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19 de julho de 2015

oh, se pudesses voltar

oh, se pudesses voltar, mostrava-te as sete luas que se vêem
da janela do meu quarto. E os sete sóis, se nele quisesses
passar mais de uma noite. Nada disto te revelei antes,
que eram segredos meus - e eu, aos segredos, guardo-os
até ser tarde [de mais] para contá-los.

 
Ilustração de Joanna Concejo


oh, se pudesses voltar, havia de levar-te a ver o jardim,
por trás da casa, onde há uma nespereira que é só minha
e a cuja sombra podíamos ler no verão, se o verão viesse
e tu quisesses passá-lo só comigo. E também a clarabóia,
no telhado, que tem um vidro a menos por onde, de vez
em quando, caem estrelas; e tão pequenas que se perdem nos olhos
de quem se põe assim, a olhá-las, sem saber de onde vêm -


dizem que são anjos que as lançam devagar para aquecer
as noites. Talvez também te mostrasse os anjos se voltasses.


                               Maria do Rosário Pedreira, in Poesia Reunida, Quetzal poesia, 2012, 1ª ed., p.77