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29 de julho de 2014

É assim

Ilustrações de


É assim:
a gente despede-se, vai-se
embora amaldiçoando a terra,
carrega amargura que nem o diabo
aguenta; com o tempo vai
esquecendo injustiças, mágoas,
injúrias, morrendo por regressar
ao cheiro da palha seca, ao calor
animal do estábulo
ao sonho do quintalório
com três alqueires de milho ao sol
e dois pinheiros bravos -
porque não há no mundo
outro lugar onde
enfim dê tanto gosto chafurdar.



Eugénio de Andrade, in O Sal da Língua


 Lowell Herrero

25 de julho de 2014

Coral

Ilustração de Roz Art
Ia e vinha

E a cada coisa perguntava

Que nome tinha.

Sophia de Mello Breyner Andresen, in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 207


21 de julho de 2014

Uma Grandecíssima Injustiça

Ilustração de Vladimir Golub



...estas coisas da gente grande são difíceis de compreender porque a gente grande tem palha no coco e o resto é treta...



Luís de Sttau Monteiro, "Uma Grandecíssima Injustiça" in Redacções da Guidinha, Areal Editores



19 de julho de 2014

Entardecer

Ilustração de Ellie Horie

Entardecíamos em Deus.


Fernando Echevarría, in Verbo, Deus como interrogação a poesia portuguesa, Assírio&Alvim, 2014, p. 105



16 de julho de 2014

Deus é um boomerang

Ilustração de Eszter Schall

Deus é um boomerang

e eu sou a sua filha pródiga


Adília Lopes, in Verbo, Deus como interrogação na poesia portuguesa, Assírio&Alvim, 2014, p. 192

15 de julho de 2014

Deus é a nossa mulher-a-dias

Ilustração de Daltr Onde
Deus é a nossa
mulher-a-dias
que nos dá prendas
que deitamos fora
como a vida
porque achamos
que não presta


Deus é a nossa
mulher-a-dias
que nos dá prendas
que deitamos fora
como a fé
porque achamos
que é pirosa

Adília Lopes, in Verbo, Deus como interrogação na poesia portuguesa, Assírio&Alvim, 2014, p. 195

13 de julho de 2014

Pedrinhas no espírito

Ilustração de Catarina Sobral

Assim ficara, parado nos primeiros passos de tantas vias, com o espírito cheio de mundos, ou de pedrinhas, que é a mesma coisa.

Luigi Pirandello, in Um, ninguém e cem mil, Cavalo de Ferro, 2014, 3ª ed., p. 7

11 de julho de 2014

10 de julho de 2014

Limites?

Ilustração de Amber Alexander



Evoluir é talvez o último limite...




Maria Gabriela Llansol in Finita, Assírio&Alvim, 2005, p. 183

9 de julho de 2014

Hoje é quarta-feira

Jodoigne, 15 de Dezembro de 1976.

Ilustração de Liiu Ye

Hoje é quarta-feira. Sábado, domingo, de que faço parte. Amanhã é quinta, sexta, segunda, terça, de que não faço completamente parte, perdida no trabalho.



Maria Gabriela Llansol, in Finita, Assírio&Alvim, 2005, p. 137

8 de julho de 2014

A obra da minha vida

Jodoigne, 18 de Dezembro de 1976.

Ilustração de Nguyễn Minh Hải

Ponho-me a meditar e concluo que a obra da minha
vida abrange toda a espécie de trabalhos preparatórios,
entre os quais
reconverter-me a uma originalidade,
encaminhar-me para o mesmo lugar.


Maria Gabriela Llansol, in Finita, Assírio&Alvim, 2005, p. 138

6 de julho de 2014

Varandas






Ilustração de Elisabetta Trevisan

É na varanda que os poemas emergem
Quando se azula o rio e brilha
O verde-escuro do cipreste – quando
Sobre as águas se recorta a branca escultura
Quasi oriental quasi marinha
Da torre aérea e branca
E a manhã toda aberta
Se torna irisada e divina
E sobre a página do caderno o poema se alinha



Ilustração de Elisabetta Trevisan


Noutra varanda assim num Setembro de outrora
Que em mil estátuas e roxo azul se prolongava
Amei a vida como coisa sagrada
E a juventude me foi eternidade


Sophia de Mello Breyner Andresen, "O Búzio de Cós", in Obra PoéticaCaminho, 2011, 2ª ed., p. 820


5 de julho de 2014

Deus é no dia

Ilustração de 孟楠楠

Deus é no dia uma palavra calma

Um sopro de amplidão e de lisura.



Sophia de Mello Breyner Andresen, "Mar Novo", in Obra PoéticaCaminho, 2011, 2ª ed., p. 361

4 de julho de 2014

A paz sem vencedores e sem vencidos



Poema de Sophia de Mello Breyner Andresen, por Maria Barroso, no dia da trasladação da poeta para o Panteão Nacional. Publicado por Pastoral da Cultura.


3 de julho de 2014

É o teu rosto ainda que eu procuro

Ilustração de Irene Jones

É o teu rosto ainda que eu procuro


Através do terror e da distância


Para a reconstrução de um mundo puro.

Sophia de Mello Breyner Andresen, "Mar Novo", in Obra PoéticaCaminho, 2011, 2ª ed., p. 308


2 de julho de 2014

Harpa

Ilustração de Aimee Sicuro

A juventude impetuosa do mar invade o quarto
A musa poisa no espaço vazio à contraluz
As cordas transparentes da harpa

E no espaço vazio dedilha as cordas ressoantes


Sophia de Mello Breyner Andresen, O Búzio de Cós e outros poemas 

in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 823

Chamo-Te

Ilustração de Elisabetta Trevisan
Chamo-Te porque tudo está ainda no princípio
E suportar é o tempo mais comprido.

Peço-Te que venhas e me dês a liberdade,
Que um só dos Teus olhares me purifique e acabe.

Há muitas coisas que eu não quero ver.

Peço-Te que sejas o presente.
Peço-Te que inundes tudo.
E que o Teu reino antes do tempo venha
E se derrame sobre a terra
Em Primavera feroz precipitado.



Sophia de Mello Breyner Andresen, Coral in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 201

1 de julho de 2014

O arco das espumas


Ilustração de RosArt

O mar rolou as suas ondas negras


Sobre as praias tocadas de infinito.



Sophia de Mello Breyner Andresen, "No Tempo Dividido", in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 282