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1 de março de 2014

Coincidência

Ilustração de Roel Obemio
Uma vez, na rua, cruzei-me com um apanhador
de conchas. Tinha os olhos feridos pelo sal, as mãos
abertas pelo ácido das marés, os lábios gretados
por versos inacabados. Recitou-me fórmulas
do campo; anunciou-me a verdade de antigas
profecias. Olhei para cima: e o céu continuava
azul, como se nada se passasse. Mas ele
abriu o cesto das conchas; e um movimento
de caranguejos mostrou-me o fundo da
existência. Talvez eu estivesse a falar
com um morto; ou as suas palavras me
distraíssem do verdadeiro significado
das coisas."Para que serve a poesia,
afinal"? E continuou o seu caminho,
para que eu seguisse o meu, como
se nunca nos tivéssemos encontrado.


Nuno Júdice, in As coisas mais simples, Dom Quixote, 2007, 2ª ed., p. 26

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