Número total de visualizações de página

17 de outubro de 2012

Cesário Verde



Ao entardecer, debruçado pela janela,
E sabendo de soslaio que há campos em frente,
Leio até me arderem os olhos
O livro de Cesário Verde.

Que pena que tenho dele! Ele era um camponês

Que andava preso em liberdade pela cidade.
Mas o modo como olhava para as casas,
E o modo como reparava nas ruas,
E a maneira como dava pelas cousas,
É o de quem olha para árvores,
E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai      
andando
E anda a reparar nas flores que há pelos campos...

Por isso ele tinha aquela grande tristeza

Que ele nunca disse bem que tinha,
Mas andava na cidade como quem anda no campo
E triste como esmagar flores em livros
E pôr plantas em jarros...
                                                          Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos"

Inspiração no real quotidiano


Cesário Verde precisa da circunstância para se inspirar: "A mim o que rodeia é o que me preocupa" - escreve ele a Silva Pinto, seu amigo, responsável pela publicação da obra póstuma O Livro de Cesário Verde.

 

A mulher na poesia de Cesário Verde


Degas, Repasseuses
A poesia de Cesário apresenta dois tipos opostos de mulher: a mulher esplêndida, madura, destrutiva e essencialmente frígida, associada com a cidade e com o Norte, e a jovem simples, terna e vulnerável, associada com o campo ou com os valores opostos à cidade. (...)

O erotismo citadino expresso em imagens que são a antítese da caracterização do amor, desconfinado possível no campo, o momento intemporal do mar sem praias, é um erotismo de humilhação que reduz o amante à condição de servo ou presa fascinada, criando uma reacção sado-masoquista entre a mulher, que personifica o artifício da cidade, e a sua complacente vítima.
(...)

Em contraste com a mulher depredatória identificada com a cidade, “A débil” representa um tipo feminino que é o oposto complementar das esplêndidas, frígidas, fulgurantes e desdenhosas aristocratas emblemáticas da síndroma erótica de humilhação. “A débil” do título do poema (...) está na cidade, mas não lhe pertence, passa por ela como uma personificação das qualidades que lhe são diametralmente opostas.

Inspira no poeta o desejo de protegê-la e de estimá-la, não o desejo perverso de se prostrar a seus pés.

Hélder Macedo, in "Nós" - Uma leitura de Cesário Verde

A débil

Eu, que sou feio, sólido, leal,
A ti, que és bela, frágil, assustada,
Quero estimar-te, sempre, recatada
Numa existência honesta, de cristal.

Sentado à mesa dum café devasso,
Ao avistar-te, há pouco, fraca e loura,
Nesta Babel tão velha e corruptora,
Tive tenções de oferecer-te o braço.

E, quando socorreste um miserável,
Eu, que bebia cálices de absinto,
Mandei ir a garrafa, porque sinto
Que me tornas prestante, bom, saudável.    



Edgar Degas, O absinto
          
"Ela aí vem!" disse eu para os demais;
E pus-me a olhar, vexado e suspirando,
O teu corpo que pulsa, alegre e brando,
Na frescura dos linhos matinais.

Via-te pela porta envidraçada;
E invejava, – talvez que o não suspeites! –
Esse vestido simples, sem enfeites,
Nessa cintura tenra, imaculada.

Ia passando, a quatro, o patriarca,
Triste eu saí. Doía-me a cabeça.
Uma turba ruidosa, negra, espessa,
Voltava das exéquias dum monarca.

Adorável! Tu, muito natural,
Seguias a pensar no teu bordado;
Avultava, num largo arborizado,
Uma estátua de rei num pedestal.

Sorriam, nos seus trens, os titulares;
E ao claro sol, guardava-te, no entanto,
A tua boa mãe, que te ama tanto,
Que não te morrerá sem te casares!

Soberbo dia! Impunha-me respeito
A limpidez do teu semblante grego;
E uma família, um ninho de sossego,
Desejava beijar sobre o teu peito.

Com elegância e sem ostentação,
Atravessavas branca, esvelta e fina,
Uma chusma de padres de batina,
E de altos funcionários da nação.

"Mas se a atropela o povo turbulento!
Se fosse, por acaso, ali pisada!"
De repente, paraste embaraçada
Ao pé dum numeroso ajuntamento.

E eu, que urdia estes fáceis esbocetos,
Julguei ver, com a vista de poeta,
Uma pombinha tímida e quieta
Num bando ameaçador de corvos pretos.

E foi, então, que eu, homem varonil,
Quis dedicar-te a minha pobre vida,
A ti, que és ténue, dócil, recolhida,
Eu, que sou hábil, prático, viril.


Cesário Verde, 1875

Deslumbramentos

Klimt, Mulher com chapéu e pena

Milady, é perigoso contemplá-la,
Quando passa aromática e normal,
Com seu tipo tão nobre e tão de sala,
Com seus gestos de neve e de metal.

Sem que nisso a desgoste ou desenfade,

Quantas vezes, seguindo-lhe as passadas,                            
Eu vejo-a, com real solenidade,
Ir impondo toilettes complicadas!...

Em si tudo me atrai como um tesoiro:

O seu ar pensativo e senhoril,
A sua voz que tem um timbre de oiro
E o seu nevado e lúcido perfil!

Ah! Como me estonteia e me fascina...

E é, na graça distinta do seu porte,
Como a Moda supérflua e feminina,
E tão alta e serena como a Morte!...

Eu ontem encontrei-a, quando vinha,

Britânica, e fazendo-me assombrar;
Grande dama fatal, sempre sozinha,
E com firmeza e música no andar!

O seu olhar possui, num jogo ardente,

Um arcanjo e um demónio a iluminá-lo;
Como um florete, fere agudamente,
E afaga como o pêlo de um regalo!

Pois bem. Conserve o gelo por esposo,

E mostre, se eu beijar-lhe as brancas mãos,
O modo diplomático e orgulhoso
Que Ana de Áustria mostrava aos cortesãos.

E enfim prossiga altiva como a Fama,

Sem sorrisos, dramática, cortante;
Que eu procuro fundir na minha chama
Seu ermo coração, como um brilhante.

Mas cuidado,
milady, não se afoite,
Que hão-de acabar os bárbaros reais;
E os povos humilhados, pela noite,
Para a vingança aguçam os punhais.

E um dia, ó flor do Luxo, nas estradas,

Sob o cetim do Azul e as andorinhas,
Eu hei-de ver errar, alucinadas,
E arrastando farrapos – as rainhas.


Cesário Verde