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26 de fevereiro de 2013

um dia, quando a ternura for a única regra da manhã

Ilustração de George Tooker

um dia, quando a ternura for a única regra da manhã, 
acordarei entre os teus braços. a tua pele será talvez demasiado bela. 
e a luz compreenderá a impossível compreensão do amor. 
um dia, quando a chuva secar na memória, quando o inverno for 
tão distante, quando o frio responder devagar com a voz arrastada 
de um velho, estarei contigo e cantarão pássaros no parapeito da
nossa janela. sim, cantarão pássaros, haverá flores, mas nada disso
será culpa minha, porque eu acordarei nos teus braços e não direi 
nem uma palavra, nem o princípio de uma palavra, para não estragar 
a perfeição da felicidade. 

José Luís Peixoto, in A Criança em ruínas


 

A concha

A minha casa é concha. Como os bichos.
Segreguei-a de mim com paciência:

Fachada de marés, a sonhos e a lixos,
O horto e os muros só areia e ausência. 

Minha casa sou eu e os meus caprichos. 
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.

E telhados de vidro, e escadarias
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso! 
Lareira aberta pelo vento, as salas frias.

Ilustração de Hajin Bae

A minha casa... Mas é outra a história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória. 

Vitorino Nemésio