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3 de abril de 2014

Da mais alta janela da minha casa


Gustav Klimt
Da mais alta janela da minha casa 
Com um lenço branco digo adeus
Aos meus versos que partem para a humanidade. 


E não estou alegre nem triste.
Esse é o destino dos versos.
Escrevi-os e devo mostrá-los a todos
Porque não posso fazer o contrário
Como a flor não pode esconder a cor,
Nem o rio esconder que corre,
Nem a árvore esconder que dá fruto. 

Ei-los que vão já longe como que na diligência
E eu sem querer sinto pena
Como uma dor no corpo. 

Quem sabe quem os terá?
Quem sabe a que mãos irão? 

Ilustração de Christian Asuh

Flor, colheu-me o meu destino para os olhos. 
Árvore, arrancaram-me os frutos para as bocas.
Rio, o destino da minha água era não ficar em mim.
Submeto-me e sinto-me quase alegre,
Quase alegre como quem se cansa de estar triste. 

Ide, ide de mim!
Passa a árvore e fica dispersa pela Natureza.
Murcha a flor e o seu pó dura sempre.
Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre a que foi sua. 

Passo e fico, como o Universo.


Alberto Caeiro, in Fernando Pessoa dito por Sinde Filipe, Dinalivro, 2010, 3ª ed., pp. 86-87

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