e para que serve a alegria,
se não existe, para além delas, o horizonte dourado do amor;
e afastou da sua frente o crepúsculo, dizendo que preferia
a madrugada, logo que o galo canta, para despertar com
o próprio dia. Esse poeta, que o pó dos séculos sepultou,
e não chegou a encontrar qualquer resposta para as suas
dúvidas, aconselhou os que o liam a que se divertissem,
antes que a morte os surpreendesse. E lembro-me, por
vezes, deste pedido, ao pensar que a memória de alguém
se pode limitar a uma pequena frase, nem que seja a mais
banal das sentenças, que nos vem à cabeça numa ou noutra
circunstância. Então, o poeta grego continua vivo; e esta
tarde, por trás dos arbustos, ouvi a sua voz no vento que
por instantes soprou, trazendo com a sua frescura o sentimento
que sobrevive a todas as estações de uma vida humana.

Nuno Júdice, in As Coisas Mais Simples,D. Quixote, 2ªed., p. 67

18 de maio de 2013

Noite e dia

Ilustração de Kim Amate

E então a noite caiu, para que não se falasse
do cair da noite. A noite caiu tão fria como as
últimas noites que caíram, neste princípio de
Inverno, e ninguém pôs um colchão por baixo
dela para que a noite não se magoasse, ao cair.
A noite limitou-se a cair, e com ela caiu o céu
sem lua, com todas as estrelas do universo a
caírem com ela. Só os olhos não caíram, porque
para verem o céu e as estrelas que o enchiam
tiveram de se levantar. E foi preciso falar
do cair da noite para que os olhos tomassem
a direcção do céu, e descobrissem tudo o que
havia no céu sem lua. «Deixem cair a noite»,
disse alguém. E logo alguém pediu que o
dia se levantasse, como se uma coisa estivesse
ligada a outra. Então, o dia levantou-se da
noite que caiu; e a noite caiu sobre o dia
que se levantava, para que a sua queda fosse
amparada pelo colchão do dia, e as estrelas
tivessem onde pousar, à medida que caíam.

Nuno Júdice, in As coisas mais simples

15 de abril de 2013

Domingo em casa


Ilustrações de Sun Haeng Heo



Amanhã podia ser domingo, e

não haver sol; podia ouvir os sinos e

dizer que era apenas uma ilusão; podia

descer a rua e não encontrar o homem

que vende os jornais; podia chegar

ao largo e não ver as mulheres

em grupo a caminho da igreja, onde

vai começar a missa.



Amanhã podia ser domingo,

e as ruas estarem vazias como se

não houvesse nada para fazer; podia não

ser domingo e todas as lojas

fecharem, podia não

ser domingo e alguém perguntar

o que é que se faz quando não

é domingo.



Amanhã podia ser um dia qualquer,

e não saber em que dia estou; podia

olhar para o relógio e descobrir que

os ponteiros estão parados, podia

ouvir alguém falar, e não saber de onde


vem a voz que sai da sua boca, como

se estivesse sozinho.



Ou então, podia abrir a porta e

ver que o domingo quer entrar; e

puxá-lo para dentro da casa, para


que lá fora fique sem domingo; e

sair para a rua num dia qualquer,

perguntando a quem passa

se viu passar o domingo.

Nuno Júdice, in As coisas mais simples