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28 de junho de 2012

Cena bíblica

Ilustração de Carmen Arvizu
No meio da praia deserta, uma baleia morta. O céu
estava cinzento. As ondas rebentavam em brancas
explosões. Dois ou três pescadores, e outras tantas
crianças, andavam à volta da baleia, tapando o nariz.
Nada a fazer por ela. Mas o vento levava o cheiro
para longe, e ao aproximar-me perguntava-me se
não seria de a abrir e ver se, por acaso, não haveria
um jonas no seu ventre. O pescador mais velho
afastou-me: «E se ali estivesse alguém, o que
teria para nos dizer?» Não soube o que responder:
que mensagens de um deus antiquíssimo? Que
recordações de um tempo de guerras e desastres?
Que memórias da mulher amada, de quem não
restam ossos nem imagens? No dia seguinte,
com um tractor, a baleia foi enterrada bem fundo,
numa cova ao seu tamanho. Dizem que nenhuma
planta cresceu ali, desde então. E ainda hoje me
arrependo de não ter ouvido o apelo de jonas,

e de não o ter tirado do ventre da baleia.


Nuno Júdice, in Fórmulas de uma luz inexplicável

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