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11 de setembro de 2012

O múltiplo é Um


Ilustração de Helen M. Waters
 _______ e volto à penumbra, para lá do bem e do mal:
            “e tu como vais, Christine?”
            “torno-me lentamente “une vieille femme”,
            uma mulher que envelhece, uma velhinha.”


Ela dissera apenas "je deviens une vieille femme", e fora eu, sempre possuída pelo mesmo eco que amplifica, que vira imediatamente em imagem "torno-me lentamente une vieille femme, uma mulher que envelhece, uma velhinha."

Disse-lhe, a pouco e pouco, deslizando entre a minha língua e a dela: "Christine, estou sempre sobre a ruína de escrever",         e ela compreendeu que eu devia estar a vê-la, pálida no tecido quase sem cor, ou sendo a sua pele, de cor perdida, o contorno da saia e da blusa;

"agora, além de saber igualmente ler e escrever, sei também brincar - não utilizo os fios para os mesmos fins." Vestia a cor evanescente dos cereais (a saia), e uma pequeníssima quantidade de cor que, ao voltar as costas para mim,        me deixou no pátio; da cor, nasceu a peça de violoncelo que ela executava        e, do violoncelo,           a sonoridade de um sonho que ela tivera na noite seguinte ao dia em que falara comigo:

Ilustração de Mariane Seoane Pascuale
"esboçou, na toalha onde também tinham comido as duas crianças, o desenho cintilante de pequenas notas a que eu principiei imediatamente a dar uma resposta: "sois folhas: o Amado é múltiplo, embora Um"."





                                                                                          Maria Gabriela Llansol, "Prólogo", in O Raio sobre o lápis

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