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30 de junho de 2013

Glorita

Ilustrações de Alberto Godoy

Sorriu, o pequeno gesto de escolher um charuto fazia-o recuar até Havana, numa vertigem. 



Conhecera Glorita numa esquina. A sua beleza era hipnótica, não precisava de falar para arranjar clientes. Perfecto Cuadrado seguiu-a pela escadaria manhosa e insalubre acima, num prédio escuro e bolorento com fios elétricos pendendo das paredes, galinhas cacarejando nas varandas, um rego de água duvidosa correndo ao longo do corredor imerso na penumbra. Ele tateou o bolso das calças, assegurando-se de que trazia consigo o rolo de notas. Esquecera-se de perguntar o preço, a beleza da mulher fizera-lhe esquecer a introdução básica para início de conversa com uma prostituta. Glorita desengonçou a porta e avançou, fazendo sinal para que a seguisse. Enfeitiçado pelo seu corpo violão, pelo movimento ondulante das nádegas perfeitas, ele deixou-se conduzir até ao quarto. 

                                                          Miguel Miranda (2013), in A Paixão de K, Porto Editora, 1ª ed., p. 48

Um olhar parcial

Ilustração de Alexandra Boiger

Todas as artes e ciências repousam sobre harmonias parciais.

in Fragmentos de Novalis (seleção, tradução e desenhos de  Rui Chafes), Assírio & Alvim, 2000, 2ªed.

29 de junho de 2013

Injustiça



Ilustração de Noma Bliss e Jim Bliss

Aquilo que me instiga a trabalhar é sempre a percepção de uma injustiça, e a ideia de que é fundamental tomar partido. Quando decido escrever um livro, não digo a mim mesmo: Vou produzir uma obra de arte. Escrevo porque há uma mentira que desejo denunciar, um facto que pretendo destacar, e a minha preocupação primeira é de me fazer ouvir.

George Orwell, Why I write, 1946

27 de junho de 2013

Quando todos se chamam Pepe


Na aldeia espanhola Consolación, todos os homens se chamam Pepe: o pastor, o eletricista, o pintor..., o que se torna confuso quando um deles morre e não se percebe a quem passar o obituário. 

Ilustração de Paula Pertile

Os consolados (habitantes de Consolación) rejubilam com as tradições e festividades de verão na povoação: a melonada, a vacada, a porcaria e a ronda, designações tão peculiares quanto as realidades a que aludem:


Ilustração de Jimmy Liao
"A maior festividade era a melonada, que acontecia na primeira lua nova de agosto. Os telhados das casas enchiam-se de melões demasiado maduros, que ficavam dias ao sol à espera da grande noite. (...) ...os populares trepavam aos telhados das casas e bombardeavam-se mutuamente com os melões numa guerra sem quartel, por entre risos e gargalhadas. A festa terminava sem vencidos nem vencedores, quando se esgotavam os melões e o vinho. Cansados, melosos e felizes, os habitantes recolhiam a casa altas horas da madrugada e dormiam um dia inteiro para cozer a bebedeira."

Miguel Miranda (2013), in  A Paixão de K, Porto Editora, 1ª ed., p. 13


Estas são algumas evocações de Perfecto Cuadrado, personagem principal que descola da realidade - uma viagem de táxi por Londres - e se deixa conduzir pelas vivências da aldeia e dos tempos de adolescente, recordando a sua ida ao confessionário pedir conselhos ao padre para a sua iniciação sexual.

Ilustração de Akira Kusaka 

Uma viagem pelo surreal da mente e da aldeia de Perfecto Cuadrado, das suas paixões e evocações...A paixão de K, de Miguel Miranda...


Mª Carla Crespo



Escrever para viajar

Escrever para viajar, viagem sem pagar bilhete, é o lema do médico portuense Miguel Miranda,  que marcou presença no Bibliotecando em Tomar 2013, no princípio de maio.

Ilustração de Ethel Spowers

Partindo do real, ainda que com as luvas e as pinças a que a deontologia o obriga, ocorre-lhe basear-se numa paciente, matá-la na primeira página e prosseguir a narrativa. 

A viagem e a literatura são também humor, riso, subversão, morte, mistério, policiais – mostrou-o este autor de diversas obras insólitas como O estranho caso do cadáver sorridente (Prémio Caminho de Literatura Policial, 1997) - a partir da sua doente inglesa qual boneca de porcelana com lábios pintados -; Dai-lhes, Senhor, o eterno repouso – policial humorístico sobre o que acontece aos chineses quando morrem -; A paixão de K – sobre o quadrilátero amizade, amor, paixão e caos, que tem no centro as paixões de Perfecto Cuadrado, protagonista da ação; e Todas as cores do vento – reflexo de uma viagem à Palestina em que um gato é a única testemunha do choque civilizacional com Israel.

Mª Carla  Crespo

25 de junho de 2013

Instituto das Pessoas Normais



Por vezes, fico alguns minutos a abanar-me
ao vento, como fazem as flores.

O que pensariam os senhores do Instituto
das Pessoas Normais se me vissem nesses momentos?

Afonso Cruz, "25 de Junho" in O Livro do ano

24 de junho de 2013

São João e os solstícios

Ilustração de Young Ju Choi

S. João Baptista é santo austero, dado aos jejuns e às orações mais do que a euforias. Mas diz a lenda que saltou de alegria na barriga de Isabel à aproximação de Maria, mãe de Jesus. A Igreja dividiu entre os dois, João e Jesus, as festas solsticiais: a João o solstício de Verão, quando o Sol, no zénite, inicia o longo declínio para a obscuridade; a Jesus o de Inverno, quando o ciclo solar se torna de novo ascendente, e os dias crescem, cada vez mais limpos e luminosos. João, testemunha de Jesus, não foi que disse: "É preciso que ele cresça e que eu diminua"?

Manuel António Pina, "A noite unânime" in Crónica, saudade da literatura, p. 183

Infância, jardim interior


A infância é um lugar de exílio. Se não tivermos, em qualquer sítio do coração, uma infância, onde nos refugiaremos quando os ladrões vierem para nos roubar a inocência e os sonhos e quando os assassinos baterem à porta? Se não tivermos uma pequena infância que seja (um jardim longínquo, um vago quarto de dormir perdido), onde guardaremos os segredos mais secretos e onde brincaremos ainda? E quem nos responderá quando, diante do nosso rosto no espelho, nos virmos e não nos reconhecermos, ou quando, nos dias de infelicidade, chamarmos pelo nosso nome? 

Manuel António Pina, "Contra os economistas" in Crónica saudade da literatura, p. 140

23 de junho de 2013

Abanar o vento

Ilustração de Dilka Bear

Na praça há uma senhora que vive das flores.
Apanha-as e vende-as. É muito triste que elas
não saibam fugir.

Ilustração de Paul Cartwright
Tenho pena de as arrancar àquela maneira
que elas têm de viver; a abanar ao vento.
Ou talvez seja ao contrário:a abanar o vento.

Afonso Cruz, "23 de Junho" in O Livro do ano

21 de junho de 2013

Nada

Ilustração de Yvonne Zomerdijk

Nada, nem sequer o verão
está completo. Menos ainda o colar
de sílabas que, desvelado,
te ponho à roda da cintura.
Nunca me pediste mais, nunca
te dei outra coisa.
Quando juntamos as mãos esquecemos
que somos culpados da nossa inocência.
E sorrimos, alheios
ao sol que declina, à estrela
do norte que sabemos no fim.
O privilégio da vida é este
silêncio musical que do teu olhar
cai nos meus olhos
e regressa a ti acrescentado
pela luz da manhã varrendo o mar.

Eugénio de Andrade, in O sal da língua

20 de junho de 2013

O cavalo branco

Eu andava com umas porcarias inquietantes que um sonho me tinha deixado na cabeça. Parecia que havia uma Virgem nua amarrada por baixo da barriga de um cavalo branco e eu via-a em toda a parte mesmo quando estava com os olhos dentro da água do Marecchia, tão clara nas pedras que parecia que nem existia.

(...)


Ilustração de Kristina Swarner

Quando cheguei à capela de Santa Verónica, vi que estava transformada numa cavalariça. Com um cavalo branco, idêntico àquele que eu tinha sonhado. E então? Então fugi dali para fora.

Tonino Guerra, in O livro das igrejas abandonadas

19 de junho de 2013

É o que tenho, palavras...

Ilustração de Katherine Quinn

Pouca coisa são as palavras. No entanto é o que tenho, palavras. E memórias, também elas feitas e desfeitas de palavras.

Manuel António Pina, "A noite unânime" in Crónica, saudade da literatura, p. 183

17 de junho de 2013

Direitos inalienáveis do leitor



              Ilustração de Katherine Quinn


1. O direito de não ler
2. O direito de saltar páginas
3. O direito de não acabar um livro
4. O direito de reler
5. O direito de ler não importa o quê
6. O direito de amar os heróis dos romances
7. O direito de ler não importa onde
8. O direito de saltar de livro em livro
9. O direito de ler em voz alta
10. O direito de não falar do que se leu


Daniel Pennac, in Como um romance

16 de junho de 2013

A botoeira do casaco novo

Há certas noites que os casarões de Montebotolino voam e parecem manchas cor-de-rosa por cima de um pano transparente. De inverno, se chove, ficam com os pés dentro das poças e a água desliza por eles como se fossem rochas.


O confessionário na igreja é uma barraquinha de abeto pintada de cor-de-rosa, com os carunchos a roerem até os pregos. Eu sentei-me lá dentro para ver se o padre ficava cómodo. Foi uma tarde de domingo e uma aranha baloiçava na ponta do fio que descia de um funil de seda. E adormeci.


Ilustração de Domenico Gnoli

Depois deu-me vontade de conhecer o padre, que por ser velho se tinha reformado de todas as funções e habitava no campo junto do pinhal de Ravenna. Queria que ele me dissesse qual tinha sido a sua última confissão em Montebotolino. Tinha oitenta anos e as mãos trémulas eram borboletas a levantar voo.


Ilustração de Séverine Duchesne
Sem nomear ninguém, disse que uma manhã às cinco, com os pés molhados porque tinha passado por cima da erva branca da geada, uma velha se ajoelhara logo ao confessionário.

Com a voz comovida contou-lhe que na noite da véspera de um feriado cosera a botoeira do casaco novo do marido para que ele não metesse lá uma flor para se armar em gabarola diante das outras mulheres. E agora estava arrependida.

Tonino Guerra, in O Livro das igrejas abandonadas

15 de junho de 2013

Amizade

Ilustração de Cally Johnson-Isaacs

A amizade não é uma dádiva, é uma espécie de tesouro escondido (...) só se alcança depois de ter vencido longamente caminhos e tempestades, e passado portas, e enfrentado monstros e dragões, e voltado muitas vezes atrás e recomeçado de novo a partir da solidão e do exílio.


Manuel António Pina, "Um adeus como todos imenso" in Crónica, saudade da literatura, p. 266

14 de junho de 2013

Livro, forma feliz de mistério

Ilustração de Gabhor Utomo

O livro (...) é depositário, tão-só pela sua estrita materialidade, de alguma forma feliz de mistério que se furta a qualquer modo de produção de sentido. Talvez, quem sabe?, porque só o livro fala connosco a sós.

                  Manuel António Pina (2013), in Crónica, Saudade da Literatura, Assírio & Alvim, 1ª ed., p. 203


13 de junho de 2013

Aniversário de Fernando Pessoa

Se tal fosse possível, Fernando António Nogueira Pessoa faria hoje, dia de Santo António, 125 anos.

Para além de republicarmos as palavras de Óscar Lopes sobre Sinceridade e fingimento em Pessoa,  recordamos, no Portefólio de Leituras, textos do ortónimo e dos heterónimos que aqui têm sido publicados ao longo do tempo.

Autopsicografia              
Pessoa, desenho de Júlio Pomar

Isto

Ela canta, pobre ceifeira

Sonho. Não sei quem sou neste momento

Entre o sono e o sonho

Sabes quem sou? Eu não sei.

 O menino de sua mãe

Gato que brincas na rua

Chove. É dia de Natal.

Aniversário

Alberto Caeiro

Sinceridade e fingimento

Ilustração de Danilo Martinis
A poesia de Fernando Pessoa é essencialmente irónica, no velho sentido socrático da palavra "ironia", a arte de pôr tudo em questão. Nele se descose e se problematiza muito do que fora tido até certa altura como fundamental em poesia. A principiar pela própria sinceridade poética. A sinceridade era antes de Pessoa o argumento irrespondível de um lirismo já falhado sem se dar por isso. O que Pessoa desvenda, e a meu ver não tanto por análise abstracta como pela comunicação poética da sua psicologia dilacerada, é isto: fingir e ser sincero são os dois pólos necessários da arte.

Óscar Lopes, in Fernando Pessoa, Ler e Depois 

                                                                         

11 de junho de 2013

O que damos aos livros?


Os livros constituem, de facto, um dos últimos refúgios do indivíduo e do pensamento...

Ilustração de Mónica Ramos

"O leitor sabe - diz Walt Whitman - que, quando é de noite, estamos ambos a sós." Só nos livros são possíveis ainda a noite e a solidão, em tempos de holofotes por todos os lados. E quanto os homens precisam de solidão, de se escutar a si mesmos na numerosa voz dos livros! E, em tempos como estes, barulhentos e estridentes, de silêncio! Os livros podem, no entanto, oferecer-nos aquilo que pudermos nós dar-lhes, sentido ou emoção. E talvez nem todos de nós tenham alguma coisa para dar aos livros. 

Manuel António Pina (2013), in Crónica, Saudade da Literatura, Assírio & Alvim, 1ª ed., p. 202

Rotina


Ilustração de Marie Desbons


Ao abrir a janela do quarto para outras
janelas de outros quartos, ao veres a rua que desemboca
noutras ruas, e as pessoas que se cruzam, no início da
manhã, sem pensarem com quem se cruzam
em cada início de manhã, talvez te apeteça
voltar para dentro, onde ninguém te espera. Mas
o dia nasceu - um outro dia, e a contagem do tempo
começou a partir do momento em que
abriste a janela, e em que todas as janelas
da rua se abriram, como a tua. Então, resta-te
saber com quem te irás cruzar, esta manhã: se
o rosto que vais fixar, por uns instantes, retribuirá
o teu gesto; ou se alguém, no primeiro café que
tomares, te devolverá a mesma inquietação
que saboreias, enquanto esperas que o líquido
arrefeça.



Nuno Júdice, in Pedro lembrando Inês, D. Quixote, 2001, p. 23

10 de junho de 2013

O sulco

Desde que lhe morreu o marido a Bice viu-se reduzida a falar com uma galinha.Dá-lhe de comer numa travessa sêmeas em papa e fica sentada a fazer-lhe companhia no degrau da porta de casa.

Depois a galinha vai para fora e de vez em quando pára na praça ou onde bem lhe apetece. Mais tarde a Bice vai perguntar aos rapazes se a viram passar. Todas as manhãs entram juntas na igreja onde estava pintada na parede a Nossa Senhora sentada que em mil novecentos e catorze chorara porque estava para rebentar a primeira guerra mundial. Então todas as mulheres de Rimini e Ravenna vieram rezar pelos filhos e pelos maridos que estavam em perigo.

Ilustração de Lookarna
Depois acabou a guerra e nunca mais lhe ligaram. A água gotejava do tecto e catrapás, a neve deitou tudo abaixo.

Assim a igreja caiu no abandono e a pintura pouco a pouco foi-se apagando da parede e transformando em pó. Só ficou o sulco no rego que fizeram as lágrimas de Nossa Senhora quando chorou.

A Bice põe-se de joelhos diante daquela risca e a galinha fica acocorada ao pé dela.

Tonino Guerra, in O livro das igrejas abandonadas 

9 de junho de 2013

Nó livre


Ilustração de Limeunhee




cada lenço de seda que se ata ¡oh desastres das artes! a
                                           própria seda do lenço o desata




Herberto Helder (2013), in Servidões, Assírio & Alvim, p. 71

8 de junho de 2013

Schiu!

Ilustração de Mayte Alvarado Simancas
O padre da paróquia de Montelabreve esteve bem até há quinze dias. De repente meteu-se na cama e morreu com a cabeça encostada aos dois pavões azuis pintados na parede do quarto.


À sobrinha que estava sentada ali ao pé, mesmo um segundo antes de fechar os olhos para sempre, olhou para ela e depois levou o dedo aos lábios e, baixinho como se fosse um sopro, fez: "schiu!"; em suma, dizia-lhe que estivesse calada. Calada a respeito de quê? Estaria já a ouvir outras vozes? Se calhar uma música que lhe vinha lá de cima? Ou queria que ela não dissesse que ele estava a morrer? Ou, se não, um conselho para se calar na vida em geral? Ou era ele que mandava calar-se a si próprio, com o medo que faziam as palavras que se lhe derretiam na boca?

Desse dia em diante a sobrinha compreendeu que dessas coisas não devia falar com ninguém. E de vez em quando volta a olhar para os dois pavões azuis que estão a desvanecer-se da parede.

Tonino Guerra, in O livro das igrejas abandonadas, Assírio & Alvim

7 de junho de 2013

A varanda de Julieta

Ilustração de Vesa Sammalisto

Uma vez, entrei em verona para não entrar 
em veneza. Entre o vê e verona e o vê
de veneza optei por verona. Gostei da
coincidência das consoantes na janela
de julieta; e sei que em veneza não ouviria
o vento da vingança, nem provaria o veneno
de uma volúpia que só em verona se
desvanece com a vida. Não há canais em
verona, como em veneza; nem há janelas
em veneza, como em verona; mas julieta
espreita a rua, da janela que é sua, e se
ninguém diz a senha que só ela sabe, agita
o lenço molhado pelas lágrimas que as
nuvens bebem, levando-as de verona até
veneza, onde a chuva as deita nos canais.

Nuno Júdice, in Pedro lembrando Inês, D. Quixote, 2001, p. 22

6 de junho de 2013

Alegoria

Ilustração de Susans Art Loft

Faço um castelo na areia do futuro. Torres
de névoa, ameias de fumo, pontes levadiças
de indecisão. Vejo a areia a escoar-se
na ampulheta dos séculos; e um exército
de ondas rompe a linha do infinito,
derrubando os muros da manhã.

Nuno Júdice, in Pedro lembrando Inês, D. Quixote, 2001, p. 24

4 de junho de 2013

E tudo era possível

Ilustração de Horacio Gatto

Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido
Chegava o mês de maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido
E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer
Só sei que tinha o poder duma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer

Ruy  Belo, in Todos os Poemas (2000), Assírio & Alvim, p.241

2 de junho de 2013

Preparativos de viagem

Ilustração de Katsuo



Ao fazer a mala, tenho de pensar em tudo o que lá
vou meter para não me esquecer de nada. Vou ao
dicionário e tiro as palavras que me servirão
de passaporte: uma linha
de horizonte, a altitude e a latitude,
um lugar de passageiro insistente. Dizem-me
que não preciso de mais nada; mas continuo
a encher o saco. Um pôr-do-sol para que
a noite não caia tão depressa, o toque dos teus
cabelos para que a minha mão os não esqueça,
e aquele pássaro num jardim que nasceu
nas traseiras da casa, e canta sem saber
porquê. E outras coisas que poderiam
parecer inúteis, mas de que vou precisar: uma frase
indecisa a meio da noite, a constelação
dos teus olhos quando os abres, e algumas
folhas de papel onde irei escrever o que a tua ausência
me vem ditar. E se me disserem que tenho
excesso de peso, deixarei tudo isto em terra,
e ficarei só com a tua imagem, a estrela
de um sorriso triste, e o eco melancólico
de um adeus.

Nuno Júdice, in JL Jornal de Letras, Artes e Ideias, nº 1113, 
de 19 de maio a 11 de junho de 2013, p.11

1 de junho de 2013

Algumas proposições com crianças

Ilustração de Cécile Bercé-Busson

A criança está completamente imersa na infância
a criança não sabe que há-de fazer da infância
a criança coincide com a infância
a criança deixa-se invadir pela infância como pelo sono
deixa cair a cabeça e voga na infância
a criança mergulha na infância como no mar
a infância é o elemento da criança como a água
é o elemento próprio do peixe
a criança não sabe que pertence à terra
a sabedoria da criança é não saber que morre

a criança morre na adolescência
Se foste criança diz-me a cor do teu país
Eu te digo que o meu era da cor do bibe
e tinha o tamanho de um pau de giz
Naquele tempo tudo acontecia pela primeira vez
Ainda hoje trago os cheiros no nariz
Senhor que a minha vida seja permitir a infância
embora nunca mais eu saiba como ela se diz


Ruy Belo, in Todos os Poemas (2000), Assírio & Alvim, p.209

A rua é das crianças


Ilustração de Kaatje Vermiere

Ninguém sabe andar na rua como as crianças. Para elas é sempre uma novidade, é uma constante festa transpor umbrais. Sair à rua é para elas muito mais do que sair à rua. Vão com o vento. Não vão a nenhum sítio determinado, não se defendem dos olhares das outras pessoas e nem sequer, em dias escuros, a tempestade se reduz, como para a gente crescida, a um obstáculo que se opõe ao guarda-chuva. Abrem-se à aragem. Não projectam sobre as pedras, sobre as árvores, sobre as outras pessoas que passam, cuidados que não têm. Vão com a mãe à loja, mas apesar disso vão sempre muito mais longe. E nem sequer sabem que são a alegria de quem as vê passar e desaparecer.

Ruy Belo, in Todos os Poemas (2000), Assírio & Alvim, p.264

Manhã de infância

Ilustração de Blue


O céu tinha o tom branco de uma manhã de infância.


Nuno Júdice, "A Viagem", in A Árvore dos Milagres, Quetzal, 2000, p. 145