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28 de novembro de 2013

Porta ou sorriso?

Ilustração de Noma Bliss e Jim Bliss

...e Mathias Popa abriu a porta sem abrir um sorriso.


Afonso Cruz, in A Boneca de Kokoschka, Quetzal, 2010, p.80

27 de novembro de 2013

Verdade e mentira

Ilustração de Toni Demuro

Não existe mentira na literatura, na ficção, e, digo-lhe mais, não existe verdade na vida real. Se perceber isto muito bem, perceberá muito mais coisas.

                                                       Afonso Cruz, in A boneca de Kokoschka, Quetzal, 2010, p. 83




25 de novembro de 2013

Poesia rejeitada

Ilustração de Alexandra Semushina

Peguei na minha obra toda, mais de quatro mil páginas A4, e enterrei tudo num terreno baldio perto de casa. Nessa altura vivia no Cairo. Depois de ter enterrado aquilo cresceram umas ervinhas, mesmo onde eu tinha escavado. Fiquei contente porque não tinha crescido nada à volta, só onde enterrei os poemas. Não sei se foi de ter revolvido a terra, ou se foi a Natureza a demonstrar a sua inclinação pela poesia, especialmente pela rejeitada.

Afonso Cruz, in A boneca de Kokoschka, Quetzal, 2010, p. 83

24 de novembro de 2013

O elogio da confiança (1)

Ilustração de Laimonas Šmergelis



Por pátios e jardins silenciosos
se chega ao lugar
da contemplação


Tolentino Mendonça, in A papoila e o monge, Assírio&Alvim, 2013, p. 55

22 de novembro de 2013

Frio

Ilustração de Gobugi Paper

Aquele dia era um casaco aberto ao frio.


Afonso Cruz, in A Boneca de Kokoschka, Quetzal, 2010,p. 75

20 de novembro de 2013

Silêncio e intimidade

Ilustração de Luis Romero


O que por palavras nos está oculto
no silêncio crepita
em intimidade

Tolentino Mendonça, in A papoila e o monge, Assírio&Alvim, 2013, p. 20

19 de novembro de 2013

Silêncio

Ilustração de Luis Romero


Silêncio:
na ravina inacessível
o prado em flor



Tolentino Mendonça, in A papoila e o monge, Assírio&Alvim, 2013, p. 37

18 de novembro de 2013

Silêncio vazio

Ilustração de Luis Romero



O silêncio só raramente é vazio
diz alguma coisa
diz o que não é

Tolentino Mendonça, in A papoila e o monge, Assírio&Alvim, 2013, p. 15

17 de novembro de 2013

Dança no universo

Ilustração de Marie Cardouat

















Estas folhas que estremecem na tarde
não sabem que dançam
à roda do universo


Tolentino Mendonça, in A papoila e o monge, Assírio&Alvim, 2013, p. 159


16 de novembro de 2013

Nuvens

Ilustração de Vladimir Olenberg


No ramo do marmeleiro

descubro nuvens

que não havia visto



Tolentino Mendonça, in A papoila e o monge, Assírio&Alvim, 2013, p. 112

14 de novembro de 2013

O que sabem os relógios?

Ilustração de Georgiana Chitac
Que infelicidade. Os dias esticam e ficam mais longos, o relógio diz que não, mas, com licença, o que sabem os relógios sobre a alma humana? (...)

O tempo demora mais a passar, muito mais, é assim que se sofre. Quando se está feliz, esse mesmo tempo passa a correr, parece que vai atrasado para uma festa, mas, se vê uma lágrima, pára e fica a ver o acidente, dá voltas à nossa desgraça e não anda para a frente como os relógios dizem que ele faz. 


Afonso Cruz, in Para onde vão os guarda-chuvas, Alfaguara, 2013, p.118

13 de novembro de 2013

Nas mãos do oleiro

Ilustração de Cecelia Webber

Nas mãos do oleiro
o universo descobre-se
inacabado



Tolentino Mendonça, in A papoila e o monge, Assírio&Alvim, 2013, p. 53

11 de novembro de 2013

Tornar-se poema

Ilustração de Marie Cardouat
Agora só resta
tornares-te
o poema


Tolentino Mendonça, in A papoila e o monge, Assírio&Alvim, 2013, p. 173


10 de novembro de 2013

O valor da migalha

Ilustração de Sonja Dimovska


A papoila e o monge, de José Tolentino Mendonça, é um livro de rara beleza poética e intrinsecamente espiritual. 
Um elogio à confiança, à abertura do olhar interior, à profundidade, à pobreza contemplativa, do não saber, da ignorância que despoja, abre horizontes e alarga a esperança. 
Um convite à valorização do ínfimo, da migalha, do único, do quotidiano que nos assiste. 
Um desafio à descoberta da manifestação divina na revelação e no furtivo; no rumor e no silêncio; no tudo e no nada.

Mª Carla Crespo

  

Interrogar a papoila

Ilustração de Marta Álvarez Miguéns


Podes interrogar a papoila
mas a papoila
nada responde



Tolentino Mendonça, 

in A papoila e o monge,

Assírio&Alvim, 2013, p. 28

Adeus

Ilustração de Sasha Ivoilova




Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro 
nada. 
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao
outro; 
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes 
verdes. 
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um 
aquário, 
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

Eugénio de Andrade, in Os Amantes do dinheiro

8 de novembro de 2013

Uma pequenina luz

 
Ilustração de Mila Marquis


Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumière
just a little light
una picolla... em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
aqui no meio de nós
entre o bafo quente da multidão
a ventania dos cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo dos que a não vêem
só a adivinham e raivosamente assopram.
Uma pequena luz
que vacila exacta
que bruxuleia firme
que não ilumina apenas brilha.
Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.
Muda como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Brilhando indeflectível.
Silenciosa não crepita
não consome não custa dinheiro.
Não é ela que custa dinheiro.
Não aquece também os que de frio se juntam.
Não ilumina também os rostos que se curvam.
Apenas brilha bruxuleia ondeia
indefectível próxima dourada.
Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.
Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.
Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.
Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não:
brilha.
Uma pequenina luz bruxuleante e muda
como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui
no meio de nós.
Brilha


Jorge de Sena

7 de novembro de 2013

Como uma princesa...

Parece que estamos num conto dos irmãos Grimm, disse Rebecca.
O pai afastou os olhos do caminho e sorriu-lhe.
Se fosse um conto dos irmãos Grimm...
Sim.
Tu estavas na casa, no final da alameda.
Como uma princesa.
Tu és uma princesa.

Ilustração de ariana Kalacheva
Desde muito cedo que ele lhe chamava a sua princesinha. Já não era novo quando ela nascera, e a morte da mulher algum tempo depois deixara-os sozinhos. A velha casa era o seu castelo, um castelo um pouco arruinado, com cortinados de veludo a que o tempo suavizara as cores, móveis e quadros que por vezes desapareciam misteriosamente, um longo jardim onde um único jardineiro se esforçava por manter algumas plantas, as azáleas debaixo das janelas, os rododendros nas alamedas, os nenúfares nos tanques, as campânulas brancas e os narcisos no relvado.

Ana Teresa Pereira, in O verão selvagem dos teus olhos, Relógio d'Água, 2008, 1ª ed., pp. 17-18

5 de novembro de 2013

Um silêncio cheio de pássaros

Pairava naquele lugar um silêncio cheio de pássaros.

Ana Teresa Pereira, in O verão selvagem dos teus olhos, Relógio d'Água, 2008, 1ª ed., p. 17


Ilustração de Debi Hubbs






4 de novembro de 2013

Chamo-me...Walt Disney

A história da minha vida não se fez apenas de fantasias animadas e de histórias com animais falantes: também teve alguns episódios mais obscuros e momentos em que tive atitudes pouco nobres.

Ilustração de Walt Disney

Mas isso, caros leitores, é o que define um ser humano. Podemos e devemos procurar a perfeição, mas sempre conscientes de que ela só existe nas histórias de encantar. Talvez por isso tenha escolhido precisamente essa herança de histórias e filmes animados para deixar ao mundo, acima de todas as outras.

Sara Figueiredo Costa, in Chamo-me... Walt Disney, Didáctica Editora, 2012, 1ªed., p. 5

2 de novembro de 2013

A cor do luto

Ilustração de Mayalen Goust

O sangue é (...) da cor da morte, nem sei porque é que quando morre alguém nos vestimos de preto, devia ser de vermelho, que é o corpo do avesso.


Afonso Cruz, in Para onde vão os guarda-chuvas, Alfaguara, 2013, p. 63

1 de novembro de 2013

Pensamento e floração

Ilustração de Rene Rickabaugh



O pensamento, tal como a floração, não é, certamente, senão a mais delicada evolução das forças plásticas - apenas a força universal da Natureza elevada à potência n da dignidade.

in Fragmentos de Novalis (seleção, tradução e desenhos de Rui Chafes), Assírio & Alvim, 2000, 2ª ed., p. 115