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30 de junho de 2014

...se leio?

Ilustração de 孟楠楠


Que mais quero ver, 

se leio?


Maria Gabriela Llansol, in Finita, Assírio&Alvim, 2005, p. 161

29 de junho de 2014

Ler infinitamente

A finalidade de ler não é guardar na memória. Eu esqueço-me do que leio mas encontro-me, ao cair da noite, com ele. (...)


Ilustração de Siegfried Linke


Ler estende-se pelo tempo e quer o espaço do dia a dia para projectar a sua sombra. Ler estende-se por vertentes desconhecidas, e eu leio pouco, mas infinitamente. 



Maria Gabriela Llansol, in Finita, Assírio&Alvim, 2005, p. 160

27 de junho de 2014

Desejo ler horas a fio

Jodoigne, 3 de Março de 1976.


Ilustração de Amber Alexander

Desejo ler horas a fio (o que também consta do ideograma), ler horas e horas sem me levantar. Rodeada de livros, basta estender a mão ou, mais simplesmente ainda, baixar os olhos. Leio algumas páginas e sinto que o que leio me atinge de maneira tão directa e íntima que está naquele momento sendo escrito, e me constrange a devolver-lhe uma resposta; o quarto fica cheio de leitura e da escrita que decorreu; pergunto então a mim mesma, vendo gnomos a transportar pauzinhos e folhas (...) se a escrita tem passado.

                                                      Maria Gabriela Llansol, in Finita, Assírio&Alvim, 2005, pp. 121-122


25 de junho de 2014

O livro como memória


Jodoigne, 20 de Abril de 1975.

Ilustração de Leonard Tsuguharu Foujita

O livro não é, para mim, o objecto rápido de uma leitura: dissimula um mútuo: uma época e alguém. «J'écris pour prendre la parole au nom de mes ancêtres qui se sont tus». __________ Liliane Wouters. 

Maria Gabriela Llansol, in Finita, Assírio&Alvim, 2005, p. 45

23 de junho de 2014

Cansaço da escola

Ilustração de Gooroovoo

Jodoigne, 23 de Abril de 1975.


Estou fatigada. O trabalho da escola cansa-me. Não suporto mais as permanentes intromissões dos pais, que nunca sabem o que querem juntos. Estou com as crianças e penso no livro. Sinto a ausência de um mestre para as minhas constantes interrogações.


Alguém terá de vir.
Cristina veio passar alguns dias connosco, e trouxe-me um livro de Kierkegaard: Les Miettes Philosophiques.


Maria Gabriela Llansol, in Finita, Assírio&Alvim, 2005, p. 51

22 de junho de 2014

Salvo pelas histórias

Ilustração de Arnold Lobel



O rato tinha corrido muito
para chegar são e salvo a sua casa.

Acendeu a luz,
jantou
e acabou de ler o seu livro.


Arnold Lobel, 
 in Sopa de Rato, ed. Kaladranka, 2013, col. Livros para sonhar, pp. 62-64

21 de junho de 2014

Histórias para a sopa de rato


                 Arnold Lobel in Sopa de Rato, ed. Kaladranka, 2013, col. Livros para sonhar

Sopa com histórias



Um rato estava sentado 
debaixo de uma árvore a ler um livro.

De repente,
uma doninha saltou-lhe em cima
e apanhou-o.

A doninha levou o rato
para casa dela.

- Ah, vou fazer
sopa de rato!
- disse a doninha. 







- Oh, vou tornar-me
sopa de rato!
- disse o rato. 

A doninha pôs o rato numa panela. 



- ESPERA!
- disse o rato. - Esta sopa
não vai saber a nada.
Não tem histórias.
A sopa de rato
tem que levar histórias 
para ficar boa.


Arnold Lobel (texto e ilustrações), in Sopa de Rato, ed. Kaladranka, 2013, col. Livros para sonhar, pp. 8-10

19 de junho de 2014

Sonho...




Sonho por vezes que, quando o dia do juízo chegar e os grandes conquistadores, advogados e estadistas vierem receber as suas recompensas – coroas, louros, nomes gravados indelevelmente em mármore imperecível -, o Todo-Poderoso se voltará para S. Pedro e dirá, não sem uma certa inveja, quando nos vir chegar com os nossos livros debaixo dos braços:

—Olhai, estes não precisam de recompensa. Nada temos para lhes dar. Eles amaram a leitura.



Virginia Woolf
Ilustrações de Julianna Swaney








17 de junho de 2014

Pensamento de galinha

Ilustração de Flor Opazo
Se ela pensasse, pensaria assim: é muito melhor morrer sendo útil e gostosa para uma gente que sempre me tratou bem, essa gente por exemplo não me matou nenhuma vez. (A galinha é tão burra que não sabe que só se morre uma vez, ela pensa que todos os dias a gente morre uma vez.)


Clarice Lispector, in A vida íntima de Laura, Relógio d'Água, 2012

16 de junho de 2014

Verdades sobre Laura

Ilustração de Flor Opazo



Acho que vou ter que contar uma verdade. A verdade é que Laura tem o pescoço mais feio que já vi no mundo. Mas você não se importa, não é? Porque o que vale mesmo é ser bonito por dentro. Você tem beleza por dentro? Aposto como tem. (...)

Outra verdade: Laura é bastante burra. Tem gente que acha ela burríssima, mas isto também é exagero: quem conhece bem Laura é que sabe que Laura tem seus pensamentozinhos e sentimentozinhos. Não muitos, mas que tem, tem.


Clarice Lispector, in A vida íntima de Laura, Relógio d'Água, 2012

Laura é uma galinha


Ilustração de Flor Opazo

Peço a você  o favor de gostar logo de Laura porque ela é a galinha mais simpática que já vi. Vive no quintal de Dona Luísa com as outras aves. É casada com um galo chamado Luís. Luís gosta muito de Laura, embora às vezes brigue com ela. Mas briguinha à toa.

Clarice Lispector, in A vida íntima de Laura, Relógio d'Água, 2012

15 de junho de 2014

Ulisses



O mito é o nada que é tudo.

O mesmo sol que abre os céus

É um mito brilhante e mudo –

O corpo morto de Deus,
Ilustração de Danuta Wojciechwska


Vivo e desnudo.



Este que aqui aportou,

Foi por não ser existindo.

Sem existir nos bastou.

Por não ter vindo foi vindo

E nos criou.



Assim a lenda se escorre

A entrar na realidade,

E a fecundá-la decorre.

Em baixo, a vida, metade

De nada, morre.

Fernando Pessoa, in Mensagem

14 de junho de 2014

À chegada dos dias grandes



Da luva lentamente aliviada
a minha mão procura a primavera
Nas pétalas não poisa já geada
e o dia é já maior que ontem era

Não temo mesmo aquilo que temera
se antes viesse: chuva ou trovoada
é este o Deus que o meu peito venera
Sinto-me ser eu que não era nada


Ilustrações de Marion Arbona 

A primavera é o meu país
Saio à rua sento-me no chão
e abro os braços e deito raiz

E dá flores até a minha mão
Sei que foi isto que sem querer quis
e reconheço a minha condição.

Ruy Belo, in Todos os Poemas

13 de junho de 2014

Sermão de Santo António aos peixes

Olhai, peixes, lá do mar para a terra. Não, não; não é isso o que vos digo. Vós virais os olhos para os matos e para o sertão? Para cá, para cá; para a cidade é que haveis de olhar. Cuidais que só os tapuias se comem uns aos outros; muito maior açougue é o de cá, muito mais se comem os brancos. Vedes vós todo aquele bulir, vedes todo aquele andar, vedes todo aquele concorrer[1] às praças e cruzar as ruas? Vedes aquele subir e descer as calçadas, vedes aquele entrar e sair sem quietação nem sossego? Pois tudo aquilo é andarem buscando os homens como hão-de comer, e como se hão-de comer.

Ilustração de Anton Gorcevich

(…) Já se os homens se comeram[2] somente depois de mortos, parece que era menos horror e menos matéria de sentimento. Mas, para que conheçais a que chega a vossa crueldade, considerai, peixes, que também os vossos homens se comem vivos, assim como vós. (…) Vede um homem desses que andam perseguidos de pleitos[3] ou acusados de crimes, e olhai quantos o estão comendo. Come-o o meirinho[4], come-o o solicitador, come-o o advogado, come-o o inquiridor, come-o a testemunha, come-o o julgador, e ainda não está sentenciado e já está comido. São piores os homens que os corvos. O triste que foi à forca, não o comem os corvos senão depois de executado e morto; e o que anda em juízo, ainda não está executado nem sentenciado e já está comido.

Padre António Vieira, in Sermão de Santo António aos peixes





[1] acorrer
[2] comessem
[3] acções judiciais, processos no tribunal
[4]oficial de justiça

11 de junho de 2014

Dança II


De pés nus pisas o solo. Sentes a música dentro de ti e sem saber como gizas no ar movimentos e ritmos novos, em improviso próprio. Coreografias desenhadas no momento, em explosão urgente de desejos e de imagens retidas no tempo e no espaço. Elevas-te no ar e falas de cidades percorridas à descoberta, de pessoas cruzadas e esquecidas, do pio do pássaro à tardinha e da planta que regas todos os dias, em rotinas cheias. 

Ilustração de Nolla
Devagar, a música baixa e esquecendo-a ouves o teu próprio corpo, em sons ritmados, tensos e libertadores. Cada braço e cada perna em rotação espelham o que tu és e projectam-te para fora de ti em comunhão com o exterior, numa revelação de ti mesma. É deste modo que te conheces profundamente e te ultrapassas num todo cujo nome é muitas vezes indizível. 

Ilustração de Adolfo Serra

É isto a dança e é assim que nos podemos reinventar.

Marina Baltar

10 de junho de 2014

Nevoeiro

Ilustração de Stephanie Pui-Mun Law

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
define com perfil e ser
este fulgor baço da terra
que é Portugal a entristecer –
Brilho sem luz e sem arder,
como o que o fogo-fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ância distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...

É a Hora!

Fernando Pessoa, in Mensagem

Screvo meu livro à beira mágoa

Ilustração de Danuta Wojciechwska

Screvo meu livro à beira mágoa.
Meu coração não tem que ter.
Tenho meus olhos quentes de água.
Só tu, Senhor, me dás viver.

Só te sentir e te pensar
Meus dias vácuos enche e doura.
Mas quando quererás voltar?
Quando é o Rei? Quando é a Hora?

Quando virás a ser o Cristo
De a quem morreu o falso Deus,
E a despertar do mal que existo
A Nova Terra e os Novos Céus?

Quando virás, ó Encoberto,
Sonho das eras português,
Tornar-me mais que o sopro incerto
De um grande anseio que Deus fez?

Ah, quando quererás voltando,
Fazer minha esperança amor?
Da névoa e da saudade quando?
Quando, meu Sonho e meu Senhor?

Fernando Pessoa, in Mensagem

8 de junho de 2014

Acordou a manhã

 Acordou a Manhã
P’ra dar
De beber aos pássaros…

O Sol pôs-se a pino
P´ra lhe doirar as asas…
A Noite veio
P’ra fechar
As pálpebras dos pássaros…
  
Ilustração de S. Eidrigevicius
De nada disto os pássaros souberam.
E todo o dia cantaram
Como se agradecessem…

                                                                           
Sebastião da Gama, in Estevas

6 de junho de 2014

Tretas tretas tretas

Tretas tretas tretas a mim é que não me levam mais era o que faltava ou um ou outro é um aldrabão disseram-me que o pai natal descia pela chaminé e eu acendi o fogão para lhe queimar o rabo para ele dar um grito para eu o ver e nicles quem ficou com o rabo a arder fui eu que levei bumba no toutiço por ter gasto gás é só para ver como as coisas são disseram-me que ele trazia presentes do céu e o que ele me trouxe foi uma camisola que eu vi numa montra duma loja em saldo com o preço e tudo isto quer dizer que o Céu fica na Rua dos Fanqueiros ou que me aldrabaram por eu ser criança é o que eu digo mentem à gente mal a gente nasce e depois queixam-se de que a gente em grande queira ir para a política 



Ilustração de Sophie Dufeu

(...) outra porcaria que me fez o pai natal foi dizer ao meu pai que este ano os presentes eram fracotes por causa da crise que há no Céu mas então se aquilo é igual à Terra para que é que lhe chamam Céu anda a gente a privar-se de coisas para ir para o Céu e chega lá e bumba aquilo é como a Graça ou como o Areeiro eu é que não vou nisso e se as coisas não mudam para o ano faço de conta que não sei da crise e mando uma reclamação para o deputado que me representa na assembleia e o pai natal vai ver como é que as moscas picam para aprender a ser profissional a valer que isto dum pai natal amador não interessa a ninguém e muito menos a esta vossa GUIDINHA que não está cá por ver andar os outros.


Luís de Sttau Monteiro, "Tretas tretas tretas" in Redacções da Guidinha, Areal Editores


5 de junho de 2014

Ano da Poupança Doméstica

Misheva
Ilustrações de
Milena

...deviam dar uma medalha ao meu Pai porque ele é um homem bestial que inventou a tal poupança antes do resto do mundo cá para mim deviam pôr o retrato dele nos livros de história ao lado dos retratos dos navegadores porque ele descobriu a poupança antes dos outros sim porque a verdade é que a gente lá em casa anda a navegar em poupança antes dos outros há tantos anos que nem conhecemos outra coisa eu cá por mim estou à espera para ver se compro um livro de matemática porque com o dinheiro que o meu Pai ganha nem para o ano mas para voltarmos outra vez ao que eu estava a dizer o que eu quero é que ponham debaixo dos cartazes (do Dia Mundial da Poupança) «Viva o Pai da Guidinha que inventou o Ano da Poupança Doméstica» ou qualquer outra coisa parecida para se fazer justiça

Luís de Sttau Monteiro, "Poupança a Poupança Enche a Gente o Papo de Ar" in Redacções da Guidinha, Areal Editores





2 de junho de 2014

Farta de batatas até aos olhos

Estou farta de batatas até aos olhos não posso ver batatas à minha frente porque tenho um azar danado enquanto toda a gente hoje tem o DIA mundial da poupança eu nasci numa casa em que andamos há cinco anos ou mais sim ou mais que eu tenho a impressão de que nunca vivemos senão assim mas o melhor é voltar ao que eu estava a contar enquanto toda a gente tem o dia mundial da poupança nós lá em casa andamos no ANO inteiro da poupança e o pior é que já vamos para o quarto ano da poupança e para quê? para chegarmos vivos ao fim do mês vivos mas cheios de batatas até aos olhos


Guidinha, de Rui Castro

Luís de Sttau Monteiro, "Poupança a Poupança Enche a Gente o Papo de AriRedacções da Guidinha, Areal Editores

1 de junho de 2014

Pergunta de criança


Ilustração de Alice

O senhor Henri disse: se a laranja viesse de uma árvore chamada macieira, à laranja teria de se chamar maçã ou era à macieira que se teria de chamar laranjeira?

Gonçalo M. Tavares, "A questão", in O Senhor Henri, Caminho, 2003, p. 11