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13 de outubro de 2013

Escrevo pela paixão de te inventar de um nada




Escrevo pela paixão de te inventar de um nada,
um filamento apenas e logo outro sinal,
um tecido febril e temos um cavalo
inteiro com o som e a exactidão do nome.

Não sei a tua cor, mas tens em ti o campo,
a liberdade e a força que experimento em ti.
Para onde vais, cavalo, tão veloz, violento
ou na paz do teu trote, sem sela e livre, livre!


Percorro esta terra como um seio amoroso,
corres já no meu corpo com a vida do fogo,
tua paixão me cega e me ilumina a terra.

És tu que me crias com as palavras justas
que da tua elegância e ritmo se libertam
e me erguem a uma vida pura e vertical.


António Ramos Rosa, Ciclo do Cavalo, in A Palavra e o Lugar, D. Quixote


25 de setembro de 2013

A infinita potencialidade da linguagem

O verbo é o senhor absoluto: as forças condutoras do poema já não obedecem às relações gramaticais, mas condensam em si as múltiplas virtualidades significativas. 





Ilustrações de Vesa Sammalisto

A palavra desvincula-se assim de todo o preciso significado para passar a ser apenas a expressão do silêncio e do nada, uma pura vibração. Mas mesmo aqui a significação não foi anulada. O que desapareceu foi a univocidade significativa que passou a ser substituída pela "infinita potencialidade da linguagem".

António Ramos Rosa, in Poesia, Liberdade Livre, Liv. Moraes Editores, 1962

24 de setembro de 2013

Poesia e humanização







Ilustrações de Lauren Mills



A poesia é para o poeta e para quantos o acompanham o modo mais imediato de se humanizar, de ser imaginariamente e realmente esse outro que somos e não somos e para o qual, homens e poetas, tendemos todos os nossos esforços.




António Ramos Rosa, in Poesia, Liberdade Livre, Liv. Moraes Editores, 1962





24 de fevereiro de 2013

Não posso adiar o amor

Ilustração de Lauraballa

Não posso adiar o amor para outro século 
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não, não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o rneu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração

António Ramos Rosa

23 de fevereiro de 2013

Poema dum funcionário cansado


A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
Ilustração de Csil Cb

estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só

Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Porque não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Porque me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço?

Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música

Ilustração de Kai Pannen








São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida 

isto todas as noites do mundo numa só noite comprida
num quarto só.

António Ramos Rosa, O Grito Claro, 1958

23 de abril de 2012

Poesia discreta

Ilustração de Kaatje Vermeire
Onde a poesia se exibe como um espectáculo espectacular
não é poesia
onde a audácia do poema não é única
não é poesia
onde a poesia não é inocência de natureza fluvial
não é poesia
onde a poesia não é escandalosamente pura
não é poesia
onde a poesia não é filha do deserto nem da sede
não é poesia
onde a poesia não é presença viva que nasce da solidão e da ausência
não é poesia
onde a poesia não se oferece no seu abandono
não é poesia
onde a poesia não é poesia
não é poesia
António Ramos Rosa, in O Sol é Todo o Espaço, 2002

27 de fevereiro de 2012

Perde-se com a idade um não sei quê


Perde-se com a idade um não sei quê
que era talvez sombra e sabor e até tristeza
e assim temos outra paz de inclinação 
em clareiras limpas tocadas de algum eco
melancólico e lúcido. E quase sem ilusão
entregamo-nos ao âmbito de uma paz
que é a medida do mundo quando nada
se nos oferece senão o habitar
Ilustrações de Sam Hyuen Kim
aquelas horas de um universo que
é no silêncio glória obscura e transparente
Assim nos inebriamos também da madurez
procurando a inocente incandescência
do tempo quando ilumina as clareiras
e é como se nada ainda fosse passado
na onda lenta que ascende sobre o peito
e que desperta um vago núcleo que inicia

António Ramos Rosa, in O Livro da Ignorância, 1988

26 de fevereiro de 2012

Arte poética


Ilustração de Dennis Wojkiewicz

Se o poema não serve para dar o nome às coisas
outro nome e ao seu silêncio outro silêncio,
se não serve para abrir o dia
em duas metades como dois dias resplandecentes
e para dizer o que cada um quer e precisa
ou o que a si mesmo nunca disse.

Se o poema não serve para que o amigo ou a amiga
entrem nele como numa ampla esplanada
e se sentem a conversar longamente com um copo de vinho na mão
sobre as raízes do tempo ou o sabor da coragem
ou como tarda a chegar o tempo frio.


Ilustração de Duy Huynh


Se o poema não serve para tirar o sono a um canalha
ou ajudar a dormir o inocente
se é inútil para o desejo e o assombro,
para a memória e para o esquecimento.


Se o poema não serve para tornar quem o lê
num fanático
que o poeta então se cale.

                                                                         António Ramos Rosa, in Sílex, 1980

25 de fevereiro de 2012

Para um amigo tenho sempre um relógio


Ilustração de Aki
Para um amigo tenho sempre um relógio
esquecido em qualquer fundo de algibeira.
Mas esse relógio não marca o tempo inútil.
São restos de tabaco e de ternura rápida.
É um arco-íris de sombra, quente e trémulo.
É um copo de vinho com o meu sangue e o sol.

António Ramos Rosa, in Viagem através duma Nebulosa, 1960

A festa do silêncio

Ilustração de Gabriela Herrera

Escuto na palavra a festa do silêncio.
Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se.
As coisas vacilam tão próximas de si mesmas.
Concentram-se, dilatam-se as ondas silenciosas.
É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma.




Uma criança brinca nas dunas, o tempo acaricia,
o ar prolonga. A brancura é o caminho.
Surpresa e não supresa: a simples respiração.
Relações, variações, nada mais. Nada se cria.
Vamos e vimos. Algo inunda, incendeia, recomeça.

Ilustração de Alexander Grishkevich


Nada é inacessível no silêncio ou no poema.
É aqui a abóbada transparente, o vento principia.
No centro do dia há uma fonte de água clara.
Se digo árvore a árvore em mim respira.
Vivo na delícia nua da inocência aberta.



António Ramos Rosa, in Volante Verde