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25 de março de 2016

Pai, Pai, por que me abandonaste?

Ilustração de Gurbuz Dogan Eksioglu

Mas a imagem do homem continuava sozinha: a cabeça levantada que olhava o céu com uma expressão de infinita solidão, de abandono e de pergunta.
 
E do fundo da memória, trazidas pela imagem, muito devagar, uma por uma, inconfundíveis, apareceram as palavras:

– Pai, Pai, por que me abandonaste?
 
il. Vanja Todoric
 
Então compreendi por que é que o homem que eu deixara para trás não era um estranho. A sua imagem era exactamente igual à outra imagem que se formara no meu espírito quando eu li:

– Pai, Pai, por que me abandonaste?

Era aquela a posição da cabeça, era aquele o olhar, era aquele o sofrimento, era aquele o abandono, aquela a solidão.
Para além da dureza e das traições dos homens, para além da agonia da carne, começa a prova do último suplício: o silêncio de Deus.

Ilustração de Gurbuz Dogan Eksioglu

E os céus parecem desertos e vazios sobre as cidades escuras.


Sophia de Mello Breyner,"O Homem" in Contos Exemplares