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29 de abril de 2015

A roupa dos substantivos

Ilustração de Rossana Bossù

...adjectivos são acrescentos ou adornos que pomos ao substantivo para dizer algo dele. O adjectivo é para o substantivo o que a roupa é para um actor. Como os actores vão a muitas festas, a muitos jantares, muitas entregas de prémios, precisam de muitas camisas, de muitos casacos, muitas saias e calças, muitos sapatos. Subiu-lhes a fama à cabeça e não podem vestir o mesmo traje dois dias seguidos. Há substantivos simples, que vão em corpo, mas a maioria gosta de levar por cima um adjectivo.


Juan José Millás, in A mulher louca, Planeta, 2014, 1ª ed., p. 105

28 de abril de 2015

Consultório de frases

Ilustração de Dainius Šukys
Julia não tinha respostas para a maioria das questões que as frases lhe colocavam, mas elas continuavam a acudir ao seu "consultório" e atendia-as a todas, tentando não decepcioná-las nem decepcionar-se, pois ocupava-se do estudo da gramática com uma seriedade com que nunca antes havia abordado projecto algum. Afortunadamente, muitas apresentavam problemas simples de resolver. A O meu cão está zarolha, por exemplo, doíam-lhe as articulações porque, como Julia advertiu logo em seguida, cão zarolha não concordavam. Explicou à frase que essa falta de concordância acabava por ser como introduzir a peça de um quebra-cabeças num buraco que não lhe correspondesse.

Juan José Millás, in A mulher louca, Planeta, 2014, 1ª ed., p. 21

27 de abril de 2015

Microcirurgia das meias

Após pronunciar estas palavras, Mllás medita uns instantes (...). Quanto à imagem da meia, diz que lhe vem à memória o gesto antigo das mães ao cerzi-las com a ajuda daquele misterioso ovo de madeira que havia em todas as casas. O cerzido era uma arte de costura que consistia em consertar um rompimento de tal modo que não se notasse a reparação. (...) 

Ilustração de Marie Desbons

O cerzido tinha algo de microcirurgia na medida em que era preciso tapar o buraco unindo os fios soltos da rotura como o cirurgião encaixa os capilares desfiados de uma ferida.


Juan José Millás, in A mulher louca, Planeta, 2014, 1ª ed., p. 73

26 de abril de 2015

A psicose e as meias

A verdade, acrescenta Millás, é que nunca chegou a entender, no sentido mais profundo, em que consistia a psicose, que tanto o atraía e perturbava, embora intuísse que se tratava de um buraco aberto na personalidade como uma malha rota numa meia.


Ilustração de Stela Woo

Esse buraco, que era um buraco do eu, devorava tudo o que se acercava das suas bordas num esforço inútil de substituir a ausência de qualidade por toneladas de quantidade.

                                                               Juan José Millás, in A mulher louca, Planeta, 2014, 1ª ed., p. 73



24 de abril de 2015

Uma menina está perdida no seu século à procura do pai


Que século? Que pai? Que menina?
Esta obra de Gonçalo M. Tavares é uma alegoria à cidade da indiferença: à diferença (Hanna, a menina, sofre de trissomia 21) e ao horror.

Ilustração de Paulina Góra (Antosz)


Paradoxalmente, num hotel os quartos não têm números mas nomes: nomes de campos de concentração, não permitindo o esquecimento nem a indiferença face ao holocausto.

Ilustração de Paulina Góra (Antosz)

Marius encontra a menina perdida. Onde a levará? Encontrará ela o pai? Como terminará esta história? 

Ilustração de Paulina Góra (Antosz)

É necessário perdermo-nos e dissolvermo-nos na leitura de Uma menina está perdida no seu século à procura do pai

Mª Carla Crespo

23 de abril de 2015

Pesadelo com livros

Ilustração de Tony Diterlizzi
Outro pesadelo.

Vejo o mesmo grupo de adolescentes, com a idade de Hanna (mas a ela não a vi), com catorze, quinze anos, todos com trissomia 21, a deitarem para o fundo de um poço livros em diferentes línguas. Lembro-me perfeitamente de algumas capas, de alguns nomes esquisitos, até de alguns alfabetos absolutamente impenetráveis. As raparigas (a certa altura pareceram-me todas raparigas, com aquela cara semelhante, com saia verde de um uniforme de colégio), as raparigas mandavam para o poço livros em francês, em italiano, em búlgaro, em russo, em inglês, em alemão - e cada livro que chegava lá a baixo, ao fundo do poço, era recebido com o som de uma água enlameada; e eu - que, estranhamente, estava ali, no meio do grupo, a assistir, sem participar, sem fazer nada, aceitando -, eu, então, debruçado sobre o poço, ali estava espantado, era essa a palavra, a ver cada um dos livros primeiro bater com certa força nos pequenos centímetros que ainda restavam de água e, depois, segundo a segundo, a desaparecerem, pelo menos em parte, engolidos pela lama.


Gonçalo M. Tavares, in Uma menina perdida no seu século à procura do pai, Porto Editora, 2014, 1ª ed.,p. 151

20 de abril de 2015

Contra-natura

Ilustração de Liuyi & Shandan


Sempre que os filhos precedem na morte aqueles que os trouxeram ao mundo, a Natureza exige  longo tempo para repor as suas leis.

                                                      Mário Cláudio, in O Fotógrafo e a Rapariga, D. Quixote, 2014, p. 12

19 de abril de 2015

Dom Barómetro e a gulodice

No armazém havia além de mim, do patrão Vasques, e do senhor Soares, que trabalhava como nosso tradutor, o senhor Moreira, o guarda-livros, o senhor Borges, o caixa, os três rapazes, caixeiros de praça, e o moço de recados. Os três rapazes eram o José, o Sérgio e o Vieira, a quem chamávamos o Alfama por morar a Santo Estêvão, e o moço que tinha a graça de António como eu. De quando em quando apareciam os caixeiros-viajantes, o senhor Tomé e o senhor Ernesto, e tínhamos também o gato, o Aladino, constando que fora o senhor Soares quem lhe pusera o nome. 

(...)
Ilustração de Angelo Barile


Embora teoricamente ocupasse o lugar de chefe do tradutor, o senhor Moreira nunca puxava dos galões com ele, nem aliás com ninguém, e apenas censurava a indiferença que o senhor Soares sentia por tudo quanto fosse comida. “Aquilo é uma tristeza”, desabafava o guarda-livros, “o único petisco que lhe passa pelas goelas é uma canja de galinha, e de longe a longe uma postazinha de pescada cozida.” O tradutor parecia não acusar tais brincadeiras, e só muito raramente se divertia a caçoar como senhor Moreira, alcunhando-o de Dom Barómetro. 


Ilustração de Jennifer Garant

De facto não existia quem como ele se preocupasse com as condições atmosféricas, não porque isso lhe desse qualquer abalo no tocante aos dias da semana, mas porque temia que o almoço dominical, festejo em que depositava as suas alegrias de glutão, se lhe tornasse impossível, devido ao mau tempo.

                                           Mário Cláudio, in Boa noite, senhor Soares, D. Quixote, 2008, 2ª ed., pp.13-15

18 de abril de 2015

Piquenique

Não sei como lanço a vista por cima do pessoal que ali acampava, a merendar, ou a bater a sesta, e que nada tinha a ver com o que quer que fosse que respeitasse ao senhor Soares, e dou com o sujeito, ou com o que se assemelhou ser ele porque as lentes dos óculos redondos chispavam na luz, em mangas de camisa, e encostado a uma manta que entalara entre entre as costas e o tronco de uma oliveira. Diante do senhor Soares alapava-se um cavalheiro, um tipo que eu não conhecia identificar porque a sombra lhe cobria o rosto, e entre ambos distinguiam-se duas garrafas e um embrulho aberto com o que julguei serem figos.

(...)
Ilustração de Alexander Sokht
Ilustração de Philip Giordano 




O que o acompanhava (...) fora um dia, recordei-me então, ao escritório à procura do amigo, e confiara-me um cartão-de-visita (...) que tinha impresso, "Ricardo Reis", e por baixo "Médico", e ainda, escrito à mão, e a tinta preta, "passou por aqui". 





Mário Cláudio, in Boa noite, senhor Soares, D. Quixote, 2008, 2ª ed., pp. 30-31


14 de abril de 2015

Lisboa, aceder a um amanhã

Ilustração de 度薇年 

Lembro-me então daquela Lisboa de cinquenta e dois anos atrás, vista da Graça, ou de São Pedro de Alcântara. Fixo-me nas artérias da Baixa, traçadas a régua e esquadro, e na multidão que se precipita para o Terreiro do Paço, e que se escoa devagar nos barcos que partem para Cacilhas. Está ainda azul o céu, mas paira sobre a cidade um alarme de acabamento, isto como se se houvesse esgotado a esperança que anima as criaturas, e o direito que lhes cabe a aceder a um amanhã.

                           
                 Mário Cláudio, in Boa noite, senhor Soares, D. Quixote, 2008, 2ª ed., pp.47-48

12 de abril de 2015

O amor não se adia


Ilustração de Clément Lefèvre
Eu tinha começado a ensinar. Era muito nova então. Quase tão nova como as meninas que eu ensinava. E tive um grande desgosto. (...)

Se vos conto este desgosto tão grande, não é para vos entristecer. Mas para vos ajudar a compreender, como só então eu pude compreender, o valor da vida. O amor da vida. O valor de um gesto de amor. O seu «preço», que dinheiro algum consegue comprar. (...)

Numa turma uma aluna faltava há dias. Era a Aurora. Morena, de grandes olhos cheios de doçura. Talvez triste. A Aurora estava doente. Num hospital da cidade, numa enfermaria. Num imenso hospital. (...)

— Vou vê-la no próximo domingo – anunciei às companheiras.(...)

Ilustração de Juanbjuan

Mas o próximo domingo foi cheio de Sol. (...) E eu, a professora, ainda jovem, que gostava do Sol, fui passear. Ver mar? Campos verdes? Flores? Já nem me lembro. E da Aurora me lembraria se a tivesse ido visitar. 

Começava a Primavera. 
Adiei a visita naquele próximo domingo, para outro dia, para outro próximo domingo. 

Ilustração de Sergey Smirnov


Hoje sei que o amor dos outros se não adia.

Aurora esperou-me toda a tarde de domingo, na sua cama branca, de ferro. 

Tinha posto uma fita vermelha a segurar os cabelos escuros. Esperava-me, esperava a minha visita, cuja promessa as companheiras lhe haviam transmitido. (...)

Ilustração de Shiori Matsumoto

— Estou à espera da professora… 

Ilustração de Kelli Murray


No dia seguinte a doença foi mais poderosa que a sua juventude, a sua doçura, a sua esperança. 
A cabeça escura, sem a fita vermelha, adormeceu-lhe profundamente na almofada, talvez incómoda, do hospital. 

Ilustração de Chichi Huang

Sabemos todos já, amigos, que há vida e morte. Também isso temos de aprender. 


Matilde Rosa Araújo "A fita vermelha", in O Sol e o Menino dos Pés Frios, 
Livros Horizonte, 1998, 9ª ed., pp. 25-27

9 de abril de 2015

O guarda-livros sem rrr

O senhor Moreira, um homem muito engraçado que vivia ao pé da Avenida, não conseguia pronunciar os erres, e fazia-nos rir à socapa com aquelas frases que nós, os rapazes, nos não cansávamos de repetir, e de que nunca mais me esqueci. “O peço do meto do pano cu” fora uma dessas suas saídas que usávamos, se nos apetecia um bocado de pagode.

Ilustração de Clelia Nguyen

O guarda-livros andava por regra muito mal vestido, fora sempre um enorme comilão, gastava o ordenado com a esposa, a dona Lalá, a encher a barriga, e não me lembro de segunda-feira em que ele não chegasse com saudades dos petiscos da véspera, “Comi cá ontem umas eiroses em Alcochete que nem vos digo, nem vos conto”, ou “Bebi cá ontem uma pinga em Colares que ainda lhe trago o sabor na língua".


Ilustração de Marius van Dokkum

Via-se bem que o senhor Soares gostava do senhor Moreira, achando-lhe graça talvez, ou percebendo no seu íntimo que se tratava de um tipo de bons sentimentos, o que de resto se revelava naquela cara bolachuda, coberta de suor no Verão, mas um pouco roxa no Inverno.

Mário Cláudio, in Boa noite, senhor Soares, D. Quixote, 2008, 2ª ed., p.14

7 de abril de 2015

Madrugar

Ilustração de Sam Hyuen Kim
Levanto-me muito cedo, recordando-me da observação de uma das queridas Brontë, julgo que Charlotte, e que minha Mãe tantas vezes citava, nos termos da qual quem perde a manhã perde afinal o dia inteiro.

                                                  Mário Cláudio, in O Fotógrafo e a Rapariga, D. Quixote, 2014, p. 15

5 de abril de 2015

Coelhos da Páscoa

Ilustração de Robert Wagt
No circo, ficamos a saber que os coelhos nascem de chapéus.

E não de ovos.

Afonso Cruz, in O livro do ano

Caminho da manhã


Ilustração de Laimonas Smergelis
Vais pela estrada que é de terra amarela e quase sem nenhuma sombra. As cigarras cantarão o silêncio de bronze. À tua direita irá primeiro um muro caiado que desenha a curva da estrada. Depois encontrarás as figueiras transparentes e enroladas; mas os seus ramos não dão nenhuma sombra. E assim irás sempre em frente com a pesada mão do Sol pousada nos teus ombros, mas conduzida por uma luz levíssima e fresca.


Ilustração de Laimonas Smergelis

(...)

Aí escutarás o silêncio. Aí se levantará como um canto o teu amor pelas coisas visíveis que é a tua oração em frente do grande Deus invisível.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in Livro Sexto

Final

Ilustração de Laimonas Smergelis


Assim termina a lenda
Daquele escultor:
Nem pedra nem planta
Nem jardim nem flor
Foram seu modelo


                                                            Sophia de Mello Breyner Andresen, in O Cristo Cigano

3 de abril de 2015

O destino

Ilustração de Laimonas Smergelis

O destino eram
Os homens escuros
Que assim lhe disseram:

- Tu esculpirás Seu rosto
   de morte e de agonia.


                          Sophia de Mello Breyner Andresen, in O Cristo Cigano

Aparição

Ilustração de Laimonas Smergelis

Devagar devagar um homem morre
Escura no jardim a noite se abre
A noite com miríades de estrelas
Cintilantes límpidas sem mácula

Veloz veloz o sangue foge
Já não ouve cantar o moribundo
Sua interior exaltação antiga
Uma ferida no seu flanco o mata

Somente em sua frente vê paredes
Paredes onde o branco se retrata
Seus olhos devagar ficam de vidro
Uma ferida no seu flanco o mata

Já não tem esplendor nem tem beleza
Já não é semelhante ao sol e à lua
Seu corpo já não lembra uma coluna
É feito de suor o seu vestido
A sua face é dor e morte crua

E devagar devagar o rosto surge
O rosto onde outro rosto se retrata
O rosto desde sempre pressentido
Por aquele que ao viver o mata

Seus traços seu perfil mostra
A morte como um escultor
Os traços e o perfil
Da semelhança interior.


Sophia de Mello Breyner Andresen, in O Cristo Cigano


2 de abril de 2015

Tempo de silêncio

Ilustração de Laimonas Smergelis


Tempo de solidão e de incerteza 
Tempo de medo e tempo de traição 
Tempo de injustiça e de vileza 
Tempo de negação 


Tempo de covardia e tempo de ira 
Tempo de mascarada e de mentira 
Tempo que mata quem o denuncia 
Tempo de escravidão 



Ilustração de Laimonas Smergelis

Tempo dos coniventes sem cadastro 
Tempo de silêncio e de mordaça 
Tempo onde o sangue não tem rastro 
Tempo de ameaça 


Sophia de Mello Breyner Andresen, "Data (à maneira d'Eustace Deschamps" in Livro Sexto

Amor

Não é porque Deus nos ama que nós devemos amá-Lo. É porque  Deus nos ama que nos devemos amar. Como é possível amar-se a si mesmo sem este motivo?

Ilustração de Andrew Ferez


O amor a si mesmo é impossível ao homem, a não ser através deste subterfúgio.

Simone Weil, in A gravidade e a graça, Relógio d'Água, 2004, col. Antropos, p. 65