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21 de agosto de 2012

Almoço cosmopolita


Almocei, num país da américa do sul,
ao lado de um casal a falar francês;
todas as paredes tinham uma risca azul
e os clientes sentavam-se, um de cada vez.

Sabendo a língua deles, não precisei de tradutor
para saber o que diziam, alto para que eu ouvisse:
ela estava ali por acaso, ele era doutor,
sei que se amavam, pelo menos foi ela que o disse.
 
Ilustração de Mariana Kalacheva
Não me lembro já o que comi nesse almoço,
talvez não tivesse fome, e a conversa distraía-me.
O que eles diziam caía em mim como num poço,
e o seu silêncio, quando me olhavam, entristecia-me.

E hoje, quando almoço, bem a norte,
ninguém ao meu lado fala estrangeiro.
Pode ser que isto seja uma sorte,
ou será apenas um acaso passageiro.

Gosto destas histórias que acabam mal,
comigo a sair do restaurante, sozinho.
Então tenho a certeza de estar em portugal,
e depois do café, apetece-me um copo de vinho.


Nuno Júdice, in Fórmulas de uma luz inexplicável

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