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2 de novembro de 2012

Amor, hoje teu nome

Ilustração de Claude Theberge
Amor, hoje teu nome
a meus lábios escapou
como ao pé o último degrau...

Espalhou-se a água da vida                                          
e toda a longa escada
é para recomeçar.

Desbaratei-te, amor, com palavras.

Escuro mel que cheiras
nos diáfanos vasos
sob mil e seiscentos anos de lava -

Hei-de reconhecer-te pelo imortal
silêncio.

Cristina Campo, in O Passo do Adeus (trad. José Tolentino Mendonça)

No cemitério

Ilustração de Jennifer Woodburn



Perguntamo-nos que viemos cá fazer, que lágrima foi que guardámos para verter aqui, e porquê, se as não chorámos em tempo próprio, talvez por ter sido então menor a dor que o espanto, só depois é que ela veio, surda, como se todo o corpo fosse um único músculo pisado por dentro, sem nódoa negra que de nós mostrasse o lugar do luto.


José Saramago, in O Ano da morte de Ricardo Reis