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13 de junho de 2014

Sermão de Santo António aos peixes

Olhai, peixes, lá do mar para a terra. Não, não; não é isso o que vos digo. Vós virais os olhos para os matos e para o sertão? Para cá, para cá; para a cidade é que haveis de olhar. Cuidais que só os tapuias se comem uns aos outros; muito maior açougue é o de cá, muito mais se comem os brancos. Vedes vós todo aquele bulir, vedes todo aquele andar, vedes todo aquele concorrer[1] às praças e cruzar as ruas? Vedes aquele subir e descer as calçadas, vedes aquele entrar e sair sem quietação nem sossego? Pois tudo aquilo é andarem buscando os homens como hão-de comer, e como se hão-de comer.

Ilustração de Anton Gorcevich

(…) Já se os homens se comeram[2] somente depois de mortos, parece que era menos horror e menos matéria de sentimento. Mas, para que conheçais a que chega a vossa crueldade, considerai, peixes, que também os vossos homens se comem vivos, assim como vós. (…) Vede um homem desses que andam perseguidos de pleitos[3] ou acusados de crimes, e olhai quantos o estão comendo. Come-o o meirinho[4], come-o o solicitador, come-o o advogado, come-o o inquiridor, come-o a testemunha, come-o o julgador, e ainda não está sentenciado e já está comido. São piores os homens que os corvos. O triste que foi à forca, não o comem os corvos senão depois de executado e morto; e o que anda em juízo, ainda não está executado nem sentenciado e já está comido.

Padre António Vieira, in Sermão de Santo António aos peixes





[1] acorrer
[2] comessem
[3] acções judiciais, processos no tribunal
[4]oficial de justiça