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21 de março de 2012

Poesia


Ilustração de Andrei Zadorine
No armazém onde apodreciam as batatas, com o cheiro

a terra e raticida dos velhos sacos de estopa, sentei-me

a ler romances de capa e espada nas tardes de calor. Ali,

uma obscuridade de pedra e madeira protegia-me da

luz; um longínquo ruído de cigarras misturava-se

ao voo monótono de sombrios besouros; e do papel

envelhecido dos livros saía o furor de uma paixão que
só nos romances existia. Ah!, em que alcovas secretas

se encontravam os heróis antigos? Que sedas e

cortinas davam acesso a corpos exaustos? Que

ácidas frases traíam decepções de amor? É que

o tempo era feito, então, de tardes sem fim, num
Ilustração de Graham Franciose

tédio solar, multiplicado pela brancura monótona

do horizonte, como se o próprio céu cobrisse a vida

com a sua mortalha luminosa. O romance

chegava ao fim demasiado depressa; os maus

morriam e os bons ganhavam com excessiva facilidade;
a última página não passava de um tímido abraço de

amantes, calando o que viria para além disso. Então, fechando

o livro, dava-se por que a tarde entrava no declínio;

já não se ouviam cigarras, e os besouros escondiam-se
Ilustração de Kirill Chelushkin
nalguma trave do tecto. Sob os sacos, por entre fardos

de palha e peças de máquina, os fantasmas começavam

a acordar. Era o que esse tempo tinha para dar: nem

luz nem treva, nem morte nem vida. Os minutos de

hesitação entre o fim de um livro e o princípio da noite;

e o abrir da porta para o quintal, onde um vento quente

se metia por dentro da lenha já pronta para o forno do pão.

                                                         Nuno Júdice, in Teoria Geral do Sentimento, 1999




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