Número total de visualizações de página

Mostrar mensagens com a etiqueta Ana Teresa Pereira. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Ana Teresa Pereira. Mostrar todas as mensagens

26 de janeiro de 2015

Velhos livros e ninguém

Era uma porta estreita, ao lado de uma montra onde se amontoavam livros em segunda mão, numa grande desordem. Do outro lado uma sala comprida e escura, enormes prateleiras que cobriam inteiramente as paredes. Velhos livros e ninguém. Nunca vira uma pessoa lá dentro. Cliente ou empregado. Aquela porta aberta, a penumbra da sala, de que não se via o fundo, lembravam vagamente uma armadilha.

Ilustração de Santiago Caruso
        
                Ana Teresa Pereira, "A rapariga da Pont Neuf", in As velas da noite, Relógio d'Água, 2014, p. 35

25 de janeiro de 2015

A livraria do Pont Neuf

Ilustração de Wonil Suh


Àquela hora havia uma ou outra espelunca ainda aberta, o que não tinha nada de surpreendente. O que a intrigava era a livraria, a porta enigmaticamente aberta da livraria.

Ana Teresa Pereira, "A rapariga da Pont Neuf", in As velas da noite, Relógio d'Água, 2014, p. 35

24 de janeiro de 2015

As velas da noite II

Ilustração de Pinwheel Bunny


A certa altura levantou-se e aproximou-se do quadro. A casa tornara-se ainda mais acolhedora, todos nós precisamos de um lugar tranquilo. Puxou uma cadeira e subiu para ela, levando consigo o candeeiro. Aproximou-o o mais possível do quadro. Sim, aqueles pontos mais claros eram estrelas. Havia mesmo estrelas no lugar onde ele estava. As abençoadas velas da noite.


Ana Teresa Pereira, "As velas da noite", in As velas da noite, Relógio d'Água, 2014, p. 54

As velas da noite I

Ilustração de Pinwheel Bunny 



E não há estrelas? perguntara Emma.
Sim, há estrelas.
As velas da noite.
O motivo por que as sete estrelas não são mais do que sete...Porque não são oito.

Ana Teresa Pereira, "As velas da noite", in As velas da noite, Relógio d'Água, 2014, p. 52

23 de janeiro de 2015

Um pouco como dançar...



Ilustração de Sonia MariaLuce Possentini


Um pouco como dançar, um pouco como fazer de conta...isso era representar. 


Ana Teresa Pereira, "If I should wake before I die", in As velas da noite, Relógio d'Água, 2014, p. 43

22 de janeiro de 2015

Dança...

Ilustração de Yao Xiong -Y. Nana


Não era difícil acreditar em contos de fadas. Cathy estava habituada a um palco, desde os cinco anos que estudava Dança, e o palco agora era uma velha casa, um longo jardim, um lago de águas imóveis. Antes de ela aparecer no filme, via-se o seu reflexo na água. E quase no final dançava sozinha no pavilhão junto ao lago, ao som da melodia da caixa de música, Oh, Willow Waly.



Ana Teresa Pereira, "If I should wake before I die", in As velas da noite, Relógio d'Água, 2014, p. 43

7 de novembro de 2013

Como uma princesa...

Parece que estamos num conto dos irmãos Grimm, disse Rebecca.
O pai afastou os olhos do caminho e sorriu-lhe.
Se fosse um conto dos irmãos Grimm...
Sim.
Tu estavas na casa, no final da alameda.
Como uma princesa.
Tu és uma princesa.

Ilustração de ariana Kalacheva
Desde muito cedo que ele lhe chamava a sua princesinha. Já não era novo quando ela nascera, e a morte da mulher algum tempo depois deixara-os sozinhos. A velha casa era o seu castelo, um castelo um pouco arruinado, com cortinados de veludo a que o tempo suavizara as cores, móveis e quadros que por vezes desapareciam misteriosamente, um longo jardim onde um único jardineiro se esforçava por manter algumas plantas, as azáleas debaixo das janelas, os rododendros nas alamedas, os nenúfares nos tanques, as campânulas brancas e os narcisos no relvado.

Ana Teresa Pereira, in O verão selvagem dos teus olhos, Relógio d'Água, 2008, 1ª ed., pp. 17-18

5 de novembro de 2013

Um silêncio cheio de pássaros

Pairava naquele lugar um silêncio cheio de pássaros.

Ana Teresa Pereira, in O verão selvagem dos teus olhos, Relógio d'Água, 2008, 1ª ed., p. 17


Ilustração de Debi Hubbs






27 de outubro de 2013

Deserto

Ilustração de Andreas M. Wiese

Parou o automóvel na rua deserta.
As casas dissimuladas pelos jardins, a folhagem muito escura, as flores brancas, amarelas, cor-de-rosa. E um leve perfume que se insinuava como uma neblina.
Pássaros.
O mar cheio de vento.
E as ilhas, cinzentas, ao longe.
As ilhas que sempre tinham feito parte do cenário.
Um cenário de cartão pintado.
Patrícia encostou a face ao volante.
"Estou de volta."
Riu baixinho.
Para dissimular o medo.
Medo de ficar fechada.
"Se alguém fechar os cortinados..."
Cortinados espessos, de veludo.
Mas aquela sensação de claustrofobia, trouxera-a consigo. De espaços abertos, de outras cidades.
Como se tivesse estado numa cela. Ou num deserto.

Ana Teresa Pereira, in Num lugar solitário, Relógio d'Água, 2012, II Parte, Cap.º 1, p. 53




Num lugar solitário

Num lugar solitário, de Ana Teresa Pereira, é a história de um homem e uma mulher que se encontram e dialogam num espaço fechado, supostamente um consultório, no qual ela é clínica - psicóloga ou psicanalista - e ele cliente. 
O conhecimento deles torna-se mútuo num jogo entre ambos, até que chegam a ser o duplo um do outro. 
Além disso, Tom vê em Pat (Patrícia) a sua irmã, Isabel, com a qual está inicialmente envolvido.


A Tom e Pat unem-nos os livros que leem, os quadros que veem, os filmes.

Como irão resolver a projeção de Isabel em Pat, que se torna obsessiva?


Ilustrações de Anne Siems

Qual a simbologia do azul e do fogo neste impressionante e perturbador romance de Ana Teresa Pereira? 

Só lendo-o de um fôlego nos podemos cruzar com o destino (insólito) das personagens...

Mª Carla Crespo

16 de abril de 2012

O cheiro da escrita

Ilustração de Alice Vilhena
E depois estava a escrever... estava a escrever de novo. As  personagens eram só personagens, a casa era só uma gravura, e não havia amor, e não havia sofrimento.

O livro estava a tomar a sua forma definitiva e ela descobria coisas novas nele, estranhas simetrias (assustadoras simetrias), por vezes uma anotação na margem dava um sentido inquietante às outras palavras... E ela encontrava-se naquele estado que não tinha nome, consciência alterada, talvez um estado de graça, e o livro era só a parte visível do que estava a acontecer. E por vezes levantava-se e olhava em volta, porque sentia, muito forte, dentro do quarto, o cheiro da pantera.
Ilustração de Helene Terlien

Ana Teresa Pereira, in A Pantera (2011:85)
 
 
E era um cheiro quente e doce. Um cheiro vivo. Ela criara uma coisa.

ibidem (p.88)

15 de abril de 2012

Amendoeira em flor

Van Gogh, Amendoeira em flor


Um dia sentou-se à secretária e abriu o caderno de capa dura (ramos de amendoeira e céu de um azul único, pormenor de um quadro de Van Gogh) que comprara anos antes em Amesterdão.

Ana Teresa Pereira, in A Pantera (2011:84)

Escrita indefinível

Ilustração de Graham Franciose


De vez em quando distraía-se com a beleza profunda do lugar, e com qualquer coisa de indefinível, quase perigoso, que pairava nas águas, mas isso era parte da sua escrita.
O crepúsculo estava a chegar e os pássaros tinham ficado silenciosos e uma neblina leve formava-se sobre as águas, entre os juncos. Kate ouviu o som de um ramo a partir-se e voltou-se bruscamente, embora soubesse que só podia ser ele.

Ana Teresa Pereira, in A Pantera (2011:77)

14 de abril de 2012

Medo da escrita

Ilustração de Liu Ye


E na mala levava os seus notebooks, o seu livro. Queria começar a escrevê-lo, e ao mesmo tempo tinha um medo enorme de o fazer.


Ana Teresa Pereira, in A Pantera (2011:83)

3 de abril de 2012

A espera

Ilustração de Alexander Astashonok


O jardim ainda estava meio adormecido, fechado sobre si mesmo.



Ana Teresa Pereira, in A Pantera (2011:52)