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14 de abril de 2015

Lisboa, aceder a um amanhã

Ilustração de 度薇年 

Lembro-me então daquela Lisboa de cinquenta e dois anos atrás, vista da Graça, ou de São Pedro de Alcântara. Fixo-me nas artérias da Baixa, traçadas a régua e esquadro, e na multidão que se precipita para o Terreiro do Paço, e que se escoa devagar nos barcos que partem para Cacilhas. Está ainda azul o céu, mas paira sobre a cidade um alarme de acabamento, isto como se se houvesse esgotado a esperança que anima as criaturas, e o direito que lhes cabe a aceder a um amanhã.

                           
                 Mário Cláudio, in Boa noite, senhor Soares, D. Quixote, 2008, 2ª ed., pp.47-48