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28 de janeiro de 2012

O indizível

Ilustração de Vladimir Olenberg

Não é fácil anunciar a partida de alguém que amamos. Só os poetas sabem traduzir o indizível e são capazes de nos substituir quando andamos um dia inteiro às voltas, entre sentimentos, recordações, factos e vivências, para escrever duas linhas e comunicar uma vida.

Esta manhã fui surpreendida com a notícia da morte de uma amiga. Não sei se teve ou não consciência da sua partida; pode ter descansado “ignorante da morte”, mas sem dúvida “certa da sua ressurreição”, como diria Eugénio de Andrade, poeta que elegi para dar voz ao meu balbuciar de palavras contidas. 

Maria Carla Crespo





27 de janeiro de 2012

Uma espera em desassossego



Mesmo quando os livros se empilham na mesa de cabeceira, esperando a possibilidade de me entregar a cada um de um fôlego, sem conseguir encontrar uns dias inteiros plenos de leitura exclusiva, mesmo assim, Deus vem a público, de António Marujo, é para mim uma curiosidade que não resisto a juntar  brevemente aos outros volumes.

A personalidade de Abbé Pierre desassossega-me a espreitar as páginas da sua entrevista e a, com ele, parar os ponteiros do relógio...

23 de janeiro de 2012

O néctar da literatura

"Para se chegar a boas leituras é necessário ler de tudo até que a experiência leitora deixe a sua marca".

FERNÁNDEZ, Juan José Lage, in Animar a leer desde la biblioteca


Jeong Jong Hae
Esta é uma postura de leitura válida para quem começa a desbravar as letras ou para quem se obriga a gostar de determinado livro, autor ou estilo. Se a escola não instituísse um cânone literário, muitos perderiam na vida a oportunidade de se cruzarem com Cesário Verde, Pessoa, Vergílio Ferreira, Sophia ou Saramago, entre muitos outros nomes maiores da literatura portuguesa. O mesmo é verdade para os autores dos cancioneiros medievais, para as crónicas de Fernão Lopes..., para tantas e tantas páginas de literatura, sem esquecer o magistral Eça, que tiveram o intuito de nos deixar provar o que é literatura, mesmo que pontualmente a possamos abandonar.

Genevieve Despres (pormenor)
Tenho as minhas dúvidas sobre se é preciso ler de tudo, aí compreendendo o banal, o fútil, o óbvio. Não será a literatura um alimento do espírito? Entender-se-ia que numa degustação de vinho se provasse todo o tipo de vinho, sem o cuidado prévio de dar a saborear os melhores aromas e sabores do precioso néctar? Assim na literatura.

21 de janeiro de 2012

Leitor perfeito


Ilustração de Rafael Mendoza de Gyves



"A aprendizagem da leitura é progressiva. Cada vez que lemos, aprendemos a ler melhor, enriquecemos o nosso conhecimento de leitura.

O leitor nunca é perfeito."

                                                        Smith, 1986
                                                                                                    

                            
                                               

20 de janeiro de 2012

Bibliotecas íntimas


Ilustração de Mary Blair
Ler em voz alta, ler em silêncio, ser capaz de transportar na mente bibliotecas íntimas de palavras lembradas são capacidades extraordinárias que adquirimos através de métodos incertos.

     Manguel
                                                                                                                         

17 de janeiro de 2012

O Beijo


Essai, de Sandrine Kao


Poema de José Luís Peixoto, pela voz de Margarida Cardeal.



Redes sociais, política e pensamento

Assisti há umas horas a uma sessão sobre o tema proposto pela Assembleia da República para debate nas escolas neste ano letivo, a saber "Redes Sociais: Participação e Cidadania".

Ilustração de Pinzellades al món
Ilustração de Pinzellades al món
Ora, estando a refletir ultimamente sobre a Web 2.0 em geral, que obviamente engloba as redes sociais, dei por mim a identificar as posturas dos emigrantes e dos nativos digitais e, curiosamente, apercebi-me do quanto aqueles se mostraram mais à vontade para debater o tema do que estes, apesar de imersos diariamente no Twitter e no Facebook. Porém, talvez este fenómeno não seja de todo estranho, mas antes um sinal do que um dos oradores expunha, após se ter apresentado mais como um membro do mundo dos livros do que do universo das redes sociais, sem deixar de reconhecer a sua importância  na subscrição de causas humanitárias ou no combate à violência ou à injustiça, dimensões da vida política e de intervenção cívica.


Ilustração de Tesa Gonzalez
Contudo, Gabriel Mithá Ribeiro  assumia claramente a postura de quem se aproxima dos fenómenos tecnológicos e sociais com prudência, como quem os investiga e sobre eles reflete (e inflete o seu percurso), identificando com facilidade os constrangimentos do imediatismo, do clique rápido e fácil e da permitida opinião infundada e imatura, o que contraria a necessária ponderação e preparação dos assuntos antes de sobre eles nos pronunciarmos publicamente (opinião que subscrevo).

O conferencista, investigador e autor de inúmeros artigos na imprensa sobre política educativa Mithá Ribeiro alertava ainda para o facto de ser "mais difícil criar correntes de pensamento que correntes de pressão nas redes sociais".

Ilustração de Valentí Gubianas
E o que sobre isto pensam os jovens? Que contra-argumentos propõem?

O tempo é um escultor fugaz quando as questões nos interessam deveras. Ficou-me, pois, a vontade de continuar o debate, não na perspetiva política (ainda que sempre presente no sentido amplo de polis) mas na articulação e na aplicação das redes sociais à educação, à escola, às Bibliotecas Escolares. Até lá!


Maria Carla Crespo

12 de janeiro de 2012

Um filme que é arte

Este é um filme que proporciona uma leitura da vida diferente da maioria das nossas experiências pessoais, que infelizmente atravessa uma parte significativa da nossa vida profissional quando lidamos com alunos e com as famílias.


Um filme violento, no qual as relações se tecem em diálogos cruzados ou na ausência deles (frente a um ecrã de televisão, por exemplo), na cumplicidade de ligações perigosas (humanas, a meios e substâncias). Um filme violento, que perturba pelo realismo dos diálogos e das situações, pela dádiva presente nos laços familiares. Um filme que sobretudo é arte, pois o fascínio que desperta ultrapassa em muito a história narrada.

Esta é a diferença entre filme e arte. "Sangue do meu sangue" é arte.

9 de janeiro de 2012

A semente

Ilustração de Valentí Gubianas
Portefólio de Leituras conquistou mais de 1 150 cliques em apenas dois meses de existência. A semente continua a crescer.

Obrigada a todos os adeptos das letras e do digital que seguem este portefólio.





Alice no país da leitura

Ilustração de Scott Gustafson
"Para quem não sabe para onde ir, qualquer caminho serve". Esta conhecida afirmação, de Alice no País das Maravilhas, não pode aplicar-se ao papel da Biblioteca Escolar na formação de leitores.

Formar leitores implica, em primeiro lugar, conhecê-los. Depois, importa deslocar o olhar da obrigação para o prazer de ler. A organização do espaço e da coleção da BE há de atrair os mais novos e os menos jovens para esse encontro único que se dá particularmente entre a obra literária e o leitor. A definição de estratégias de leitura contraria o percurso errante evocado por Lewis Carroll.  

5 de janeiro de 2012

Eva sabia

Amor, de Miss Miza
"Eva sabia que estava a nascer nos olhos dele, mais concretamente nas íris cor de sépia, onde começava a ver a dupla pequena imagem da sua figura e da sua identidade. Eva disse-lhe: "Vamos chegar atrasados. Eu marquei com o construtor estarmos lá por volta do meio-dia. Temos de ir." Ele respondeu: "Mas ainda não acabei de engendrar-te."

"É doce estar espelhada nos olhos do amor. E, risonha como sempre, disse alto: É amor, isto? Vou ser tua? (...)"

"Estou a ver se imprimo a tua face na minha" [disse ele].


Ilustração de Özturk
                                 

"Eva sentia ali, de súbito, numa rua de Lisboa, o seu sangue e o dele, à superfície. Sabia que estava a ser criada no sangue dele, e que esse é um dos movimentos do amor, feito de movimento cada vez mais próximo. Ele gritou: "Está ali um táxi." E correram, como dois corpos que começam a querer ser um só."

"Se assim for", disse Eva, já sentada no táxi, "se somos dois corpos que vão ser um, é a Criação ao contrário." 



Excertos do conto "Eva sabia", de Fiama Hasse Pais Brandão,
in Contos da Imagem, Assírio & Alvim

Hoje descobri esta pérola de Fiama Hasse Pais Brandão. Os dias que a literatura tece são sempre mais profundos e luminosos.

Meteorologia bibliotecária

Chovem letras, de James Fryer


2 de janeiro de 2012