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9 de abril de 2015

O guarda-livros sem rrr

O senhor Moreira, um homem muito engraçado que vivia ao pé da Avenida, não conseguia pronunciar os erres, e fazia-nos rir à socapa com aquelas frases que nós, os rapazes, nos não cansávamos de repetir, e de que nunca mais me esqueci. “O peço do meto do pano cu” fora uma dessas suas saídas que usávamos, se nos apetecia um bocado de pagode.

Ilustração de Clelia Nguyen

O guarda-livros andava por regra muito mal vestido, fora sempre um enorme comilão, gastava o ordenado com a esposa, a dona Lalá, a encher a barriga, e não me lembro de segunda-feira em que ele não chegasse com saudades dos petiscos da véspera, “Comi cá ontem umas eiroses em Alcochete que nem vos digo, nem vos conto”, ou “Bebi cá ontem uma pinga em Colares que ainda lhe trago o sabor na língua".


Ilustração de Marius van Dokkum

Via-se bem que o senhor Soares gostava do senhor Moreira, achando-lhe graça talvez, ou percebendo no seu íntimo que se tratava de um tipo de bons sentimentos, o que de resto se revelava naquela cara bolachuda, coberta de suor no Verão, mas um pouco roxa no Inverno.

Mário Cláudio, in Boa noite, senhor Soares, D. Quixote, 2008, 2ª ed., p.14

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