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31 de maio de 2014

O sótão da minha avó

Ilustração de Amy Casey

O sótão é uma coisa que há em cima das casas de província porque nas de Lisboa em cima das casas o que há é outras casas e em cima dessas há outras e é assim por aí acima até ao telhado mas nas de província há o sótão onde se arrumam as coisas que não prestam ou que ninguém quer deitar fora porque mesmo que não prestem custaram dinheiro e sem pilim é que ninguém vive (...)


Luís de Sttau Monteiro, "O sótão da minha avó" i

Redacções da Guidinha, Areal Editores

28 de maio de 2014

Uma manhã

Por vezes, Calvino obcecado pelos métodos:
- Interesso-me de muitas maneiras pela mesma coisa.

Outras vezes, obcecado pelas coisas:
- Interesso-me da mesma maneira por muitas coisas.

Algumas vezes, embaralhado:
- Interesso-me ao mesmo tempo de muitas maneiras por muitas coisas.

Ilustração de James Marshall

Hoje, ao acordar, preguiçoso:
- Não me interesso por nada, porém faço tal coisa de muitas maneiras diferentes.


Gonçalo M. Tavares, in O Senhor Calvino, Caminho, 2005, p. 39


27 de maio de 2014

Todas as esperanças

Ilustração de Yiying Lu

Não deram resultado todas as esperanças que tinha posto no dia de hoje.
Mas amanhã muito cedinho se Deus quiser todas as esperanças começam outra vez à procura da minha vez...

Almada Negreiros

26 de maio de 2014

Viagem longa

Ilustração de Yusuke Yonezu


Como gostava de ler e ia para uma viagem longa o senhor Juarroz decidiu pôr na mala seis exemplares do mesmo livro.



Gonçalo M. Tavares, in O Senhor Juarroz, Caminho, 2004, p. 23

25 de maio de 2014

As dimensões do mundo

Ilustração de Sara Burrier


- O veneno está só no lado esquerdo do cogumelo venenoso - pensava o senhor Juarroz, que, como há muito tempo não saía, estava convencido de que a realidade apenas tinha uma dimensão, como o desenho na folha de papel. Pode-se sempre comer o outro lado - dizia.




Gonçalo M. Tavares, in O Senhor Juarroz
Caminho, 2004, p. 11

Teoria sobre os saltos

A 2ª parte do salto para cima é descer, mas a 2ª parte do salto para baixo não é subir - pensava o senhor Juarroz.


Ilustração de Trevor Brown

Se do chão saltares para cima ao chão voltarás, mas se de um 30º andar saltares para baixo é provável que não voltes a subir ao 30º andar. 

De qualquer maneira, o senhor Juarroz, por preguiça, usava sempre o elevador.

Gonçalo M. Tavares, in O Senhor Juarroz, Caminho, 2004, p. 15 

Um prato de sopa

Ilustração de Tomoko Suzuki

Um prato de sopa um humilde prato de sopa
comovo-me ao vê-lo no dia de festa
e entro dentro da sopa
e sou comido por mim próprio com lágrimas nos olhos

Ruy Belo, in Todos os Poemas, Assírio&Alvim, 2000, p. 205

22 de maio de 2014

O relógio

O senhor Juarroz pensou num relógio que em vez de mostrar o tempo mostrasse o espaço. Um relógio onde o ponteiro maior indicasse no mapa o local preciso onde a pessoa se encontrava num determinado instante.

Ilustração de Deidre Wicks
- Então, e o ponteiro pequeno? Que indica? – perguntou a esposa.
- A localização de Deus – respondeu o senhor Juarroz.


Gonçalo M. Tavares, in O senhor Juarroz

19 de maio de 2014

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades


Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança:
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança:
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem (se algum houve) as saudades.

Ilustração de Cory Loftis


O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soía.


                                                Camões

18 de maio de 2014

Elegia segunda

Ilustração de Mary Blair

Todos os pássaros, todos os pássaros

Asas abriam, erguiam cantos,

De Amor cantavam.

Todos os homens, todos os homens,

De almas abertas, de olhos erguidos,

De Amor cantavam.

De Amor cantavam todos os rios,

Todas as serras, todas as flores,

Todos os bichos, todas as árvores,

Todos os pássaros, todos os pássaros,

Todos os homens, todos os homens.

De Amor cantavam...
                                          Sebastião da Gama, in Campo Aberto

17 de maio de 2014

Significado superior

Acredito, como os antigos, que deve haver um significado único e superior por detrás de cada erva, flor, nuvem que passa ou criança que nasce. 


Ilustração de Virpi Pekkalan

Para mim, a arte deve ser o espelho dessa íntima relação, desse encantamento, dessa magia. Estou farto da lógica horizontal que nos impõe um olhar conformado sobre a banalização do mundo.

Rui Chafes, escultor

À chegada dos dias grandes

Ilustração de Virpi Pekkalan
Da luva lentamente aliviada
a minha mão procura a primavera
Nas pétalas não poisa já geada
e o dia é já maior que ontem era

Não temo mesmo aquilo que temera
se antes viesse: chuva ou trovoada
é este o Deus que o meu peito venera
Sinto-me ser eu que não era nada

A primavera é o meu país
Saio à rua sento-me no chão
e abro os braços e deito raiz

E dá flores até a minha mão
Sei que foi isto que sem querer quis
e reconheço a minha condição.


                                                   Ruy Belo

13 de maio de 2014

Ondados fios de ouro reluzente

O Nascimento de Vénus, de Boticelli


Ondados fios de ouro reluzente,
Que, agora da mão bela recolhidos,
Agora sobre as rosas estendidos,
Fazeis que a sua beleza se acrecente;

Olhos, que vos moveis tão docemente,
Em mil divinos raios encendidos,
Se de cá me levais alma e sentidos,
Que fora, se de vós não fora ausente?

Honesto riso, que entre a mor fineza
De perlas e corais nace e parece,
Se na alma em doces ecos não o ouvisse!...

Se imaginando só tanta beleza,
De si, em nova glória a alma se esquece,
Que será quando a vir?... Ah! Quem a visse…


                                                 Luís de Camões

Presença bela, angélica figura

A Primavera, de Boticelli

Presença bela, angélica figura,
Em quem, quanto o Céu tinha, nos tem dado;
Gesto alegre, de rosas semeado,
Entre as quais se está rindo a Fermosura;

Olhos, onde tem feito tal mistura
Em cristal branco e preto marchetado,
Que vemos já no verde delicado
Não esperança, mas enveja escura;

Brandura, aviso e graça que, aumentando
A natural beleza c'um desprezo
Com que, mais desprezada, mais se aumenta;

São as prisões de um coração que, preso,
Seu mal ao som dos ferros vai cantando,
Como faz a sereia na tormenta.


                                   Luís de Camões

11 de maio de 2014

Como afastar os fantasmas?





O poema, esse sim, tinha o poder de lixiviar todos os fantasmas.

Miguel Miranda, in Todas as cores do vento, Porto Editora, 2012, 1ª ed., p. 14

9 de maio de 2014

As metades de Novalis

Ilustração de Raquel Aparício


A ciência é apenas uma metade. A outra é a fé.


in Fragmentos de Novalis (seleção, tradução e desenhos de Rui Chafes), Assírio & Alvim, 2000, 2ª ed., p. 21

7 de maio de 2014

A sombra quieta

Ilustração de Young Ju Choi


Era uma vez uma sombra
que não parava de estar quieta.
Quanto mais quieta estava
mais o pobre corpo
se mexia
e saltava,
esbracejava, corria.
Tomado pelo medo,o corpo acabou por fugir
daquele sinistro lugar.
Nunca mais ninguém o viu.
E a sombra?
Ainda lá está.
Ali, naquele lugar.


João Pedro Mésseder, in Pequeno Livro das Coisas, Caminho, 2012, p. 9

6 de maio de 2014

Poema da Auto-estrada

Voando vai para a praia
Leonor na estrada preta.
Vai na brasa, de lambreta.

Leva calções de pirata,
vermelho de alizarina,
modelando a coxa fina,
de impaciente nervura.
como guache lustroso,
amarelo de idantreno,
blusinha de terileno
desfraldada na cintura.

Fuge, fuge, Leonoreta:
Vai na brasa, de lambreta.
 
Ilustração de Paula Dominguez Romeo

Agarrada ao companheiro
na volúpia da escapada
pincha no banco traseiro
em cada volta da estrada.
Grita de medo fingido,
que o receio não é com ela,
mas por amor e cautela
abraça-o pela cintura.
Vai ditosa e bem segura.

Com um rasgão na paisagem
corta a lambreta afiada,
engole as bermas da estrada
e a rumorosa folhagem.
Urrando, estremece a terra,
bramir de rinoceronte,
enfia pelo horizonte
como um punhal que se enterra.
Tudo foge à sua volta,
o céu, as nuvens, as casas,
e com os bramidos que solta,
lembra um demónio com asas.

Na confusão dos sentidos
já nem percebe Leonor
se o que lhe chega aos ouvidos
são ecos de amor perdidos
se os rugidos do motor.

Fuge, fuge, Leonoreta
Vai na brasa, de lambreta.

António Gedeão, in Poesias Completas

4 de maio de 2014

Saberás que não te amo e que te amo

Ilustração de Claudia Tremblay


Saberás que não te amo e que te amo
porquanto que de dois modos é a vida,
a palavra é uma asa do silêncio,
o fogo tem sua metade fria.

Eu te amo para começar a te amar,
para recomeçar o infinito
e para não deixar de te amar nunca:
por isso mesmo é que ainda não te amo.

Te amo e não te amo como se tivesse
em minhas mãos a chave da ventura
e um incerto destino desditado.

Meu amor tem duas vidas para amar-te. 

Por isso te amo quando não te amo
e por isso te amo quando te amo.


Pablo Neruda, Cien sonetos de amor, in Presentes de um poeta, Arte Plural ed., 2003, pp. 26-27

3 de maio de 2014

A terra

Ilustração de Sonia MariaLuce Possentini

Quando estamos longe da pátria
nunca a recordamos em seus invernos.


Pablo Neruda, Confesso que he vivido, in Presentes de um poeta, Arte Plural ed., 2003, pp. 26-27

2 de maio de 2014

A poesia é indestrutível

Ilustração de Sonia MariaLuce Possentini


Minha fé em todas as colheitas do futuro


se afirma no presente. E declaro, por muito


que se saiba, que a poesia é indestrutível.



Pablo Neruda, Discurso en Chile, in Presentes de um poeta, Arte Plural ed., 2003, p. 73

1 de maio de 2014

O poeta

Ilustração de Moony Khoa Le 

O poeta é igual ao jardim das estátuas


Ao perfume do Verão que se perde no vento



Veio sem que os outros nunca o vissem



E as suas palavras devoraram o tempo.




Sophia de Mello Breyner Andresen, "No Tempo Dividido", in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 302