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14 de setembro de 2013

O conto do nadador

Ilustração de Alexandra Gallant



Então aguardaram pelo dia seguinte. Era um final de Agosto quente como não havia memória de semelhante. Os veraneantes costumavam sair de noite das exíguas casas dos pescadores e deitar-se ao relento, olhando as estrelas. Contudo, durante certa madrugada, muitos dos hóspedes tinham sido obrigados a recolher aos quartos onde sempre cheirava a polvo e a peixe seco. 












Aquela noite havia trazido mudança. O vento tinha passado a sudoeste e a maré alterosa havia batido com força no pequeno bar da praia. O dono do Hotel Paraíso lembra-se. O banho do meio-dia das raparigas tinha envolvido gritos altos, braços no ar como nunca antes. Os mailots ameaçavam rasgar-se. A areia havia-se introduzido por todas as costuras. A que escrevia cartas tinha saído de água com pedras entre os seios. 

Ilustração de Rebecca Kinkead

O mar permanecia quente, e a areia, escurecida pelo sol, abria-se em línguas por onde escorria água em regatos que alcançavam as ondas. De repente, calor e vento, unidos, faziam-se agrestes. Deveriam as raparigas, de tarde, passear naquele areal sem fim, onde costumava encontrar-se o homem do toalhão encarnado?


Lídia Jorge, "O conto do nadador", in Marido e outros contos, D. Quixote, 2008, 5ª ed., p. 134 


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