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2 de junho de 2013

Preparativos de viagem

Ilustração de Katsuo



Ao fazer a mala, tenho de pensar em tudo o que lá
vou meter para não me esquecer de nada. Vou ao
dicionário e tiro as palavras que me servirão
de passaporte: uma linha
de horizonte, a altitude e a latitude,
um lugar de passageiro insistente. Dizem-me
que não preciso de mais nada; mas continuo
a encher o saco. Um pôr-do-sol para que
a noite não caia tão depressa, o toque dos teus
cabelos para que a minha mão os não esqueça,
e aquele pássaro num jardim que nasceu
nas traseiras da casa, e canta sem saber
porquê. E outras coisas que poderiam
parecer inúteis, mas de que vou precisar: uma frase
indecisa a meio da noite, a constelação
dos teus olhos quando os abres, e algumas
folhas de papel onde irei escrever o que a tua ausência
me vem ditar. E se me disserem que tenho
excesso de peso, deixarei tudo isto em terra,
e ficarei só com a tua imagem, a estrela
de um sorriso triste, e o eco melancólico
de um adeus.

Nuno Júdice, in JL Jornal de Letras, Artes e Ideias, nº 1113, 
de 19 de maio a 11 de junho de 2013, p.11

2 comentários:

  1. "Que lindo!" - é a 1ª frase que solto, após o êxtase que me proporcionou esta leitura.
    E aninho-me, neste êxtase silencioso...

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    1. Nuno Júdice é sempre um êxtase na ímpar associação concreto-abstrato.

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