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31 de dezembro de 2014

Viajar! Perder países!

Ilustração de Basia Konczarek


Viajar! Perder países! 
Ser outro constantemente, 
Por a alma não ter raízes 
De viver de ver somente! 

Não pertencer nem a mim! 
Ir em frente, ir a seguir 
A ausência de ter um fim, 
E a ânsia de o conseguir! 

Viajar assim é viagem. 
Mas faço-o sem ter de meu 
Mais que o sonho da passagem. 
O resto é só terra e céu.


Fernando Pessoa

30 de dezembro de 2014

Criar o leitor

Ilustração de Shinya Okayama

Cada palavra pronunciada supõe o ouvinte, cada palavra escrita o leitor: criar também este é a parte encoberta, mas a mais importante da acção do escritor.



 Hugo Von Hofmannsthal, in Livro dos Amigos

27 de dezembro de 2014

O tigre e os morangos

Há algum tempo atrás, um homem que estava a caminhar pelo campo encontrou um tigre.

Assustado, começou a correr e o tigre correu atrás dele.

Ilustração de Mariam Ben-Arab
Aproximou-se de um precipício, pegou nas raízes expostas de um arbusto selvagem e pendurou-se, precipitadamente, para baixo. O tigre farejava-o. Tremendo de medo, o homem olhou para baixo e viu, no fundo do precipício, outro tigre à sua espera. Só estava agarrado pela raiz do arbusto.


Porém, ao olhar para a planta, descobriu uns morangos, mesmo ali ao lado.

Ilustração de Wojtek Kowalczyk 
Então o homem segurou a raiz só com uma mão e, com a outra, pegou nos morangos, comeu-os e exclamou:

- Que delícia!


(Conto Zen)

26 de dezembro de 2014

Amigos

Ilustração de Mariusz Stawarski


Uma pessoa tem alguns amigos menos do que supõe e alguns mais do que conhece.



 Hugo Von Hofmannsthal, in Livro dos Amigos

25 de dezembro de 2014


Enquanto ali se encontravam, chegou o dia de ela dar à luz e teve o seu Filho primogénito.

Envolveu-O em panos e deitou-O numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria. 


Ilustração de Faruffa



Havia naquela região uns pastores que viviam nos campos e guardavam de noite os rebanhos. 
O Anjo do Senhor aproximou-se deles, e a glória do Senhor cercou-os de luz; e eles tiveram grande medo. 
Disse-lhes o Anjo: «Não temais, porque vos anuncio uma grande alegria para todo o povo: nasceu-vos hoje, na cidade de David, um Salvador, que é Cristo Senhor. Isto vos servirá de sinal: encontrareis um Menino recém-nascido, envolto em panos e deitado numa manjedoura». 

Lucas 2, 6-12

Uma grande luz


Ilustração de Nino Chakvetadze

O povo que andava nas trevas
viu uma grande luz; 
habitavam numa terra de sombras,
mas uma luz brilhou.


Isaías 9, 1

24 de dezembro de 2014

23 de dezembro de 2014

Encontro homem - mundo

Ilustração de Blue Palette

O Homem só se apercebe, no mundo, daquilo que em si já se encontra; mas precisa do mundo para se aperceber do que se encontra em si; para isso são, porém, necessários actividade e sofrimento.


                                                                                          Hugo Von Hofmannsthal, in Livro dos Amigos

21 de dezembro de 2014

À procura do burro

Ilustração de Dainius Šukys 
Toda a gente se assustou ao ver Mullah Nasrudin a percorrer apressadamente as ruas da aldeia, montado no seu burro.

"Onde vais, Mullah?", perguntaram-lhe.

"Estou à procura do meu burro", respondia Nasrudin, quando passava.






Certa ocasião, algumas pessoas vieram ter com Rinzai, o Mestre de Zen, à procura do seu próprio corpo. Ele fez com que desatassem a rir os seus mais estúpidos discípulos.


Ilustração de Grzegorz Ptak

Vinha alguns, preocupados, à procura de Deus! 


Anthony de Mello, s.j., in El Canto del pájaro (trad. e adapt.)

18 de dezembro de 2014

Sacode as nuvens que te poisam nos cabelos


ILustração de Jan Kudláček

Sacode as nuvens que te poisam nos cabelos, 
Sacode as aves que te levam o olhar,
Sacode os sonhos mais pesados do que as pedras. 


Porque eu cheguei e é tempo de me veres, 
Mesmo que os meus gestos te trespassem 
De solidão e tu caias em poeira, 
Mesmo que a minha voz queime o ar que respiras 
E os teus olhos nunca mais possam olhar. 


Sophia de Mello Breyner Andresen, in Coral, Obra Poética, Caminho, 2011, 2ª ed., p. 187 


17 de dezembro de 2014

Imitação do divino

Ilustração de Annika Hiltunen



Uma obra de arte tem um autor, e no entanto, quando é perfeita, possui algo de essencialmente anónimo. 

Imita o anonimato da arte divina.

             
Simone Weil, in A gravidade e a graça, Relógio d' Água, 2004, p. 149


16 de dezembro de 2014

O belo, o instante e o eterno

A beleza é a harmonia entre o acaso e o bem.

Ilustração de Annika Hiltunen

O belo encerra, entre outras uniões de contrários, a do instante e do eterno.

Simone Weil, in A gravidade e a graça, Relógio d' Água, 2004, p. 148





15 de dezembro de 2014

O que valem as palavras

As mesmas palavras (ex., um homem diz à sua mulher: amo-vos) podem ser vulgares ou extraordinárias, segundo o modo como são pronunciadas. E este modo depende da profundidade da região do ser de onde procedem, sem que a vontade possa fazer algo contra isso. 

Ilustração de Lyudmila Romanova 

E, por meio de uma harmonia maravilhosa, vão tocar, naquele que escuta, a mesma região. Assim, aquele que escuta pode discernir, se tiver discernimento, o que valem aquelas palavras.

Simone Weil, in A gravidade e a graça, Relógio d' Água, 2004, p. 70  

12 de dezembro de 2014

Mapa de odores

Ilustração de Aurélie Blanz 



O odor fica a ser assim uma espécie de mapa, uma fonte íntima de conhecimento.


Tolentino Mendonça, in A mística do instante – O tempo e a promessa, Paulinas, 2014, col. Poéticas do viver crente , p. 116

10 de dezembro de 2014

O odor único e irrepetível

Ilustração de Bella Sinclair
O odor é volátil, só conseguimos falar dele por metáforas, mas, na verdade, nada tem de abstrato. A sua volatilidade destina-se a materializar-se. Quando alguém derrama sobre a sua pele umas gotas de perfume, o mesmo perfume, fabricado pela indústria em quantidades colossais, passa a ser apenas seu. Torna-se a sua exalação. O corpo torna os perfumes irrepetíveis, pois absorve-os e reprodu-los de uma forma que é só sua. 


Tolentino Mendonça, in A mística do instante – O tempo e a promessa, Paulinas, 2014, col. Poéticas do viver crente , pp. 115-116

9 de dezembro de 2014

O odor do instante

Ilustração de Auréie Blanz

Cada instante tem o seu odor. Cada estação. Cada pessoa. O odor imprime tonalidades afetivas a um instante que queremos distinguir de outro.


Tolentino Mendonça, in A mística do instante – O tempo e a promessa, Paulinas, 2014, col. Poéticas do viver crente , p. 115


8 de dezembro de 2014

Sem lentidão não há paladar


Ilustração de Andy Kehoe

Tolentino Mendonça, in A mística do instante – O tempo e a promessa, Paulinas, 2014, col. Poéticas do viver crente , p. 105

7 de dezembro de 2014

A pressa

Ilustração de Bella Sinclair

A pressa dá-nos (...) uma impressão de si que é fictícia. Ao contrário do que parece, o seu aliado é o esquecimento, não a memória. Tudo passou no mesmo galope com que entrou.

Tolentino Mendonça, in A mística do instante – O tempo e a promessa, Paulinas, 2014, col. Poéticas do viver crente , p. 106

A lentidão

Ilustração de Aaron Ayumi Piland 



Quando as coisas acontecem depressa demais, ninguém pode ter certeza de nada, de coisa nenhuma, nem de si mesmo.




Milan Kundera, in A lentidão

6 de dezembro de 2014

A experiência do amor


Ilustração de Aaron Ayumi Piland 


Não é a culpa ou a autoflagelação que nos converte. Transforma-nos, sim, a experiência do amor (...). É no confronto com esse amor que mudamos. E por isso a única solidão na qual podemos confiar é a solidão que nos encaminha devagarinho para uma fonte.

Tolentino Mendonça, in A mística do instante – O tempo e a promessa, Paulinas, 2014, col. Poéticas do viver crente , p. 109

5 de dezembro de 2014

Devagarinho até à fonte

Ilustração de Ann Ernández
- Bom dia - disse o principezinho.
- Bom dia - disse o comerciante.
Era um comerciante de pílulas para matar a sede. Toma-se uma por semana e não se tem necessidade de beber.
- Por que vendes isso? - perguntou o principezinho.

- É uma grande economia de tempo - respondeu o comerciante. - Os peritos fizeram cálculos. Poupam-se cinquenta e três minutos por semana.
- E que se faz com cinquenta e três minutos?
- Faz-se o que se quiser...

Ilustração de Kim Minji

- Eu - disse o principezinho, de si para si -, se tivesse cinquenta e três minutos à minha disposição, ia a pé, devagarinho, até alguma fonte... 


Antoine de Saint-Exupéry, in O Principezinho


3 de dezembro de 2014

A vida é o que permanece

Ilustração de Chris Van Allsburg

Há um trabalho a fazer para passar do apego narcisista a uma idealização da vida, à hospitalidade da vida como ela nos assoma, sem mentira e sem ilusão, o que requer de nós um amor muito mais rico e difícil. Esse que é, em grande medida, um trabalho de luto, um caminho de depuração, sem renunciar à complexidade da própria existência, mas aceitando que não se pode demonstrá-la inteiramente.



Ilustração de Mika Nitta


A vida é o que permanece, apesar de tudo: a vida embaciada, minúscula, imprecisa e preciosa como nenhuma outra coisa. A sabedoria é a vida mesma: o real do viver, a existência não como trégua, mas como pacto, conhecido e aceite na sua fascinante e dolorosa totalidade.

                                             Tolentino Mendonça, in A mística do instante – O tempo e a promessa, Paulinas, 2014, col. Poéticas do viver crente , pp. 112-113

2 de dezembro de 2014

O que é um abraço?

Ilustração de Bella Sinclair
     
Se calhar, a primeira forma do primeiro abraço que demos era apenas um agarrar-se para não cair. Porém, pouco a pouco, num processo paciente onde os corpos fazem a aprendizagem de si (e do amor), o abraço deixa de ser uma coisa que tu me dás ou que eu te dou, e surge como um lugar novo, um lugar que ainda não existia no mundo e que juntos encontramos.



Tolentino Mendonça, in A mística do instante – O tempo e a promessa, Paulinas, 2014, col. Poéticas do viver crente , p. 82

1 de dezembro de 2014

Anorexia de afetos

Ilustração de Shinya Okayama

Há um filme de Ingmar Bergman em que uma das personagens é uma rapariga anoréxica - e sabemos como a anorexia é um tipo de desinvestimento vital, que podemos tomar como símbolo de tantos outros. A rapariga vai falar com um médico e ele diz-lhe mais ou menos isto, que também vale para nós: "Olha, há só um remédio para ti, só vejo um caminho: em cada dia, deixa-te tocar por alguém ou por alguma coisa".


Tolentino Mendonça, "Deixa-te tocar"in A mística do instante – O tempo e a promessa, Paulinas, 2014, col. Poéticas do viver crente , pp. 67-68

24 de novembro de 2014

Secretária desarrumada



Gosto de ter a secretária desarrumada. Recortes de jornais, contas por pagar, cartas, papéis com recados, notas, relatórios, fotografias formam um padrão que me desenvolve o raciocínio.

Ilustrações de Juri Romanov

Miguel Miranda, in Dai-lhes, Senhor, o eterno repouso, Porto Editora, 2011, 1ª ed., p. 12

22 de novembro de 2014

A pantera e o oftalmologista

Ilustração de Lim Heng Swee
- O seu caso não é para operar.

(...)

- Mas vai passar a ser. Quero um transplante de olhos. Pago o que for preciso.
Ela era doida, não havia dúvida nenhuma.

- Não. Para quê? É perfeitamente normal. Estas coisas não funcionam assim, há uma ética médica. O dinheiro não compra tudo.

- Ora, ora. Deixe-se de tretas. Se eu quiser uma cara, um nariz, umas mamas novas, isso é aceitável. Uns olhos novos não, porquê?

(...)

- E não quero uns olhos quaisquer. Quero que me transplante olhos de pantera.

                           
Miguel Miranda, "A pantera e o Oftalmologista", in A fome do licantropo e outras histórias
Porto Editora, 2014, 1ª ed., p. 99

12 de novembro de 2014

Andar acalma

Andar acalma. A marcha possui uma virtude salutar.

Ilustração de Alberto Ruggieri

O ato de colocar regularmente um pé à frente do outro, acompanhado pelo balançar cadenciado dos braços, a aceleração do ritmo respiratório, a ligeira estimulação do pulso, as atividades da vista e do ouvido necessárias à manutenção do equilíbrio - são ações que impelem o corpo e o espírito para uma convergência irresistível, permitindo que a alma, por muito atrofiada e traumatizada que esteja, cresça e se expanda.

                                                                    Patrick Süskind, in A pomba, Ed. Presença, 2014, 9ª ed., p. 81

9 de novembro de 2014

A pomba

Ilustração de Greg Becker

Quando lhe aconteceu isto da pomba, que de um dia para o outro mudou radicalmente a sua existência, já Jonathan Noel estava com mais de cinquenta anos, havia uns bons vinte anos que levava uma vida igual e sem incidentes e nunca lhe teria passado pela cabeça que ainda lhe pudesse vir a acontecer qualquer coisa de importante senão morrer. E dava-se por muito satisfeito com a sua sorte, pois não gostava de acontecimentos e detestava em particular aqueles que lhe abalavam o equilíbrio interior e perturbavam a ordem externa da vida.

Patrick Süskind, in A pomba, Ed. Presença, 2014, 9ª ed.,p.7

8 de novembro de 2014

O doutor queijo

Ilustração de Kristian Adam


Ela apreciou o especialista. O doutor Roquefort era um homem minúsculo, de cabeça rapada e olhos em fenda, como um monge budista. Tinham-lhe dito que era o melhor, porém, a sua figura era tudo menos impressionante. Se ao menos tivesse cabelos brancos, talvez irradiasse mais sabedoria e incutisse mais confiança. Uma dúvida insidiosa instalava-se nela, seria ele mesmo bom? Gostava de confiar, mas o primeiro impacto não era impressionante. Um médico com nome de queijo, era o que ele era.



             Miguel Miranda, "A pantera e o Oftalmologista", in A fome do licantropo e outras históriasPorto Editora, 2014, 1ª ed., p. 95

6 de novembro de 2014

O penetra

- Olha a fila, ó penetra!
- É preciso ter lata!
- Entrar assim de calçadeira, à frente de todos!
- Penetra! Seu penetra!


Ilustração de Ellie Horie
O autocarro arrancou e ele sorriu, o dia começava bem.
Saiu duas paragens adiante, sem pagar bilhete. Aplicou o mesmo golpe mais duas vezes e foi andando, sem gastar uma moeda e passando à frente de todos os cordatos passageiros em espera nas paragens.
- Penetra!


Miguel Miranda, "O Penetra compulsivo", in A fome do licantropo e outras histórias, Porto Editora, 2014, 1ª ed., p. 104 


4 de novembro de 2014

Privacidade

O que é o privado nos nossos dias? 


Uma das involuntárias consequências da revolução informática é ter volatilizado as fronteiras que o separavam do público e ter confundido ambos num happening em que todos somos ao mesmo tempo espectadores e atores, no qual nos mostramos reciprocamente exibindo a nossa vida privada e nos divertimos observando a alheia, num strip tease generalizado em que nada já ficou a salvo da mórbida curiosidade de um público depravado pela idiotice.



Ilustração de Daria Petrilli

O desaparecimento do privado, o facto de ninguém respeitar a intimidade alheia, ela ter-se convertido numa paródia que excita o interesse geral e haver uma indústria informativa que alimenta sem tréguas e sem limites esse voyeurismo universal, é uma manifestação de barbárie. Pois com o desaparecimento do domínio do privado muitas das melhores criações e funções do humano deterioram-se e aviltam-se, começando por tudo aquilo que está subordinado ao cuidado de certas formas, como o erotismo, o amor, a amizade, o pudor, as maneiras, a criação artística, o sagrado e a moral.

Mario Vargas Llosa (2012), in A civilização do espetáculo, Quetzal, pp. 150-151

3 de novembro de 2014

O tamanho da mala

Podemos estar a viajar vida fora com uma mala pequena ou uma mala grande. Não conta o tamanho das malas. Se elas estão cheias, porque são realmente pequenas ou porque nós a tornamos assim, teremos de retirar delas alguma coisa se quisermos colocar outras novas no seu lugar. E acontece passarmos a vida nisso: acumulando, esvaziando, acumulando. 

Ilustração de Wonil Suh

A frugalidade não depende do tamanho da mala. 


Ilustração de Jacek Yerka


O viajante frugal é aquele que tomou a decisão prévia de transportar consigo o essencial, deixando sempre na sua bagagem um espaço disponível.   


José Tolentino Mendonça, in A mística do Instante - o tempo e a promessa, Ed. Paulinas, 2014, 
1ª ed., pp. 99-100

2 de novembro de 2014

Os amigos morrem-nos


Os amigos não morrem simplesmente:



morrem-nos, uma força atroz mutila-nos da sua companhia e continuamos a viver com esses vazios entre os ossos.




Luis Sepúlveda, "Jantar com poetas mortos" in A Lâmpada de Aladino e outras histórias para vencer o esquecimento, Porto Editora, 2008, 1ª ed., p. 29

1 de novembro de 2014

O que é a frugalidade?

...a frugalidade não se confunde com a pobreza. 

Ilustração de Abigail Halpin








O que é então a frugalidade? É a escolha do pouco, de viver com pouco, procurando encontrar aí, ou retirar daí, o máximo sentido. 








Ilustração de Marc Potts

A frugalidade desprende-se, distancia-se, ganha consciência crítica, não abdica da sua liberdade. A frugalidade é um estilo. Há uma frase de Henry David Thoreau que a ilumina especialmente. E ela diz: "A riqueza de um homem é proporcional não ao número de bens que ele pode possuir, mas ao número de coisas a que ele pode renunciar".


José Tolentino Mendonça, in A mística do Instante - o tempo e a promessa, Ed. Paulinas, 2014, 1ª ed., pp. 98-99

31 de outubro de 2014

Romeu e Julieta

Ilustração de Gabriela Andrade

Romeu da Baviera era duque; Julieta apenas bela. Como muitas vezes, o poder ajoelhou-se frente à beleza; como sempre, a beleza fingiu resistir, mas logo se rendeu.

Gonçalo M. Tavares, A História de Julieta, a santa da Baviera, in Histórias Falsas, Caminho, 2014, 7ª ed., p. 15

28 de outubro de 2014

A Bíblia é para comer

Ilustração de Fabián Rivas

Literalmente, a Bíblia é para comer.


José Tolentino Mendonça, in A mística do Instante - o tempo e a promessa, Ed. Paulinas, 2014, 1ª ed., p. 85

25 de outubro de 2014

São piores os homens que os corvos

Ilustração de Debi Hubbs

São piores os homens que os corvos. O triste que foi à forca, não o comem os corvos senão depois de executado e morto; e o que anda em juízo, ainda não está executado nem sentenciado e já está comido. 


Pe. António Vieira, Sermão de Santo António aos peixes

24 de outubro de 2014

Corvos

Ilustração de Debi Hubbs




Eu gosto de corvos. São pássaros anunciadores, transmitem-me premonições. Já não aprecio homens-corvo, não sei bem porquê. São arautos de desgraça.



Miguel Miranda, in Dai-lhes, Senhor, o eterno repouso, Porto Editora, 2011, 1ª ed., p. 30

23 de outubro de 2014

Cabeça em ovo de avestruz

Ilustração de Victoria Kirdy


O senhor Ruela, o vendedor e putativo dono do estabelecimento, era um homem com cabeça em ovo de avestruz, que falava sem mover os lábios, como um ventríloquo.




Miguel Miranda, in Dai-lhes, Senhor, o eterno repouso, Porto Editora, 2011, 1ª ed., p. 12-13