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28 de fevereiro de 2015

Ver claro

Ilustração de Deborah Dewit


Toda a poesia é luminosa, até
a mais obscura.
O leitor é que tem às vezes,
em lugar de sol, nevoeiro dentro de si.
E o nevoeiro nunca deixa ver claro.
Se regressar
outra vez e outra vez
e outra vez
a essas sílabas acesas
ficará cego de tanta claridade.
Abençoado seja se lá chegar.


Eugénio de Andrade

É assim a música

Ilustração de Liese Chavez

A música é assim: pergunta, 
insiste na demorada interrogação
- sobre o amor?, o mundo?, a vida?
Não sabemos, e nunca
nunca o saberemos.
Como se nada dissesse vai
afinal dizendo tudo.
Assim: fluindo, ardendo até ser
fulguração – por fim
o branco silêncio do deserto.
Antes porém, como sílaba trémula,
volta a romper, ferir,
acariciar a mais longínqua das estrelas.

Eugénio de Andrade
 


27 de fevereiro de 2015

O tempo e as histórias

Ilustração de Deborah Dewit

Hoje, com o apressuramento da vida, as orelhas moucas fogem dos contadores de histórias, não há tempo para as memorizar nem para as recriar nos confins da recordação. 


José Machado Pais, in Lufa-lufa quotidiana, 
Ensaios sobre cidade, cultura e vida urbana
Imprensa de Ciências Sociais, col. Breve Sociologia, 2010, 1ª ed., p. 48

26 de fevereiro de 2015

O tempo do caracol

Ilustração de Amber Alexander

Um caracol japonês subia lentamente ao longo de um tronco de cerejeira. Estava-se em Fevereiro ou Março. O caracol encontrou um insecto que lhe disse:

 - Onde vais? Não está na época! Não há cerejas nesta árvore!

 - Haverá quando eu chegar - respondeu o caracol sem parar.


Jean-Claude Carrière, "O insecto e o caracol", 
in Tertúlia de mentirosos - Contos filosóficos do mundo inteiro,
Teorema, 2000, p. 348

25 de fevereiro de 2015

A era do numérico

Entrámos na época do império numérico. Tudo se conta. Do dinheiro aos segundos, dos metros aos quilogramas, das calorias aos cafés bebidos diariamente. 


José Machado Pais, in Lufa-lufa quotidiana, 
Ensaios sobre cidade, cultura e vida urbana
Imprensa de Ciências Sociais, col. Breve Sociologia, 2010, 1ª ed., p. 58

Ilustração de Delphine Doreau


23 de fevereiro de 2015

Nem todos os minutos são iguais

Ilustração de Selda Marlin Soganci

A neurose urbana existe porque vivemos algemados a relógios, havendo uma tendência para subjugar a vida ao poder da cronometria. Todavia, a vida flui através de várias dimensões temporais. Desde logo, podem contrastar-se as temporalidades subjectivas e as objectivas. No primeiro caso, nem todos os minutos são iguais. No relógio são iguais mas não na forma como são vividos ou sentidos. No universo das nossas próprias recordações, há longos pedaços das nossas vidas que a memória esquece enquanto que outros breves acontecimentos se tornam eternos.


José Machado Pais, in Lufa-lufa quotidiana, 
Ensaios sobre cidade, cultura e vida urbana
Imprensa de Ciências Sociais, col. Breve Sociologia, 2010, 1ª ed., p. 66 

22 de fevereiro de 2015

Todas as coisas têm o seu tempo

Ilustração de Annie Stegg

Há tempo para nascer, e tempo para morrer; 
tempo para plantar, e tempo para arrancar o que se plantou;
tempo para matar, e tempo para dar vida;

tempo para destruir, e tempo de edificar;
Tempo para chorar, e tempo para rir; 

tempo para se afligir, e tempo para dançar;
Tempo para espalhar pedras, e tempo para as juntar;

tempo para dar abraços, e tempo para se afastar deles;
tempo para adquirir e tempo para perder;

tempo para guardar, e tempo para atirar fora;
tempo para rasgar, e tempo de coser;
tempo para  calar  e tempo para falar;
tempo para amar, e tempo para odiar;
tempo para a guerra, e tempo para a paz.

Eclesiastes 3:2-8

17 de fevereiro de 2015

Doutor, eu?


Ilustração de Sergey Ivchenko

- Você é mesmo tanso. Estava a gozar consigo. Na minha arte até posso ser considerado um catedrático da investigação criminal. Mas não sou doutor nenhum. Corte lá essa palermice do doutor e diga ao que vem.


Miguel Miranda, in Dai-lhes, Senhor, o eterno repousoPorto Editora, 2011, 1ª ed., p. 20

Doutores

Ilustração de Annie Stegg
Há uma espécie característica de gente que faz questão em se fazer anunciar por "doutor" isto ou aquilo. Destes autoproclamados "doutores", alguns ainda não acabaram curso nenhum, outros tiraram uma licenciatura crepuscular em algum instituto de vão de escada, apenas para obrigarem os outros a tratarem-nos por doutores. O homem que estava perante mim fazia parte dos seguidores dessa seita do culto da aparência. Só para verificar a sua lealdade à seita, perguntei:

- Então você é o Brandão?

O homem, outrora céreo, ganhou cor no rosto, de raiva incontida, e proferiu, martelando as sílabas:

- Doutor. Doutor Brandão. 

Ilustração de Dilka Bear

(...)
- Doutor será, quando acabar o curso. Sente-se.


Ele obedeceu, siderado. Derrubou os ombros, como se lhe tivesse caído um prédio em cima. 








Miguel Miranda, in Dai-lhes, Senhor, o eterno repousoPorto Editora, 2011, 1ª ed., p. 19




13 de fevereiro de 2015

Porque

Ilustração de Elena Trupak


Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.


Sophia de Mello Breyner Andresen, in Mar Novo,  Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 341

12 de fevereiro de 2015

Scanners corporais e privacidade

O achatamento da realidade significa que cada vez mas raramente se vê o que se olha. Ver é tornar visível o que se esquiva a uma apropriação visual. A poluição visual tende a provocar uma cegueira, da mesma forma que a poluição sonora tende a provocar a surdez. Por outro lado, olhamos à nossa volta e o que vemos é que acabamos por ser comidos por esse olho devorador que, através de circuitos de videovigilância, nos espia, à socapa. Em qualquer shopping ou esquina da rua: "Sorria, está a ser filmado".(...) 

Ilustração de Diane Duda

O Parlamento  Europeu tem debatido, de forma acalorada, o uso de scanners corporais de raios X nos aeroportos. O projecto não é pacífico, pois as mais ocultas intimidades dos passageiros ficarão expostas a usos indevidos. (...) O uso dos scanners permitiria enfrentar as bichas dos aeroportos mas, em contrapartida, nos arquivos dessas máquinas ficariam cópias de imagens explícitas dos nossos órgãos genitais e detalhes médicos íntimos, como implantes mamários ou bolsas de colostomia. 


José Machado Pais, in Lufa-lufa quotidiana, Ensaios sobre cidade, cultura e vida urbana
Imprensa de Ciências Sociais, col. Breve Sociologia, 2010, 1ª ed. p.36

10 de fevereiro de 2015

O pranto branco

il. Sonia MariaLuce Possentini 

Foi pelo pranto que te reconheci

Foi pelo branco da praia que te reconheci


Sophia de Mello Breyner Andresen, in Poemas Dispersos, Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 860

8 de fevereiro de 2015

Pranto pelo dia de hoje

Ilustração de Sonia MariaLuce Possentini


Nunca choraremos bastante quando vemos 
O gesto criador ser impedido
Nunca choraremos bastante quando vemos
Que quem ousa lutar é destruído
Por troças por insídias por venenos
E por outras maneiras que sabemos
Tão sábias tão subtis e tão peritas
Que nem podem sequer ser bem descritas 


Sophia de Mello Breyner Andresen, in Livro Sexto, Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 431


7 de fevereiro de 2015

O sol e o dia brilham mas sem ti

O sol e o dia brilham mas sem ti
Talvez não sejam mais o sol e o dia.
O sol e o dia agora
Estão lá onde o teu sorriso mora
E não aqui.


Lua e sol, de Matazo Kayama

Como quem colhe flores tu serena
Vais colhendo sem chorar a nossa pena
Olhas por nós sem mágoa nem saudade
E o céu azul, a luz, as Primaveras
Habitam na perfeita claridade
Em que nos esperas.


Sophia de Mello Breyner Andresen, in No Tempo Dividido, Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p.291 

6 de fevereiro de 2015

O flanneur e a lufa-lufa da cidade

Ilustração de May Ann Licudine

Quanto mais rápido o movimento menos profundidade se tem das coisas, mais chapadas elas se nos mostram. As cidades tradicionais, pelo contrário, eram feitas para serem vistas de perto, com detalhe. O flanneur, de Baudelaire, vivia na rua como se estivesse em casa, fazendo do café a sua sala de visitas e da banca de jornais a sua biblioteca.



José Machado Pais, in Lufa-lufa quotidiana, 
Ensaios sobre cidade, cultura e vida urbana,
Imprensa de Ciências Sociais, col. Breve Sociologia, 2010, 1ª ed., p. 35

Hiperatividade ou má educação?

Ilustrações de Anna Lisk



A hiperactividade das crianças esconde, na verdade, um problema maior: a sua má educação. A hiperactividade é apenas um efeito psicológico de um fenómeno social que decorre do "paradigma do encontrão".


José Machado Pais, in Lufa-lufa quotidiana, Ensaios sobre cidade, cultura e vida urbana, Imprensa de Ciências Sociais, col. Breve Sociologia, 2010, 1ª ed. p. 42

5 de fevereiro de 2015

Máscaras sociais


Ilustração de Magalie Bucher 

...a cortesia [aparece] como máscara de uma indiferença que Goffman (...) identificava como "desatenção cortês": de sorrisos falsos, de palavras de circunstância, de "obrigados" que nada obrigam, enfim, de uma teatralização que tem levado a que a cidade seja lida como um palco de representações, fazendo o esplendor das análises dramaturgas da vida quotidiana.


José Machado Pais, in Lufa-lufa quotidiana, Ensaios sobre cidade, cultura e vida urbana, Imprensa de Ciências Sociais, col. Breve Sociologia, 2010, 1ª ed. p. 28

4 de fevereiro de 2015

Lentidão vs. encontrão

Ilustração deLisa Falzon

O paradigma da lentidão deu lugar ao do encontrão - sagazmente identificado por E. A. Poe (...) quando se deu conta de que, entre a multidão, os transeuntes rasgavam caminho à custa da cotovelada e do inevitável empurrão. 


José Machado Pais, in Lufa-lufa quotidiana, Ensaios sobre cidade, cultura e vida urbana, Imprensa de Ciências Sociais, col. Breve Sociologia, 2010, 1ª ed. p. 28

3 de fevereiro de 2015

...até no amor

Os tempos mudaram. As saudações outrora tão cheias de vénias simplificaram-se, consumando-se num simples "Oi!" ou "Olá, que tal?" Como se a vida se pudesse resumir a tal. E qual.

Ilustração de Alice De Page


Há que ser rápido em tudo, até no amor. 

José Machado Pais, in Lufa-lufa quotidiana, Ensaios sobre cidade, cultura e vida urbana, Imprensa de Ciências Sociais, col. Breve Sociologia, 2010, 1ª ed. p. 28

2 de fevereiro de 2015

O elogio da lentidão

Em filosofia, o vencedor da corrida é aquele que consegue correr mais devagar.

Wittegenstein 

Ilustração de 度薇年 

apud José Machado Pais, Lufa-lufa quotidiana, Ensaios sobre cidade, cultura e vida urbana, Imprensa de Ciências Sociais, col. Breve Sociologia, 2010, 1ª ed. p. 28

1 de fevereiro de 2015

Deserto

Ilustração de Fabio Rex

O deserto é uma praia que, por melancolia, se afastou do mar.

(Malgorzata Zajac)


Afonso Cruz, in Enciclopédia da Estória Universal - Mar, Alfaguara, 2014, 1ª ed., p.