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22 de março de 2015

Poema a uma noite

Ilustração de Ellie Horie


Empurro a noite para o lado, tiro-a da minha
frente, e ela insiste em não sair; mas encosto-a
contra a parede, e a noite começa a desaparecer,
sugada pelo branco da cal, até nada ficar dela senão
um fantasma de lua no azul deste céu que
ocupa todo o espaço sobre a minha cabeça, e
cujo peso me empurra para o chão. Tento
levantar-me; mas os meus braços não resistem
ao peso do azul, e dobram-se, enquanto a terra
se abre para me oferecer o seu refúgio. Porém,
que irei eu fazer no interior da terra, por entre
vermes e raízes? E deslizo entre o céu e
a terra, em busca da noite que fiz desaparecer.


Nuno Júdice, in A matéria do poema, D. Quixote, 2008, 1ª ed., p. 100

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