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29 de setembro de 2015

Sissi

Ilustração de Masha Kurbatova

Os soluços fizeram-na estremecer, o corpo apertava-se contra o espartilho, fazendo-a crispar-se de dor e de falta de ar. Agarrando-se ao peito, aceitou a dor. Era uma pequena penitência pelo ato egoísta e inexplicável de se apaixonar pelo noivo da irmã. E, pior ainda, por se sentir feliz com o facto indiscutível de que ele parecia amá-la também. Amá-la a ela, Sissi, embora Helena lhe estivesse prometida, E assim, no meio da escuridão, chorou.


Allison Pataki, in Sissi - Imperatriz por amor, 20/20 Editora,p. 141

22 de setembro de 2015

Amor e protocolo

- Isto é o Beija-mão? - sussurrou Sissi para Francisco enquanto as nobres entravam, com as cabeças enfeitadas com plumas e fruta, e com expressões de avaliação e escrutínio no rosto. - Ou é o Desfile dos Corações Partidos?

Ilustração de Masha Kurbatova
 
Francisco riu-se da piada, mas Sissi reparou que a sogra fez uma careta. Não estava escrito em parte nenhuma do guia do protocolo que era permitido aos recém-casados sussurrar. E não era, certamente, permitido soltar risinhos no dia do casamento.


Allison Pataki, in Sissi - Imperatriz por amor, 20/20 Editora, p. 184

21 de setembro de 2015

Voarei em círculos sem repouso

Ilustração de Samaneh Rahbarnia

Como as tuas próprias aves marinhas,
Voarei em círculos sem repouso.
Para mim a Terra não tem cantos
Para construir um ninho duradouro.

Imperatriz Isabel da Áustria, Sissi


Allison Pataki, in Sissi - Imperatriz por amor, 20/20 Editora

19 de setembro de 2015

O meu amor não cabe num poema

Ilustrações da Mariana Kalacheva

O meu amor não cabe num poema - há coisas assim,
que não se rendem à geometria deste mundo;
são como corpos desencontrados da sua arquitectura
ou quartos que os gestos não preenchem.

O meu amor é maior que as palavras; e daí inútil
a agitação dos dedos na intimidade do texto -
a página não ilustra o zelo do farol que agasalha as baías
nem a candura da mão que protege a chama que estremece.

 



O meu amor não se deixa dizer - é um formigueiro
que acode aos lábios como a urgência de um beijo
ou a matéria efervescente dos segredos; a combustão
laboriosa que evoca, à flor da pele, vestígios
de uma explosão exemplar: a cratera que um corpo,
ao levantar-se, deixa para sempre na vizinhança de outro corpo.

O meu amor anda por dentro do silêncio a formular loucuras
com a nudez do teu nome - é um fantasma que estrebucha
no dédalo das veias e sangra quando o encerram em metáforas.
Um verso que o vestisse definharia sob a roupa
como o esqueleto de uma palavra morta. Nenhum poema
podia ser o chão da sua casa.

               Maria do Rosário Pedreira, in Poesia Reunida, Quetzal poesia, 2012, 1ª ed., p. 94