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19 de abril de 2015

Dom Barómetro e a gulodice

No armazém havia além de mim, do patrão Vasques, e do senhor Soares, que trabalhava como nosso tradutor, o senhor Moreira, o guarda-livros, o senhor Borges, o caixa, os três rapazes, caixeiros de praça, e o moço de recados. Os três rapazes eram o José, o Sérgio e o Vieira, a quem chamávamos o Alfama por morar a Santo Estêvão, e o moço que tinha a graça de António como eu. De quando em quando apareciam os caixeiros-viajantes, o senhor Tomé e o senhor Ernesto, e tínhamos também o gato, o Aladino, constando que fora o senhor Soares quem lhe pusera o nome. 

(...)
Ilustração de Angelo Barile


Embora teoricamente ocupasse o lugar de chefe do tradutor, o senhor Moreira nunca puxava dos galões com ele, nem aliás com ninguém, e apenas censurava a indiferença que o senhor Soares sentia por tudo quanto fosse comida. “Aquilo é uma tristeza”, desabafava o guarda-livros, “o único petisco que lhe passa pelas goelas é uma canja de galinha, e de longe a longe uma postazinha de pescada cozida.” O tradutor parecia não acusar tais brincadeiras, e só muito raramente se divertia a caçoar como senhor Moreira, alcunhando-o de Dom Barómetro. 


Ilustração de Jennifer Garant

De facto não existia quem como ele se preocupasse com as condições atmosféricas, não porque isso lhe desse qualquer abalo no tocante aos dias da semana, mas porque temia que o almoço dominical, festejo em que depositava as suas alegrias de glutão, se lhe tornasse impossível, devido ao mau tempo.

                                           Mário Cláudio, in Boa noite, senhor Soares, D. Quixote, 2008, 2ª ed., pp.13-15