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31 de janeiro de 2014

Primeiro dia de primavera

Ilustração de Sun Haeng Heo



Primeiro dia de primavera:
que distante me parece
o inverno

Tolentino Mendonça, in A papoila e o monge, Assírio&Alvim, 2013, p. 57

30 de janeiro de 2014

Nascer de novo

Ilustração de Su Blackwel


Não te sei descrever o que senti quando aprendi a ler e a escrever. Era como se tivesse nascido novamente e com poderes especiais.


 Dulce Maria Cardoso, "A biblioteca", in O prazer da leitura, ed. FNAC/Teodolito, 2011, p. 115

29 de janeiro de 2014

Há coisas que não se podem decidir...

Ilustração de Pau Anglada

Os livros salvaram-me. É a primeira vez que digo isto em voz alta. Um homem não pode deixar de envergonhar-se quando diz que não se matou por causa dos livros. Parece mais coisa de rapariga fraca dos nervos. E no entanto é a verdade. Há muito muito tempo, os livros salvaram-me. Se não quiseres acreditar, não acredites. Acreditar também é uma decisão. Há coisas que não se podem decidir. Ter sede, por exemplo. Ser salvo por livros.


                  Dulce Maria Cardoso, "A biblioteca", in O prazer da leitura, ed. FNAC/Teodolito, 2011, p. 105

28 de janeiro de 2014

Vidas lidas ou vividas?

Ilustração de Anna Burighel



As minhas ideias já estão um pouco confundidas mas não a este respeito. As vidas que li não foram menos minhas. Não há grande diferença entre o que se vive lendo e o que se vive vivendo. Milhares de vidas à nossa espera no silêncio dos livros. O silêncio dos livros não é igual ao nosso.


Dulce Maria Cardoso, "A biblioteca", in O prazer da leituraed. FNAC/Teodolito, 2011, pp. 106-107 


27 de janeiro de 2014

Biblioteca viva

Ilustração de Nikolaus Heidelbach

Esta biblioteca é a testemunha mais fidedigna do que sou. Encontrei-me aqui com tanta gente.

Dulce Maria Cardoso, "A biblioteca", in O prazer da leitura, ed. FNAC/Teodolito, 2011, p. 107 

26 de janeiro de 2014

São tristes as aves

Ilustração de Julia Icenogle

São tristes as aves que viajam na
memória do vento, tristes os olhos
que se demoram no gargalo de um
poço. E eu sou triste de não saber

que nome te pôs a morte quando
ontem te deitou na sua cama, e te
soprou nos cabelos o seu hálito frio,

e te embalou às escuras com uma
canção de vidro em que as aves se
enamoravam das próprias sombras

e, procurando-se em vão nas águas
turvas de um poço, não sabiam que
apenas mergulhavam lentamente, muito
lentamente, na memória do vento.


Maria do Rosário Pedreira, in Poesia Reunida, Quetzal poesia, 2012, 1ª ed., p. 207

25 de janeiro de 2014

Palavras no ar

São horas de voltar

Ilustração de Camiluna


São horas de voltar. Tu já não vens, e a espera

gastou a luz de mais um dia. Agora, quem passar

trará um corpo incerto dentro do nevoeiro,

mas terá outro nome e outro perfume. Eu volto



à casa onde contigo se demorou o verão e arrumo

os livros, escondo as cartas, viro os retratos

para a mesa. Sei que o tempo se magoou de nós,

sei que não voltas, e ouço dizer que as aves

partem sempre assim, subitamente. Outras virão



em março, apago as luzes do quarto, nunca as mesmas.




Maria do Rosário Pedreira, in Poesia Reunida, Quetzal poesia, 2012, 1ª ed., p. 75

24 de janeiro de 2014

Antes de um lugar há o seu nome

Ilustração de Olga Kvasha

Antes de um lugar há o seu nome. E ainda

a viagem até ele, que é um outro lugar

mais descontínuo e inominável.


Lembro-me


do quadriculado verde das colinas,

do sol entretido pelos telhados ao longe,

dos rebanhos empurrados nos carreiros,

de um cão pequeno que se atreveu à estrada.



Íamos ou vínhamos?





Maria do Rosário Pedreira, in Poesia Reunida, Quetzal poesia, 2012, 1ª ed., p. 35

23 de janeiro de 2014

Outra voz


Ilustração de Christian Asuh


Ela não pediu esse silêncio. Mas também nada fez

para defender-se dele ou dominá-lo. Quando entrou,

a casa tinha-se calado de repente, as coisas dele

tinham mudado de lugar, desaparecido, e não importava

que tivesse sido ela própria a escondê-las, de véspera,

na arca das lãs que só voltaria a abrir no inverno.


Ela não quis conhecer esse silêncio. Soube apenas

que não voltaria a ouvir a voz dele

no espelho do seu quarto ― a outra voz.


Ilustração de Andrei Zadorine
Sentou-se no chão e abriu um pequeno livro de capa azul.

Naquele fim de tarde, só mesmo os livros podiam dizer

algo mais que o silêncio ― essa outra voz.


  
Maria do Rosário Pedreira, in Poesia Reunida, Quetzal poesia, 2012, 1ª ed., p. 29 

21 de janeiro de 2014

Tardávamos diante das palavras

Ilustração de autor desconhecido


Tardávamos diante das palavras, como se os olhos

fossem cegar sobre as páginas que não acabávamos

de ler só para fazer durar o engano, o livro, o tempo

de todas as leituras. Guardávamos silêncio



à cabeceira. E cruzávamos de noite os dedos

à procura da luz que emanasse de um seio, da onda

do cabelo sobre a orelha, dos ombros, da cintura,

do começo dos lábios. Normalmente, achávamos apenas

a sombra da roupa na curva dos joelhos, a penumbra

entre os nossos corpos quietos e deitados.


Ilustração de Evangelina Prieto

É nas linhas das mãos que os deuses escrevem

os mais belos romances. Nas nossas, porém, somente

elaboraram um divertimento, um esboço, um rascunho,

nem sequer literatura.


Maria do Rosário Pedreira, in Poesia Reunida, Quetzal poesia, 2012, 1ª ed., p. 63

Acordai!



Acordai
acordai
homens que dormis
a embalar a dor
dos silêncios vis
vinde no clamor
das almas viris
arrancar a flor
que dorme na raíz

Acordai
acordai
raios e tufões
que dormis no ar
e nas multidões
vinde incendiar
de astros e canções
as pedras do mar
o mundo e os corações

Acordai
acendei
de almas e de sóis
este mar sem cais
nem luz de faróis
e acordai depois
das lutas finais
os nossos heróis
que dormem nos covais
Acordai!

José Gomes Ferreira (letra)
Fernando Lopes Graça (música)
Coro Ricercare

20 de janeiro de 2014

Noitadas

Ilustração de Lee Misook 

Os adolescentes, para terem êxito e se sentirem bem, precisam de uma vida organizada. As noitadas e os regressos de madrugada, com álcool e drogas, têm um risco sério de acidentes.
É estúpido morrer na estrada na flor da vida


Teresa Paiva, in Bom sono, boa vida, Oficina do Livro, 2008, 2ª ed. p. 214

19 de janeiro de 2014

Hábitos de sono

Ilustração de Muriel Kerba

Um bebé deve adquirir hábitos de sono desde que nasce.

Teresa Paiva, in Bom sono, boa vida, Oficina do Livro, 2008, 2ª ed. p. 192

18 de janeiro de 2014

Organizar o sono

Ilustração de Laimonas Smergelis

A criança deve ser ensinada desde que nasce a ter hábitos regulares de sono, mas a organização necessária varia com a idade. 



Teresa Paiva, in Bom sono, boa vida, Oficina do Livro, 2008, 2ª ed. p. 207


17 de janeiro de 2014

Dormir, para quê?

Ilustração de Viviana Garofoli

Há muito na vida para além do trabalho, e a privação voluntária de sono, com o tempo, torna-se caro. 

Teresa Paiva, in Bom sono, boa vida, Oficina do Livro, 2008, 2ª ed. p.75

14 de janeiro de 2014

Reciclagem verbal

Ilustração de Afonso Cruz


Comunicou-me a pessoa do 8A: Aproveito o lixo para fazer coisas novas, como candeeiros, canteiros, lavatórios e muito mais, que é assim que o universo faz as coisas. Por exemplo, com a palavra lama podemos fazer a palavra alma.
Parece magia, comuniquei eu. Mostre-me as suas mãos.

Afonso Cruz, in Assim mas sem ser assim - Considerações de um misantropo, Caminho, 2013, p. 16  

13 de janeiro de 2014

Do outro lado dos pés

Ilustração de Afonso Cruz


Não há melhor pôr-do-sol do que aquele que se vê do outro lado dos pés.

Afonso Cruz, in Assim mas sem ser assim - Considerações de um misantropo, Caminho, 2013, p. 18



12 de janeiro de 2014

As gaivotas

Ilustração de Alice Tams 


As gaivotas. Vão e vêm. Entram

pela pupila.

Devagar, também os barcos entram.

Por fim o mar.

Não tardará a fadiga da alma.

De tanto olhar, tanto

olhar.

Eugénio de Andrade, in Rente ao dizer

O olhar

Ilustração de Claude Theberge

Eu sentia seus olhos beber os meus;

longamente bebiam, bebiam;

bebiam

até não me restar nas órbitas nenhuma

luz, nenhuma água,

nem sequer o sinal de neles ter chovido

naquele inverno.

Eugénio de Andrade, in Rente ao Dizer

10 de janeiro de 2014

Humor de Mandela

Ilustração de Eric Comstock

Sabe, eu gosto que as pessoas estejam descontraídas pois, mesmo quando se está a discutir um assunto sério, a descontracção é muito importante porque nos encoraja a pensar; é por isso que gosto de dizer piadas, mesmo quando estou a examinar situações difíceis. Porque, quando as pessoas estão descontraídas, elas conseguem pensar como deve ser.


The Nelson Mandela Foundation in As palavras de Nelson MandelaObjectiva, 2012, 1ª ed., p. 199

8 de janeiro de 2014

Filosofia do amor

Ilustração de Mariana Kalacheva


Enquanto esperas que te dêem o troco, 
tomo nota do teu perfil sob a cortina
dos cabelos recortados na linha em que testa
e sobrancelhas se juntam, deixando apenas
um fragmento de pele por entre uma 
breve abertura da franja. Aí,
nesse caminho entre o balcão e a mesa,
trazendo o tabuleiro em que pousaste
o copo e a bebida, atravessas a fronteira
entre o espaço de um desenho abstracto,
que comecei no caderno da minha cabeça,
e a realidade de um fim de tarde que me 
Ilustração de Suzanne Carpenter
fez pensar na definição filosófica
do amor como pura disjunção, ou seja,
essa dissociação que os filósofos fazem
da unidade dos amantes, o que 
os leva a considerar que tudo nasce
da diferença, da separação
entre um e o outro. Mas enquanto bebias
o sumo, sentia-o correr na minha garganta,
como se a vida fosse uma prova do
contrário do que dizem os filósofos, pelo
menos neste preciso ponto em que
nos sentimos um como o outro.

  Nuno Júdice, in Navegação de acaso, D. Quixote, 2013, p. 24

7 de janeiro de 2014

O silêncio mais profundo

Ilustração de Mike Worral


Não creio que exista no mundo um silêncio mais profundo que o silêncio da água.

José Saramago, in As pequenas memórias, Caminho, 2006, p.86

5 de janeiro de 2014

A estrela

Eu caminhei na noite
Entre silêncio e frio
Só uma estrela secreta me guiava

Ilustração de Eva Vásquez
Grandes perigos na noite me apareceram
Da minha estrela julguei que eu a julgara
Verdadeira sendo ela só reflexo
De uma cidade a néon enfeitada

A minha solidão me pareceu coroa
Sinal de perfeição em minha fronte
Mas vi quando no vento me humilhava
Que a coroa que eu levava era de um ferro
Tão pesado que toda me dobrava

Do frio das montanhas eu pensei
“Minha pureza me cerca e me rodeia”
Porém meu pensamento apodreceu
E a pureza das coisas cintilava
E eu vi que a limpidez não era eu

E a fraqueza da carne e a miragem do espírito
Em monstruosa voz se transformaram
Disse às pedras do monte que falassem
Mas elas como pedras se calaram
Sozinha me vi delirante e perdida
E uma estrela serena me espantava

E eu caminhei na noite minha sombra
De desmedidos gestos me cercava
Silêncio e medo
Nos confins desolados caminhavam
Então eu vi chegar ao meu encontro
Aqueles que uma estrela iluminava


Ilustração de Jan Pashley

E assim eles disseram: “Vem connosco
se também vens seguindo aquela estrela”
Então soube que a estrela que eu seguia
era real e não imaginada

Grandes noites redondas nos cercaram
Grandes brumas miragens nos mostraram
Grandes silêncios de ecos vagabundos
Em direcções distantes nos chamaram
E a sombra dos três homens sobre a terra
Ao lado dos meus passos caminhava
E eu espantada vi que aquela estrela
Para a cidade dos homens nos guiava

E a estrela do céu parou em cima
De uma rua sem cor e sem beleza
Onde a luz tinha a cor que tem a cinza
Longe do verde azul da natureza

Ali não vi as coisas que eu amava
Nem o brilho do sol nem o da água

Ao lado do hospital e da prisão
Entre o agiota e o templo profanado
Onde a rua é mais triste e mais sozinha
E onde tudo parece abandonado
Um lugar pela estrela foi marcado


Ilustração de Jan Pashley

Nesse lugar pensei: “Quanto deserto
Atravessei para encontrar aquilo
que morava entre os homens e tão perto”


Sophia de Mello Breyner, Livro Sexto II A Estrela, in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 405

Reis Magos ou Menino Jesus?

Ilustração de Carolina Aloy
Nesse tempo os Reis Magos ainda não existiam (ou sou eu que não me lembro deles) nem havia o costume de armar presépios com a vaca, o burro e o resto da companhia. Pelo menos na nossa casa. Deixava-se à noite o sapato ("o sapatinho") na chaminé, ao lado dos fogareiros de petróleo, e na manhã seguinte ia-se ver o que o Menino Jesus lá teria deixado. Sim, naquele tempo era o Menino Jesus quem descia pela chaminé, não ficava deitado nas palhinhas, de umbigo ao léu, à espera de que os pastores lhe levassem o leite e o queijo, porque disto, sim iria precisar para viver, não do ouro-incenso-e-mirra dos magos, que, como se sabe, só lhe trouxeram amargos de boca.

José Saramago, in As pequenas memórias, Caminho, 2006, p. 114

4 de janeiro de 2014

Proposta

Ilustração de Luís Silva

Há um certo traço de exactidão
nos adjectivos que procuro com
o aparo da palavra. A tinta fixa
o perfil do rosto com um som
de vogais mais claras, e é como se
ouvisse o riso que se solta da
boca ao ouvir a expressão desta
ideia. Mas também uso a régua
do verso para que a imagem fique
a direito na página, e nenhum risco
perturbe o desenho. O papel está
no fim, o edifício, o poema, ou
esse objecto artesanal que sai
perfeito das mãos do oleiro, é
afiado pela consciência de
que só o que é exacto sobrevive
no ouvido e canta, com a lentidão
com que se faz o amor, a concepção
da beleza que aqui permanece.


  Nuno Júdice, in Navegação de acaso, D. Quixote, 2013, p. 80

3 de janeiro de 2014

A manhã do poema

Ilustração de Marie Cardouat 


Nasceu de uma colheita de espumas azuis, e 
encho a cesta do horizonte com as espigas maduras
do seu coral submerso. Como as asas decepadas
das grandes aves que se ferem numa combustão
de nuvens, as palavras caem no chão da estrofe
para que as separe, e junte as que conservaram
o sopro húmido da tua voz ao som das foices
que avançam contra o sol, desbastando a folhagem
da memória. Em vez de correr contra o tempo,
separo de entre esses ramos de imagens aquelas que
me ditaram os versos mais obscuros, a luz
de acaso que deles surgia, em cintilações de sílaba,
e um reflexo de madrugada na face liberta
de uma lenta sombra. E carrego essa cesta
como se regressasse de uma vindima de emoções,
seguindo o ritmo da frase que se escreve
na interrupção das vagas, e o vento derramou
no ouvido dos amantes.


                       Nuno Júdice, in Navegação de acaso, D. Quixote, 2013, p. 72

2 de janeiro de 2014

Tecer bailados


Ilustração de Marie Cardouat 

Quem como eu em silêncio tece
Bailados, jardins e harmonias?
Quem como eu se perde e se dispersa
Nas coisas e nos dias?

Sophia de Mello Breyner, Dia do Mar IV, in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 120

1 de janeiro de 2014

As flores

Ilustração de Marie Cardouat

Era preciso agradecer às flores
Terem guardado em si,
Límpida e pura,
Aquela promessa antiga
De uma manhã futura.

Sophia de Mello Breyner Andresen, No tempo dividido, in Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 293