Número total de visualizações de página

3 de abril de 2015

O destino

Ilustração de Laimonas Smergelis

O destino eram
Os homens escuros
Que assim lhe disseram:

- Tu esculpirás Seu rosto
   de morte e de agonia.


                          Sophia de Mello Breyner Andresen, in O Cristo Cigano

Aparição

Ilustração de Laimonas Smergelis

Devagar devagar um homem morre
Escura no jardim a noite se abre
A noite com miríades de estrelas
Cintilantes límpidas sem mácula

Veloz veloz o sangue foge
Já não ouve cantar o moribundo
Sua interior exaltação antiga
Uma ferida no seu flanco o mata

Somente em sua frente vê paredes
Paredes onde o branco se retrata
Seus olhos devagar ficam de vidro
Uma ferida no seu flanco o mata

Já não tem esplendor nem tem beleza
Já não é semelhante ao sol e à lua
Seu corpo já não lembra uma coluna
É feito de suor o seu vestido
A sua face é dor e morte crua

E devagar devagar o rosto surge
O rosto onde outro rosto se retrata
O rosto desde sempre pressentido
Por aquele que ao viver o mata

Seus traços seu perfil mostra
A morte como um escultor
Os traços e o perfil
Da semelhança interior.


Sophia de Mello Breyner Andresen, in O Cristo Cigano