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2 de dezembro de 2012

À procura do Natal


Levo o rapazinho pela mão. Digo-lhe:

- Vou enfeitar uma pequena árvore de Natal, tão pequena que entre no teu coração para sempre, e se te esqueceres de tudo o que existe à tua volta, dela não te esquecerás.

- Como é que sabes? - pergunta ele.

Ilustração de Stephen Mackey

- Como é que sei? Não sei. Estas coisas nascem debaixo das nossas pálpebras enquanto velamos, e ainda mais quando estamos a dormir; também nascem quando sonhamos de olhos abertos ou estamos profundamente calados, concentrados, o que alguns chamam orar, já te tinha explicado isto quando fomos ver os pombos-correios àquela vila do outro lado do rio, lembras-te, sobretudo quando dormimos e sabemos que dormimos recebemos muitas informações; também te digo que alguns acontecimentos ainda não acontecidos chegam até nós enquanto observamos a paisagem, e até a nossa rua quando de repente ela se despe dos objectos, os movimentos param, o ruído cessa, e a rua fica sozinha e nossa, inseparavelmente nossa, habitual e diferente.

Continuamos a andar, mão na mão. Eu tenho luvas de pele fina, tu tens uma luva de lã, só uma, perdeste a outra?
(...) Perdi-a - diz o pequeno.
É bom aprendermos a perder. O importante é não perdermos o nosso nome entre tantos nomes no mundo. (...) 


Jorge Listopad, "À procura do Natal", in Um Natal assim, (2008), Quidnovi

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