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30 de outubro de 2012

Velhice

Ilustração de Lisa Nanni

...o caminho não é para o esquecimento, como haveria de querer a lei do tempo, mas sim para a memória. Todo o conhecimento adquirido antes de se tocar esse ponto - no meio do céu - parece então dirigir-se para a infância, para a casa, para a primeira terra, para o mistério das raízes, que dia após dia vai adquirindo eloquência.


Cristina Campo, in Os imperdoáveis

29 de outubro de 2012

Ler e escrever não é privilégio de alguns

Os livros deixaram de valer como segredos, são abertos a todos: assim parece. 

Ilustração de Fernando Casado Mora

Não nos deixaremos privar da reconfortante certeza de ter havido um efectivo progresso e não podemos senão comprazer-nos com o facto de ler e escrever já não serem o privilégio de uma casta ou corporação e, pelo contrário, desde a invenção dos caracteres de imprensa, de o livro se ter tornado um objecto de uso e de luxo difuso em larguíssima escala, d[e] as grandes tiragens lhe consentirem ser vendido a baixo preço e de todos os povos poderem, deste modo, tornar acessíveis os seus melhores livros (os chamados "clássicos") mesmo para as pessoas com menos posses. Nem nos afligiremos excessivamente por causa da ideia de o livro estar agora quase inteiramente despido do seu antigo carácter sublime...

Herman Hesse, in Uma biblioteca da literatura universal

28 de outubro de 2012

Os justos

Ilustração de Alberto Godoy
 
Começam o dia louvando o imperfeito:
O tempo que se inclina para o lado partido
as escassas laranjas que se tornam 
amarelas no meio da palha 
as talhas sem vinho 
 
Olham por dentro a brancura da manhã
e em tudo quanto auxilia um homem no seu ofício
louvam o vulnerável e o inacabado
 
Estão sentados à soleira dos espaços 
trabalhados devagar pelo silêncio 
 
Quando Deus voltar 
não terá de arrombar todas as portas
 
para José Mattoso
 
Tolentino Mendonça, in Estação Central

27 de outubro de 2012

O relógio da vida


Ilustração de Laimonas Smergelis


 - Nunca reparaste que há certas coisas que nós já vimos muitas vezes e que de vez em quando é como se fosse a primeira?
- Nunca reparei – disse a rapariga.
- Nunca ficaste a olhar o mar muito tempo?
- Sim, já fiquei.
- Ou o lume de um fogão? – disse o rapaz.
- E que queres dizer com isso?
- Ou uma flor. Ou ouvir um pássaro cantar.
- Sim, sim.
- Não há nada mais igual do que o mar ou o lume ou uma flor. Ou um pássaro. E a gente não se cansa de os ver ou ouvir. Só é preciso que se esteja disposto para achar diferença nessa igualdade. Posso olhar o mar e não reparar nele, porque já o vi. Mas posso estar horas a olhar e não me cansar da sua monotonia.
O rapaz tinha o olhar absorto na extensão das águas e permaneceu calado algum tempo. As águas brilhavam com o reflexo do sol na agitação breve das ondas. A rapariga calava-se também, fitando o rapaz, porque percebia que ele não acabara de falar. Mas o rapaz calou-se como se não tivesse mais nada a dizer e ela perguntou:
- Mas que é que querias dizer-me?
- Mesmo as coisas mais banais são diferentes se alguma coisa importante se passou em nós.

(...)
Ilustração de Laimonas Smergelis
 

- O médico foi claro. Havia um relógio na secretária e olhei as horas. Eram cinco precisas. Estava calmo e reparei. Tenho dois ou três meses no máximo. O tempo contado dia a dia. E é extraordinário como tudo agora me parece diferente. Mais belo talvez. Creio que vou viver agora mais intensamente. Dia a dia. E três meses no máximo.
- Espera! Três meses como? – disse a rapariga, subitamente iluminada.
Pôs-lhe a mão no braço e olhava-o fixamente. Ele olhou-a também e ambos ficaram a tentar entender-se em silêncio. (...)

Estava uma tarde cheia de sol. As águas brilhavam até ao limite do horizonte, um barco à vela ia passando pela estrada de lume. O ar estava quente. E a brisa do mar quase não chegava ali.

Vergílio Ferreira, "Uma esplanada sobre o mar", in Contos

26 de outubro de 2012

Esvelta surge!


O nascimento de Vénus, de Botticelli

Esvelta surge! Vem das águas, nua,
Timonando uma concha alvinitente!
Os rins flexíveis e o seio fremente...
Morre-me a boca por beijar a tua.

Sem vil pudor! Do que há que ter vergonha?
Eis-me formoso, moço e casto, forte.
Tão branco o peito! — para o expor à Morte...
Mas que ora — a infame! — não se te anteponha.  

A hidra torpe!... Que a estrangulo... Esmago-a
De encontro à rocha onde a cabeça te há-de,
Com os cabelos escorrendo água,

Ir inclinar-se, desmaiar de amor,
Sob o fervor da minha virgindade
E o meu pulso de jovem gladiador.


Camilo Pessanha, in Clepsidra

25 de outubro de 2012

Paisagens de inverno II

Ilustração de Lucio Lopez Cansuet-Kansuet

Passou o Outono já, já torna o frio... 
– Outono de seu riso magoado. 
Álgido inverno! Oblíquo o sol, gelado... 
– O sol, e as águas límpidas do rio.

Águas claras do rio! Águas do rio, 
Fugindo sob o meu olhar cansado, 
Para onde me levais meu vão cuidado? 
Aonde vais, meu coração vazio?

Ficai, cabelos dela, flutuando, 
E, debaixo das águas fugidias, 
Os seus olhos abertos e cismando...

Onde ides a correr, melancolias? 
– E, refractadas, longamente ondeando, 
As suas mãos translúcidas e frias...

Camilo Pessanha, "Paisagens de inverno II", in Clepsidra

Caminho

Tenho sonhos cruéis; n'alma doente
Sinto um vago receio prematuro.
Vou a medo na aresta do futuro,
Embebido em saudades do presente...

Saudades desta dor que em vão procuro
Do peito afugentar bem rudemente,
Devendo, ao desmaiar sobre o poente,
Cobrir-me o coração dum véu escuro!...  


Ilustração de Artisalma Deviantart










                         



Porque a dor, esta falta d’harmonia,
Toda a luz desgrenhada que alumia
As almas doidamente, o céu d’agora,

Sem ela o coração é quase nada:
Um sol onde expirasse a madrugada,
Porque é só madrugada quando chora.


Camilo Pessanha, in Clepsidra

Inscrição

Ilustração de Eric Zener
Eu vi a luz em um país perdido.
A minha alma é lânguida e inerme(1).
Oh! Quem pudesse deslizar sem ruído!
No chão sumir-se, como faz um verme...


 Camilo Pessanha, in Clepsidra

 (1) indefesa

24 de outubro de 2012

A janela iluminada

Ilustração de Mariusz Stawarski

 
Não chames ao mundo morada, não lhe dês um nome
pois falhas a tua Primavera
as sugestões atmosféricas tornam as paisagens equívocas
e nunca chegamos a perceber
como avança uma história
ou uma tempestade

Diante da janela iluminada
acredita apenas na duração
do amor


Tolentino Mendonça, in Estação Central

Sonho de Scarlatti

Dreams guide us, exposição de trabalho em vidro de Fernanda Guerreiro, 2010  

Se a passarola do padre Bartolomeu de Gusmão chegar a voar um dia, gostaria de ir nela e tocar no céu, e Blimunda respondeu, Voando a máquina, todo o céu será música (...)


José Saramago, in Memorial do Convento

23 de outubro de 2012

Ver a vontade


Ilustração de António João Santos e João Rodrigues

E eu que faço, perguntou Blimunda, mas adivinhava a resposta, Verás a vontade dentro das pessoas, Nunca a vi, tal como nunca vi a alma, Não vês a alma porque a alma não se pode ver, não vias a vontade porque não a procuravas, Como  é a vontade, É uma nuvem fechada, Que é uma nuvem fechada,  Reconhecê-la-ás quando a vires, experimenta (...)


José Saramago, in Memorial do Convento


22 de outubro de 2012

Sete-Sóis e Sete-Luas abraçados



Ilustrações de António João Santos
e João Rodrigues

















Tu és Sete-Sóis porque vês às claras, tu serás Sete-Luas porque vês às escuras, e, assim, Blimunda, que até aí só se chamava, como sua mãe, de Jesus, ficou sendo Sete-Luas, e bem baptizada estava, que o baptismo foi de padre, não alcunha de qualquer um. Dormiram nessa noite os sóis e as luas abraçados, enquanto as estrelas giravam devagar no céu, Lua onde estás, Sol aonde vais.


                                                                     José Saramago, in Memorial do Convento

Blimunda

Ilustração de Artisalma Deviantart


Eu posso olhar por dentro das pessoas.                                        
                                                    

José Saramago, in Memorial do Convento

21 de outubro de 2012

Os livros

Ilustração de André Letria
É então isto um livro,
este, como dizer?, murmúrio,
este rosto virado para dentro de
alguma coisa escura que ainda não existe
que, se uma mão subitamente
inocente a toca,
se abre desamparadamente
como uma boca
falando com a nossa voz?
É isto um livro,
esta espécie de coração (o nosso coração)
dizendo 'eu' entre nós e nós?


Manuel António Pina, in Como se desenha uma casa

19 de outubro de 2012

Carta a Mário Cesariny no dia da sua morte

Ilustração de Ray Bradbury

Hoje soube-se uma coisa extraordinária,
que morreste; talvez já to tenham dito,
embora o caso verdadeiramente não
te diga respeito, e seja assunto nosso, vivo.

Algo, de facto, deve ter acontecido
porque nada acontece, a não ser o costume,
amor e estrume, quanto ao resto
tudo prossegue de acordo com o Plano.

Há apenas agora um buraco aqui,
não sei onde, uma espécie de
falta de alguma coisa insolente e amável,
de qualquer modo, aliás, altamente improvável.  

Depois, de gato para baixo, mortos
(lembrei-me disto de repente
agora que voltaste malevolamente a ti)
estamos todos. A gente vê-se um dia destes por Aí.


26/11/2006
 
Manuel António Pina, in Como se desenha uma casa

A cidade e a noite


Foto de Lisboa é poesia
 "O Sentimento dum Ocidental" é a investigação final e definitiva de Cesário sobre a cidade. Tal como "Noite Fechada", o poema regista as percepções e impressões de um observador caminhando nas ruas nocturnas da cidade. Mas o narrador de "Noite Fechada" ia acompanhado; o narrador de "O Sentimento dum Ocidental" descreve um passeio solitário.

Helder Macedo, in Nós, uma leitura de Cesário Verde, D. Quixote, 3ª ed., p.169

18 de outubro de 2012

O Sentimento dum ocidental

                     I
 
             Avé-Marias (1)
 
Rua das Trinas, onde Cesário Verde viveu
Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.                        

    O céu parece baixo e de neblina,
O gás extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.

    Batem carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposições, países:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!

    Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edificações somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.

    Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos;
Embrenho-me, a cismar, por boqueirões, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.

    E evoco, então, as crónicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!
Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu não verei jamais!

    E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!
De um couraçado inglês vogam os escaleres;
E em terra num tinir de louças e talheres
Flamejam, ao jantar, alguns hotéis da moda.

    Num trem de praça arengam dois dentistas;
Um trôpego arlequim braceja numas andas;
Os querubins do lar flutuam nas varandas;
Às portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas!

    Vazam-se os arsenais e as oficinas;
Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras;
E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,
Correndo com firmeza, assomam as varinas.

    Vêm sacudindo as ancas opulentas!
Seus troncos varonis recordam-me pilastras;
E algumas, à cabeça, embalam nas canastras
Os filhos que depois naufragam nas tormentas.

    Descalças! Nas descargas de carvão,
Desde manhã à noite, a bordo das fragatas;
E apinham-se num bairro aonde miam gatas,
E o peixe podre gera os focos de infecção!
 
Cesário Verde 
 
 (1) Avé-Marias - designação das seis da tarde ironicamente sugestiva da organização da vida 
          segundo os ritmos ordenados de uma comunidade unida pela devoção religiosa.
 
                                                                                                              Helder Macedo