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4 de março de 2015

A neta do Senhor Linh

Na aldeia só havia uma rua. Uma única. O chão era de terra batida. Quando a chuva caía, violenta e a prumo, a rua tornava-se um ribeiro em fúria pelo qual as crianças nuas corriam rindo às gargalhadas. 

Ilustração de_Iwasaki Chihiro
Durante o tempo seco, os porcos dormiam na rua espojando-se na poeira, enquanto os cães se perseguiam, ladrando. Na aldeia, toda a gente se conhecia e se cumprimentava quando se via. Havia ao todo doze famílias, e cada uma delas sabia a história das outras, era capaz de nomear os avós, os antepassados, os primos, conhecia os bens que cada um possuía. Em resumo, a aldeia era uma grande e única família, repartida por casas erguidas sobre estacas, e debaixo das quais as galinhas e os patos esgravatavam o chão e cacarejavam.

Ilustração de Flor Opazo
O velho apercebe-se de que, quando pensa na aldeia, pensa em termos de passado. O que lhe provoca um aperto no coração. É realmente um verdadeiro aperto que sente quando pousa a mão livre sobre o peito, no sítio do coração, para pôr termo ao aperto.

Philippe Claudel, in A Neta do Senhor Lihn, ed. Asa, 2006, 1ª ed., p. 14

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